O Arsenal confirmou, nesta terça-feira, a contratação de Edu Gaspar como seu novo diretor técnico. O brasileiro deixou a coordenação de futebol da CBF para assumir a reconstrução do clube em que brilhou na Europa, como membro dos Invencíveis, o que será um duro desafio diante da situação financeira dos Gunners e do que precisa ser feito.

O site do Arsenal afirmou que Edu foi contratado para “coordenar a equipe de técnicos do time principal, a categoria de base, a observação e contratação de jogadores para supervisionar a construção constante e o eficiente fortalecimento do nosso time”. Terá, portanto, funções além de operar no mercado de transferências, mas contratar novos jogadores será parte importante do desenvolvimento da equipe que ele tocará.

O problema? Não tem dinheiro. Ou melhor: há menos dinheiro do que os principais adversários da Premier League. Tanto que o primeiro nome para o cargo que Edu agora ocupa foi Monchi, famoso no Sevilla por formar grandes equipes com orçamentos restritos. Os números especulados pela imprensa inglesa, de um baú de aproximadamente € 50 milhões, parecem baixos demais. No mercado atual, não dá um jogador decente.

Mas, mesmo que não seja apenas isso, dificilmente será, salvo grandes vendas, próximo do que o Arsenal precisa para se aproximar dos melhores clubes do país. Há lacunas em todos os setores, tanto pensando em time titular, quanto em elenco para aguentar a maratona do futebol inglês. A situação da defesa, especialmente, é critica, e o meio-campo precisa de reposição com a saída de Aaron Ramsey.

As primeiras movimentações do clube, antes mesmo da chegada de Edu Gaspar, são um bom termômetro. O Arsenal teve uma proposta abaixo dos € 21 milhões recusada pelo Celtic pelo lateral esquerdo Kieran Tierney. O clube escocês quer um valor na casa dos € 28 milhões. Nem é uma diferença tão grande para um clube com o orçamento dos Gunners, e a cautela com que a negociação tem sido tocada por parte dos londrinos indicam que qualquer centavo será valorizado.

O outro potencial negócio é ainda mais emblemático porque os € 45 milhões oferecidas por Wilfried Zaha não são nem metade do que o Crystal Palace deseja pelo marfinense. Tendo acabado de vender Aaron Wan-Bissaka, 21 anos, lateral direito e com poucas partidas de primeira divisão, ao Manchester United por mais do que isso, por que liberaria quem representa praticamente metade do seu time por um valor tão baixo? Quem tem surgido como alternativa para reforçar o ataque é Ryan Fraser, jogador escocês do Bournemouth.

O que ata as mãos do Arsenal é, principalmente, a folha salarial. Estudo da Deloitte sobre a temporada 2017/18 mostrou que o clube teve o nono maior faturamento da Europa, em € 439 milhões, mas, segundo o Guardian, 60% desse valor foi gasto em vencimentos de jogadores. A maior proporção daquela época entre os clubes do grupo de elite, à frente de Liverpool (58%), Chelsea (55%), City (52%), United (50%) e Tottenham (39%).

A grande draga tem sido Mesut Özil, a quem o Arsenal ofereceu € 390 mil por semana para não o perder, ao fim de seu contrato, na mesma época em que Alexis Sánchez saiu para o Manchester United. Naquele mês de janeiro, vieram Pierre Emerick-Aubameyang e Henrikh Mkhitaryan, trocado pelo chileno, levando € 200 mil semanais. Os valores modificaram drasticamente a estrutura salarial administrada por Arsène Wenger.

Quando um jogador ganha tanto, os outros sentem-se autorizados a pedir aumentos, e a principal baixa dessa dinâmica acabou sendo Aaron Ramsey, com quem o Arsenal não conseguiu chegar a um acordo para a renovação. O galês acabou saindo sem compensação para a Juventus, e esse é outro problema. Os Gunners não têm conseguido, nos últimos anos, tirar o máximo dos seus principais ativos.

O vencimento de contratos é um dos fatores. Além de Ramsey, Jack Wilshere saiu de graça para o West Ham e, embora não tenha cumprido as expectativas do início da sua carreira, o meia inglês poderia ter rendido pelo menos algumas dezenas de milhões de euros aos cofres do Arsenal. Danny Welbeck, contratado em 2014 por € 20 milhões, foi liberado ao fim do seu contrato nesta temporada.

A troca entre Sánchez e Mkhitaryan acabou sendo boa para o Arsenal, que, seis meses depois, perderia o atacante de qualquer maneira. Mas, em outra situação, os londrinos poderiam ter recebido muita grana pelo chileno. É muito difícil equilibrar a ambição de manter seus principais jogadores com o valor que eles podem representar no mercado, mas o fato de que a maior venda do Arsenal desde Robin Van Persie foi Oxlade-Chamberlain para o Liverpool, por € 38 milhões, é sinal de que a balança está pendendo demais para apenas um lado.

Dando outros exemplos, Wojciech Szczesny saiu por apenas € 12 milhões e atualmente é titular da Juventus, melhor time da Itália e candidato ao título da Champions League. Serge Gnabry saiu para o Werder Bremen por € 5 milhões e na última temporada foi titular do Bayern de Munique. As valorizações do Transfermarkt, respectivamente em € 35 milhões e € 60 milhões, não são fatos absolutos, mas é difícil imaginar que, com um pouco mais de cuidado, o Arsenal não conseguiria ter tirado mais dinheiro desses negócios. Sozinho, nenhum desses fatores explica a restrição orçamentária do Arsenal, mas todos foram se acumulando para formar a situação atual.

Não é provável que o americano Stan Kroenke tire muito dinheiro do bolso para compensar a situação, confirmando os temores dos torcedores quando ele adquiriu 100% das ações do Arsenal, no começo da última temporada, ao comprar os 30% do russo Alisher Usmanov e ganhar permissão para arrebatar também os 3% restantes de pequenos acionistas. Para bancar a operação, Kroenke tirou um empréstimo de € 667 millhões. E de qualquer maneira, o Fair Play Financeiro, quando a Uefa se propõe a aplicá-lo, impediria altos aportes do dono dos Gunners.

Essa é a situação que o ex-diretor de futebol do Corinthians encontrará no Arsenal. As ambições de torcedores e diretores são as mesmas: retornar à Champions League e montar um time capaz de disputar os principais títulos. Edu Gaspar terá que tocar esse processo com criatividade no mercado, jovens talentos, muitas apostas e poucos erros. Boa sorte.