A Libertadores da América tem um charme indissociável que a caracteriza há mais de seis décadas, com jogos pegados, catimba, torcidas inflamadas, festa nas arquibancadas e o sangue latino fervendo a cada disputa de bola. Enfrentar e bater os mais poderosos times do continente sul-americano, em embates que atravessam gerações, vale o caneco que o qualifica como melhor equipe do continente. A Libertadores tem o legado da libertação. Está no nome. Mas como começou essa trajetória?

Os primórdios da América

O Wanderers de 1911

O primeiro jogo internacional fora do berço das ilhas britânicas foi disputado em 1901 entre argentinos e uruguaios. Para colocar em perspectiva, a Fédération Internationale de Football Association (FIFA) só foi criada em 1904, três anos depois. Durante o início da década de 1910, os torneios amistosos eram comuns entre as seleções da América do Sul.

O embrião de um campeonato sul-americano entre seleções, que viria se tornar a Copa América, aconteceu em 1910, durante a comemoração do centenário da Revolução de Maio na Argentina. Afora, alguns países colocavam uma taça em jogo anualmente durante os seus confrontos, casos da Copa Newton, entre Argentina e Uruguai, a partir de 1906; e da Copa Roca, entre Argentina e Brasil, a partir de 1914.

A primeira competição entre clubes de diferentes países foi a Cup Tie Competition, também chamada Copa Competencia Chevallier Boutell. Organizada primeiramente por entidades anteriores às associações de futebol da Argentina e do Uruguai, ela surgiu em 1900 e durou até 1919. Até 1906, seus participantes eram formados por dois clubes da Liga da Argentina, um da Liga Rosarina e um da Associação Uruguaia. A partir de 1907, apenas o campeão argentino, da então Copa Competencia Jockey Club, e o campeão uruguaio, da Copa de Competencia, disputavam a Cup Tie Competition, em um jogo único em Buenos Aires.

Paralelamente à Cup Tie Competition, em 1905 surgiu a Copa de Honor Cousenier, que foi disputada até 1920 pelos campeões da Copa Honor, do Uruguai, e da Copa Honor de Municipalidad de Buenos Aires, da Argentina.

Posteriormente a essas competições envolvendo argentinos e uruguaios, surgiu a famosa Copa Rio da Prata. A competição também foi organizada pelas associações de futebol da Argentina e do Uruguai, da qual participavam os campeões de cada país, inicialmente em um único jogo. A primeira Copa Rio da Prata ocorreu em 1914 entre Estudiantes de La Plata e River Plate.

Foi só aí, depois desses ensaios de torneios amistosos – entre seleções e clubes -, que a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), durante uma reunião com autoridades nacionais e membros da FIFA, foi constituída em 1916, na cidade de Buenos Aires. Trata-se da primeira confederação de futebol criada.

Depois disso a coisa começou a acelerar. A primeira edição do Campeonato Sul-Americano de seleções, de fato organizada pela entidade, aconteceu naquele mesmo ano, na Argentina. Além dos anfitriões, também participaram Brasil, Chile e Uruguai – únicos países com seleções formadas até então, enquanto a falta de desenvolvimento no futebol, os custos e as questões logísticas atrapalhavam os demais.

No ano seguinte, o torneio já respondia pela alcunha de Copa América e ganhou um troféu oficial para as suas edições seguintes, realizadas anualmente – até o fim da década seguinte, com exceção de 1918, adiado por conta de um surto de gripe espanhola no Rio de Janeiro. O Brasil recebeu e conquistou o torneio pela primeira vez em 1919.

Argentina, Brasil, Chile e Uruguai estavam filiados à Conmebol desde o início da confederação. Mais tarde, Paraguai (1921), Peru (1925), Bolívia (1926), Equador (1927), Colômbia (1936) e Venezuela (1952) se juntaram a ela.

A Copa Rio da Prata, que fora disputada em 1914, voltou a acontecer em 1916 e continuou sendo competida até 1955, com alguns contratempos no meio do caminho. No total, foram 14 Copas sem controvérsias. Os campeões foram o River Plate, da Argentina, em cinco ocasiões (1936, 1937, 1941, 1945, 1947); o Nacional, do Uruguai, em três (1916, 1919, 1920); o Racing Club, de Avellaneda, em duas (1917, 1918); o Independiente, de Avellaneda, em duas (1938, 1939); o Peñarol, do Uruguai, em uma (1928); e o San Lorenzo de Almagro, em outra (1927).

Década de 1930: profissionalismo do futebol

Leônidas da Silva

A América do Sul foi um laboratório do futebol profissional. Jogos registrados no paleolítico do esporte, primeira confederação internacional criada, amistosos e excursões entre seleções e clubes. Se na década de 1910 tivemos os primeiros ensaios de torneios, e na seguinte a organização de fato dos mesmos, a década de 1930 foi marcada pela profissionalização do ofício.

