Por Vicktória Rodrigues

Desde que me lembro eu jogo futebol. Jogava dentro de casa, jogava na rua, na escola, em quadras, no society e agora, na faculdade. Quando criança tive uma ou duas bonecas que por sinal nunca foram usadas. Meu negócio sempre foi bola. Meu pai sempre me incentivou, me levava e buscava dos jogos, me dava dinheiro pra ajudar a pagar a quadra com os garotos, comprava chuteira, e daí por diante. Minha mãe nunca disse que é contra, mas também nunca disse que é a favor.

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No colégio, perdi as contas de quantas vezes sofri discriminação por jogar futebol, tanto por parte de alguns poucos “colegas” quanto por parte da coordenação. Sofri muito com xingamentos sobre a minha sexualidade – mesmo que eu não tenha dúvidas sobre ela e que isso fosse completamente irrelevante. Sempre que jogava, lá estavam eles pra acabar com a auto-estima de uma garota de 11 anos que estava construindo sua imagem, sua personalidade e seu caráter. Não deixei de jogar. Pelo contrário. Se por um lado isso me destruía por dentro, por outro me dava inspiração pra continuar jogando – e modéstia parte, cada vez melhor. Por que eles perdiam tempo me desmoralizando eu não sei, talvez porque vivemos numa sociedade machista ou porque eu jogava melhor que eles.

Foi nessa época que me apaixonei pelo São Paulo Futebol Clube. Juntei o dinheiro que meu pai me dava pro lanche e comprei a primeira camisa do meu time do coração. Era enorme, cabia duas de mim dentro dela, não era oficial, e até hoje me lembro da sensação que era estar uniformizada pela primeira vez com as cores do escudo que amo. Lembro que meus amigos da escola fizeram a mesma coisa para comprar as camisas dos times deles e isso criou uma identidade para nós. Os jogos na hora do recreio contra as outras salas eram sempre em clima de final. Passamos o ano invictos e pra mim tanto fazia se eu era a única garota no meio deles.

Ainda no colégio, joguei um interclasse pela minha sala no time masculino porque as outras meninas não jogavam. Fomos vice-campeões e logo depois da final eu ouvi talvez as palavras que mais me incentivaram, de uma ex-professora de Educação Física: “Pra ficar excelente, só faltou um gol seu! Jogou demais!”. Pronto. Sem saber, aquela professora findava a construção da minha auto-confiança e a partir dali eu não daria mais ouvidos a quem quer que fosse sobre jogar futebol, porque era (e é), além de tudo, um dos maiores prazeres da minha vida.

Hoje eu jogo nos finais de semana com meus tios e amigos deles e o respeito que eles têm comigo é difícil de se achar. Sim, jogo com homens e sou a única mulher nos jogos, porque posso contar nos dedos de uma mão só as vezes em que joguei em times femininos. Raramente acho outras meninas que jogam. Lá a gente joga, se diverte, se distrai e principalmente se respeita.