Telê Santana era técnico havia apenas três anos. Já conquistara um Campeonato Brasileiro, um Carioca e um Mineiro, mas ainda estava ganhando experiência. E aquela partida do Atlético Mineiro contra o Olimpia, em 16 de março de 1972, era sua primeira comandando uma equipe fora do Brasil pela Libertadores. Um jogo que ele nunca esqueceu.

Logo de cara, o Atlético abriu 2 a 0, com gols de Ronaldo e Dario. Os brasileiros ainda tiveram uma boa oportunidade de ampliar para 3 a 0, mas, a partir de então, recuaram. “Fizemos 2 a 0 e perdemos a cabeça, não sei por quê”, lamentava Dario. “Bastaria fazer a bola rolar no chão, de pé para pé, para conseguirmos, inclusive, uma goleada.” Os paraguaios conseguiram diminuir, ainda na primeira metade do primeiro tempo, com Sosa.

O gol reanimou o Olímpia, que passou a dominar o jogo, e o Estádio de Puerto Sajonia (como era chamado, na época, o Defensores del Chaco, que só mudaria de nome dois anos depois), então, virou uma panela de pressão. Essa panela começou a estourar no segundo tempo, quando a torcida passou a jogar diversos objetos para dentro do campo. “O que encontramos lá foi um campinho de futebol, com muito material à disposição dos torcedores, que não tiveram o menor problema para agredir os nossos jogadores, o massagista e o médico”, protestou o presidente do Galo, Fábio Fonseca.

A pressão também aumentou dentro de campo, após os jogadores paraguaios reclamarem de um impedimento e cercarem o árbitro chileno Lorenzo Cantillana. “Com a pressão da torcida, o juiz ficou em pânico e só marcava faltas a favor do Olímpia”, reclamava Telê. “Foi assim que eles conseguiram o empate, numa falta inexistente.” De fato, o gol de Versa foi muito contestado pelos atleticanos: eles diziam que a falta que deu origem ao tento não existira, que Cantillana não tinha autorizado a cobrança e que o primeiro paraguaio a receber a bola estava impedido.

Pelas reclamações, Ronaldo e Dario foram expulsos, e a polícia teve de entrar em campo para conter a briga. “Tomei chute até de soldado lá”, lembraria o capitão do time, Oldair, em entrevista ao Super Esportes, quarenta anos depois. “O problema é que eles estavam dando muita pancada. Houve uma hora que a gente não aguentou e revidou. Aí, o tempo fechou.” Ronaldo seria detido, após o jogo, e levado a um distrito policial, porque Cantillana o acusou de agressão.

Olimpia campeão paraguaio de 1972
Olimpia campeão paraguaio de 1972

Telê, na época, estava revoltado: “Fomos jogar futebol e levamos pedradas da torcida e cacetadas da polícia. Na hora, eu disse ao comandante que, no Brasil, a polícia permanecia em campo para proteger os jogadores. Ele respondeu-me que o Atlético estava no Paraguai. A partir daí, vi que o Olímpia tinha um forte aliado.” O jogo foi reiniciado, mas seguiu nervoso, e Oldair e Versa também acabaram expulsos, interrompendo, mais uma vez, a partida. Não demorou para Lola forçar sua expulsão, deixando o Galo com sete jogadores, o mínimo necessário para que uma partida tenha prosseguimento.

Essa situação, contudo, não duraria, pois Humberto Ramos deixou o campo, alegando contusão, mas Cantillana manteve a bola rolando por cerca de dois minutos, até ser avisado, pelo auxiliar Ramón Barreto, de que o Atlético tinha menos de sete jogadores em campo. “Se os jogadores não saíssem, alguém iria morrer em campo”, justificou Telê. “Era guerra, mesmo.” A partida foi, pois, encerrada, aos 34 minutos do segundo tempo. O Olímpia foi declarado vencedor, ficando com os pontos da partida, apesar do resultado em campo.

O principal jornal do Paraguai, ABC Color, escreveu um editorial sobre o ocorrido, alfinetando os atleticanos: “Nunca tínhamos visto brasileiros tão incorretos.” O goleiro atleticano, o uruguaio Mazurkiewicz, por sua vez, aconselhou seus dirigentes a pedirem um exame antidoping para Cantillana, usando como argumento o fato de que o árbitro não teria entendido nada do que o goleiro falava, apesar de ambos falarem espanhol.

Telê costumava contar que Gregório, o massagista do Galo, tomou uma pedrada e pelo menos seis pontos na cabeça, durante a partida. Uma história que foi recuperada 20 anos depois. O técnico contou o caso às vésperas da estreia são-paulina da Libertadores de 1992. “O massagista, que estava ao meu lado, levou tamanha pedrada, que desmaiou na hora. Fiz questão de voltar a Belo Horizonte com a pedra. A pedrada que o Elivélton levou no Paraguai [no Pré-Olímpico de 1992] não se compara com a que levou o nosso massagista.”