Exemplo é a excursão do América, um dos primeiros brasileiros a assumir a ousadia, em 1933, que se deparou com uma realidade totalmente diferente nos países fronteiriços ao Rio da Prata. A nova era possibilitava intercâmbio muito maior. Em 1934, o Fluminense foi outro que seguiu o movimento: contratou o ponta Juan Arrillaga, ex-seleção. O campeão Vasco importou Salvador D’Alessandro, Roque Calocero, Valentín Navamuel, Hugo Lamanna e Esteban Kuko. Diferentemente da aposta alta do clube da Tijuca, que trouxe de uma vez oito argentinos. Incluindo gente renomada.

No primeiro Uruguai x Brasil no mítico Centenário, em 1932, a atuação de Leônidas da Silva pela extinta Copa Rio Branco impressionou os uruguaios. Com o profissionalismo instituído no futebol do país vizinho, o Diamante Negro acabou levado pelo Peñarol. Causou impacto com a camisa aurinegra, mas a vestiu por pouco tempo, antes de voltar ao Vasco. Na mesma ocasião, Domingos da Guia, o Divino Mestre da zaga, ficou na cidade e assinou com o Nacional, no qual compôs uma das melhores defesas da história, ao lado de José Nasazzi, capitão da Celeste.

Arsenio Erico começou sob as cores da bandeira do Paraguai. O garoto estreou no Nacional quando tinha apenas 15 anos e logo se tornou a sensação da Academia, potência do Campeonato Paraguaio durante os anos 1920. Porém, o jovem atacante teve pouco tempo para fazer o seu nome em Assunção. Em 1932, estourou a Guerra do Chaco, entre paraguaios e bolivianos. Para sua sorte, o prodígio era menor de idade para ir ao front, mas se juntou ao time da Cruz Vermelha, que passou a excursionar para levantar fundos aos feridos no conflito.

Se o Nacional o revelou, Erico realmente estourou com a camisa da Cruz Vermelha. Com a equipe solidária, o atacante de ótimo porte físico e faro de gol apuradíssimo chamou a atenção dos argentinos. Passou por Bahía Blanca, Montevidéu e Buenos Aires. Na capital vizinha, arrebentou em um amistoso contra o River Plate. O suficiente para que se tornasse objeto de cobiça de algumas das principais equipes do país.

Quando estava em um acampamento com os jogadores paraguaios na cidade de Merlo, um sócio alvirrubro o fez se interessar pelo Independiente de Avellaneda. Erico estava próximo de completar 18 anos e se alistar para o exército. O Independiente negociou não apenas com o Nacional, mas também com o Departamento Geral de Guerra. Por uma doação de 2 mil pesos à Cruz Vermelha e mais 2,5 mil ao jogador, o atacante fechou contrato.

O profissionalismo do futebol sul-americano começava a unificar as fronteiras e reacender a prototipada ambição de reunir os craques do continente em uma só competição. O que aconteceu, no ano de 1948, um marco para a história do esporte.

1948 e o Campeonato Sul-Americano de Campeões

Vasco enfrenta o River Plate em 1948

Depois de anos de insistência dos dirigentes do Colo-Colo, do Chile, que lutavam para realizar uma competição em que equipes de outros países fora do eixo do Rio da Prata pudessem participar, foi criado o projeto de um campeonato de campeões.

Em 1948, entre 11 de fevereiro e 17 de março, foi organizado o Campeonato Sul-Americano de Campeões. O Vasco da Gama foi o representante brasileiro, por ser o campeão do Rio de Janeiro em 1947, cidade que, naquela época, era a capital do Brasil. Ademais, o Campeonato Carioca era considerado o mais importante do país, já que não existiria um campeonato nacional até 1959.

Também participaram do torneio o River Plate, da Argentina; o Litoral, da Bolívia; o Colo-Colo, do Chile; o Emelec, do Equador; o Municipal, do Peru; e o Nacional, do Uruguai. A Colômbia não teve representante, porque seu campeonato nacional só começaria a partir daquele ano; já a Venezuela apenas se filiaria à Conmebol em 1952; o Paraguai, por sua vez, não enviou ninguém à competição por causa da Guerra Civil que assolava o país a partir de 1947.

O torneio foi disputado no sistema todos contra todos e o Vasco da Gama tornou-se campeão após quatro vitórias e dois empates, desbancando o maior vencedor da Copa do Rio da Prata, o River Plate, que ficou em segundo lugar com quatro vitórias, um empate e uma derrota. Esse foi o primeiro título de um clube brasileiro no exterior.

