Com todo respeito à final contra a Argentina, ao massacre sobre o Brasil na semifinal, ao suadouro diante da Argélia nas oitavas ou à goleada sobre Portugal na estreia. Nenhum outro jogo foi mais importante na campanha do tetracampeonato mundial da Alemanha do que a vitória sobre a França. Para quem não se lembra, o time de Joachim Löw convivia com várias desconfianças até então. Mas, diante dos Bleus, é que o Nationalelf aprumou o seu jogo embalou rumo ao título na Copa de 2014. Uma ascensão possibilitada pela tecnologia. E também por Daley Blind.

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Não, ninguém se enganou de nome. Mesmo sendo holandês e sem cruzar com os alemães durante o Mundial, Blind teve a sua importância na conquista dos vizinhos. E quem ratifica esse papel fundamental do defensor da Oranje é Christophe Clemens, o chefe da equipe de analistas da Alemanha. “É difícil escolher quem foi o nosso melhor jogador na Copa. Mas Blind nos ajudou. Individualmente, ele foi extremamente importante”, afirma o funcionário da federação, em entrevista ao site holandês De Correspondent. E, não, o chefe da inteligência do futebol alemão não está louco.

A explicação para a importância de Blind começa em meados de 2013, logo após a Copa das Confederações. Restando um ano para o início do Mundial, Joachim Löw gostaria de passar aos seus atletas a forma ideal de se jogar no Brasil. Mais ofensivo do que na Euro de 2012 ou na Copa de 2010, quando os alemães fracassaram nas semifinais. Para isso, o técnico contou com a ajuda de Clemens, Stephan Nopp e uma equipe de cinquenta pesquisadores da Universidade de Colônia, que trabalham para a federação desde 2005. Eles seriam responsáveis por analisar situações de jogo e repassar à seleção, na intenção de “ensinar” o elenco sobre como jogar.

Os jogadores da Alemanha festejam a conquista do Mundial

A coleção de vídeos mostrava situações específicas de jogo, pretendidas por Löw na seleção. Como um passe, uma roubada de bola ou uma transição ofensiva. “Os jogadores também viam imagens de seus adversários, mas a ênfase era no próprio estilo de jogo”, explica Clemens. Como o contato entre os jogadores e os treinos até a Copa aconteceram raras vezes, Oliver Bierhoff (aquele mesmo, ex-centroavante, que atualmente trabalha como diretor técnico da seleção) teve a grande ideia: criar um aplicativo de celular, para manter os jogadores conectados com a seleção rumo à Copa do Mundo. Funcionou.

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“Os jogadores gostam de mexer nos celulares mais do que em sites separados. O aplicativo exibia os vídeos dos próprios jogadores nos treinos e nos jogos, além daquilo que queríamos que absorvessem”, conta Clemens. Aprenderam mais rápido, cada vez mais e começaram a pensar como o próprio técnico: “Eles vinham com sugestões de jogo, exatamente o que nós queríamos. O estilo mudou não porque tínhamos que mudar, mas porque eles queriam”.

O principal trabalho com o aplicativo era mostrar aos jogadores que eles não sabiam o suficiente. E que, aprendendo, poderiam reforçar as chances da seleção na Copa. “Eles pensam como jogadores: já sei isso, esqueça isso. Então, você ensina mais a eles”, conta Clemens. Os resultados começaram a aparecer mesmo durante as Eliminatórias, com situações de jogo vistas através do aplicativo sendo reproduzidas em campo. O Campeonato Holandês e o Mexicano estavam entre os preferidos dos pesquisadores, pelo estilo mais aberto.

Daley Blind, especificamente, entra na história por um jogo com a seleção holandesa sub-21. O defensor pode não ser o mais perfeito em todos os momentos, mas tem uma inteligência tática que empolga os analistas alemães. A forma como se movimenta e ocupa espaços é o que fez a diferença para o Nationalelf. Observando a marcação de Blind em um jogo contra a Alemanha sub-21, é que se encontrou o exemplo para brecar a França na Copa de 2014. “O único critério que usamos é como as ações ilustram o que queremos. E Blind é o modelo perfeito. Um jogador muito bom, um dos melhores da Holanda”, se derrama Clemens.

Benzema foi quem mais tentou no time da França, mas acabou parando em Neuer (AP Photo/Martin Meissner)

Para o jogo contra a França, Löw fez algumas mudanças importantes no time, em especial a volta de Philipp Lahm à lateral. No entanto, mais importante foi a transformação na mentalidade do time. Os alemães tiveram muito mais solidez defensiva do que nas partidas anteriores, sem se expor tanto na marcação adiantada. Algo que o vídeo de Blind no sub-21 ensinou. Exibindo a ação do holandês no aplicativo, o técnico explicou como deveria se parar as tabelinhas francesas – fundamentais para os Bleus, com Benzema fazendo o pivô para as subidas de Pogba, Matuidi, Valbuena e Griezmann.

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“Você pode acreditar em mim: mesmo pensando que sabe tudo, isso é muito errado, mesmo para os jogadores mais experientes. Mesmo para aqueles que estão na Copa do Mundo”, pontua Clemens. Khedira e Kroos, segundo o analista, foram os que mais absorveram a mensagem passada por Blind. Ao invés de acompanharem a jogada, começaram a acompanhar o jogador adversário. Quem vinha de trás teve pouquíssimo espaço naquela partida e, quando Benzema tentou empatar, Neuer salvou os alemães.

A aula de Blind e o aplicativo seguiram úteis contra o Brasil (ou vocês já se esqueceram como Kroos e Khedira foram tratores nos 7 a 1?) e contra a Argentina. Um sistema que inegavelmente ajudou os alemães, ainda que não seja infalível.  Afinal, o clichê “o futebol é uma caixinha de surpresas” tem o seu fundo de verdade. Basta ver os tropeços recentes da Alemanha depois da Copa do Mundo. “Felizmente, o futebol não é determinista, o que todos nós podemos entender. Mas isso não faz que paremos de tentar”, conclui Clemens. Felizmente.