Pouquíssimos ainda vivos o viram jogar, mas muitos reconhecem a sua lenda. Ricardo Zamora segue considerado por muitos como o maior goleiro espanhol de todos os tempos. Opiniões convergentes por ter sido ídolo absoluto no Barcelona e no Real Madrid, além do Espanyol, clube onde passou a maior parte de sua carreira. O goleiro alto e ágil, de posicionamento preciso e defesas arrojadas, atravessou 16 anos defendendo a seleção espanhola. Colecionou grandes histórias com a Roja.

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Garoto de gênio forte, conquistou a prata olímpica em 1920, mesmo sendo expulso em um dos jogos decisivos. Deu um soco no adversário italiano e acabou preso – além de multado por fumar charutos na cadeia. Considerado um galã, gostava da boemia e apreciava um conhaque. Mas o estrelismo fora das quatro linhas não atrapalhava suas atuações sensacionais. Em 1929, a Espanha se tornou o primeiro time fora da Grã-Bretanha a derrotar a Inglaterra. Vitória por 4 a 3, em que Zamora pegou tudo, mesmo com o esterno quebrado. Cinco anos depois, foi eleito o melhor goleiro da Copa de 1934. Defendeu um pênalti contra o Brasil e, nas quartas de final, fez uma sequência de milagres para segurar o empate com a Itália. Mas, machucado, perdeu o jogo de desempate e a Fúria acabou eliminada.

Naquele momento, Zamora já não vivia mais o ápice de sua carreira. Assim, atravessou os anos seguintes sob críticas da imprensa. Até se redimir de maneira espetacular, na decisão da Copa do Rei de 1936. O veterano de 35 anos guardava a meta do Real Madrid no clássico contra o Barcelona. E em sua última partida no país, na última final antes do início da Guerra Civil, o arqueiro operou um milagre inacreditável. No lance derradeiro, evitou o empate blaugrana e garantiu a taça aos merengues com o triunfo por 2 a 1. Encerrou uma trajetória marcante da melhor maneira possível.

Se ainda estivesse vivo, Zamora completaria 115 anos nesta quinta. Já aposentado, ao jornal ABC, o homem que dá nome ao prêmio de melhor goleiro de La Liga relembrou o seu último espetáculo. Relato emocionante publicado em 1988, dez anos após sua morte, que evidencia a grandeza do personagem e daquele milagre em pleno clássico decisivo.

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Eu buscava a ocasião propícia para demonstrar a mim mesmo que era alguém. Olhando bem, pela idade, pelo modo de vida que eu sempre levei, pela saúde, não havia podido perder as faculdades. Por isso coloquei a minha alma para jogar, e joguei. Como?

Em San Mamés, primeiro. Em Alicante, depois. A crítica, essa crítica que é uma impressão da opinião geral e que já titubeava em escolher o adjetivo que havia de me qualificar, voltou a me elogiar com mais calor do que antes. Entre linhas, ia o assombro, a estranheza por aquilo que eu fazia. Em Alicante não se contentaram com o aplauso e os vivas. Vieram a mim os entusiastas com louco alvoroço e me levaram nos ombros.

Noventa minutos! A primeira equipe em que fui campeão espanhol e a última em que ia a sério disputavam a final. Mestalla, local do duelo, havia me visto em várias e memoráveis ocasiões, e voltava a me ver pela última vez.

É, a princípio, uma demonstração dos meus. Começa o jogo rápido e preciso. Aprofunda, penetra na defesa inimiga e ronda os seus baluartes buscando o momento de abrir uma brecha. O perigo, longe, acalma o ânimo. Afirmam-se os meus pés sobre o campo. Os membros se soltam. E, abandonados os curtos passeios de trave a trave, cruzo os braços tranquilo, quieto – só a vista seque o ir e vir da bola – e espero.

Já está aqui! Intervenho uma, duas, três vezes. A vitória, presa em pouquíssima diferença. Tenho que defendê-la. Tamanha responsabilidade! Um só gol de diferença! Um descuido, uma vacilação, e a culpa é minha.

Pressiona o Barcelona insistente, buscando o empate. O tempo transcorre desesperadamente lento. O Madrid, recuado, esgota-se em tremenda defesa e o gol se aproxima. Minutos, segundos faltam para que termine o duelo. O público, em pé, espera o apito final… quando Escolá escapa e fica sozinho diante de mim. Vejo como ele momentaneamente detém sua corrida, como em relâmpago, mede a distância, observa a minha colocação e inicia o disparo. Meus olhos não veem nada além que Escolá. Eu o vejo agigantado: no primeiro plano, os seus pés e a bola. Há um grito imperioso que me ordena por dentro: Por aqui! Inclino o meu corpo para a esquerda, marco o lugar…

Sem um milésimo de atraso, justos, coincidiram a bola e minhas mãos. Fecham-se os dedos segurando o couro. Meu! Nada mais que meu! Absoluta posse do que me pertence, daquilo que ninguém pode me tirar: a bola.

“Não foi gol! Não foi gol!”, ouço ao meu redor. É o título da Copa. Mais que aplausos, são exclamações que estalam como foguetes. “É assombroso, ele pegou! Ele pegou! Ele pegou!”. Em alguns, o tom é de júbilo. Em outros, de decepção. Mãos que lutam para se aproximar de mim, que me cercam, que me prendem e me elevam. Vinte anos de futebol estão aqui, neste instante!

A foto que abre o post registra exatamente a defesa histórica de Zamora, que se tornou lenda no futebol espanhol e nos clássicos entre Real x Barça.