Um fato interessante do Campeonato Sul-Americano de Campeões e que mudou a história do futebol europeu foi a presença dos jornalistas franceses Jacques Ferran e Gabriel Hanot, que cobriram o torneio para o jornal francês L’Equipe. Poucos anos depois, em 1951, em parceria com Ottorino Barassi, importante homem da Fifa, braço direito de Jules Rimet, Hanot promoveu na Europa a ideia de um torneio que reunisse clubes de diversos países no Rio de Janeiro. A primeira edição da Taça Rio, embrião de um campeonato mundial, teve representantes de cinco nações europeias e duas sul-americanas e foi vencida pelo Palmeiras.

Os dois jornalistas ficaram entusiasmados com a ideia de um campeonato entre clubes europeus. Hanot também estava enfastiado na época de ver o Wolverhampton, da Inglaterra, se auto-intitulando “Campeão do Mundo”, após uma série de vitórias em amistosos contra Racing, Spartak Moscou e Honvéd. Posteriormente, Hanot faria a proposta de criar um torneio entre clubes do Velho Continente. E a Uefa aceitou a sugestão, criando, em 1955, a então Copa dos Campeões, que durou até 1990/91 e depois foi repaginada como Champions League.

No início dos anos 1990, a Conmebol lançou um livro, “30 Anõs de Pasión Y Fiesta”, que contava a história da Copa Libertadores, e que afirmava que a competição de 1948 havia sido sua antecedente. O livro dizia:

“Don Robinson Alvarez Marín, dirigente do Colo-Colo, foi quem criou a ideia no final da década de 1930. Em 1948, com Don Luis Valenzuela como presidente da Confederação, foi disputado o antecedente mais concreto e orgânico: a Copa dos Campeões. Foi em Santiago, Chile, durante fevereiro e março daquele ano, com os vencedores da temporada anterior em cada país. Foi vencido pelo Vasco da Gama (Brasil) e também participaram River Plate (Buenos Aires, Argentina), Nacional (Montevidéu, Uruguai), Colo Colo (Santiago, Chile), Emelec (Guayaquil, Equador), Litoral (La Paz, Bolívia) e Deportivo Municipal (Lima, Peru)”.

El Dorado colombiano enfraquece ligas argentinas e uruguaia

Di Stéfano, o nome mais forte da liga pirata colombiana  (Foto: AP)

O profissionalismo, em partes, representou uma libertação ao futebol. Essa libertação, porém, não representava necessariamente a liberdade ao futebolista. Argentinos e uruguaios lideraram aquela que provavelmente foi a greve mais significativa da história da modalidade.

A adoção do profissionalismo na Argentina e no Uruguai, durante o início da década de 1930, não cessou as reivindicações dos jogadores. As primeiras organizações em prol dos direitos dos futebolistas surgiram exatamente neste momento, exigindo subsídios em caso de lesão e premiações por títulos. No Uruguai, especificamente, os atletas criaram em 1938 a Agrupação de Jogadores Uruguaios Profissionais, presidida por ninguém menos que José Nasazzi, a lenda que se eternizou como capitão da Celeste Olímpica e do título mundial em 1930.

A situação dos profissionais do futebol seguia degradante nos anos 1940. Pelo sistema de passes, os jogadores estariam ligados por toda a vida ao clube que detinha o seu contrato. Apenas os dirigentes, e não os atletas, decidiam as transferências. Além disso, as arbitrariedades dos cartolas eram comuns.

A insatisfação crescente levou os jogadores a se reorganizarem em ambos os países. Em 1944, surgiu a Futebolistas Argentinos Agremiados (FAA), que representava os interesses da classe no país. Iniciativa reproduzida também do outro lado do Rio da Prata. Dois anos depois, foi criada a Mutual Uruguaia de Futebolistas Profissionais. As reclamações seguiam as mesmas, mas havia uma renovada energia na luta pelos direitos. Em contrapartida, os dirigentes argentinos e uruguaios se recusavam a reconhecer ambas as entidades. E a partir disso se desenrolaram as lutas, durando por meses, cada uma com suas características particulares.

Em março de 1948, o ascendente Alfredo Di Stéfano se recusaria a aceitar o salário inicialmente proposto pelo River Plate em sua renovação contratual. Questionou os dirigentes até que chegassem a um acordo, embora permanecesse diretamente envolvido com a FAA. Semanas depois, em abril, veio o estopim: centenas de jogadores se reuniram na sede da Federação Argentina de Boxe e votaram pela greve. Rechaçaram a nova regulamentação proposta pela AFA (a federação argentina) que, segundo eles, piorava as condições de trabalho.

Os cartolas convocaram uma reunião com a finalidade de encerrar o futebol profissional e retomar o amadorismo, também suspendendo o Campeonato Argentino e proibindo qualquer amistoso. Ao final, o conselho diretivo da AFA decidiu adotar uma postura mais branda, pedindo para que os futebolistas profissionais participassem da reta final da liga em “homenagem aos torcedores”. Ainda assim, ameaçava aqueles que não entrassem em campo com punições e até prometia suspender por dois anos os atletas que decidissem terminar unilateralmente seus contratos vigentes. Obviamente, os apelos não foram atendidos pelos jogadores.

A postura dos argentinos se refletiu no Uruguai. Se as greves nas adjacências de Buenos Aires eram intermitentes, a de Montevidéu demorou mais a começar, mas foi ininterrupta até o cessar-fogo. Os motivos, aliás, eram bem parecidos. Os dirigentes dos clubes se negaram a reconhecer a Mutual Uruguaia de Futebolistas Profissionais. Diziam que a organização era clandestina e não tinha qualquer validade nas discussões por melhores condições. A queda de braço durou até outubro de 1948, quando os jogadores uruguaios fincaram o pé: entraram em greve até que a sua organização fosse devidamente reconhecida. Além disso, incluíram outras pautas na paralisação, como a exigência por salários melhores e reformulações na lei do passe.

As consequências do desgaste, entretanto, foram devastadoras ao Campeonato Argentino. As principais estrelas do futebol local preferiram buscar novos clubes no exterior – do México à Itália, mas sobretudo na Colômbia. Com o surgimento do Campeonato Colombiano profissional, a debandada à liga pirata do chamado “El Dorado” foi ampla. Como não eram filiados à FIFA, os clubes cafeteros não pagavam os valores das transferências e atraíram os craques pagando salários suntuosos. Formaram verdadeiros esquadrões, com abundante talento argentino – incluindo jogadores do calibre de Di Stéfano, Pedernera, Néstor Rossi, Héctor Rial, José Manuel Moreno, entre outros.

Hoje, um inglês que pedisse para sair do Manchester United para jogar no Independiente Santa Fe, de Bogotá, seria tachado de louco. Mas isso já aconteceu. Foi o caso de Charlie Mitten, que virou colega de alguns argentinos no novo clube, com destaque para René Pontoni, ex-artilheiro do San Lorenzo que era ídolo do Papa Francisco. Mitten era da seleção e não foi o único britânico a fazer algo do tipo: Neil Franklin, outro do English Team, deixou o Stoke City também ao Santa Fe. O escocês Bobby Flavell veio do Hearts ao Millonarios.

Se o ambiente era sedutor a europeus, imagine então para sul-americanos, com profissionalismo ainda nos primeiros passos? A liga Dimayor encheu-se de jogadores “sudacas”, especialmente argntinos. A ponto de até hoje haver mais argentinos artilheiros por lá (35) do que colombianos (26).

A liga atraía brasileiros também. O ídolo botafoguense Heleno de Freitas jogou no Atlético Junior, que contou também com Dida, o artilheiro flamenguista reserva de Pelé na Copa 1958; Oreco, também de 1958; Norival, ex-Flamengo e Fluminense nos anos 50; Silva Batuta, que foi à Copa 1966 e na Argentina brilhou no Racing. Quarentinha, o maior artilheiro do Botafogo, passaria pelo Deportivo Cali e Unión Magdalena.

Esse cenário de enfraquecimento das ligas argentinas e uruguaias – as principais do continente – e da ascensão da “liga pirata” colombiana fizeram com que o Campeonato Sul-Americano de Campeões não tivesse longevidade. Mas a semente estava plantada. Já era tarde demais para tirar essa ideia da cabeça do continente.

1960: surge a Copa dos Campeões da América

Coutinho ao centro com Dorval, Mengálvio, Pelé e Pepe, no lendário Santos dos anos 60.

Em 1958, durante o Congresso Sul-Americano no Rio de Janeiro, Henri Delaunay, secretário-geral da UEFA na época, propôs organizar um confronto anual dos campeões da Europa e da América do Sul. Nesse congresso também foi debatida a criação de um campeonato sul-americano de clubes, nos moldes de 1948, que teve o apoio de argentinos e brasileiros, mas não dos uruguaios, que alegaram que isso prejudicaria a Copa América.

O fim da sangria realizada pelos clubes colombianos voltou a reforçar as seleções a partir de 1956. Naquele ano, em 1957 e na primeira edição de 1959, a Copa América voltou a viver o seu esplendor. Acabou marcada pela Argentina e pelo Uruguai, que impediram a conquista do Brasil campeão mundial em 1958 – mesmo levando Pelé e Garrincha à disputa em Buenos Aires no ano seguinte ao título na Suécia.

O problema é que o campeonato voltaria a perder apelo, em um momento no qual a Libertadores ascenderia entre os clubes do continente. O fato de duas edições diferentes terem sido realizadas em 1959 já evidencia os problemas. A resistência uruguaia acabou em 5 de março de 1959, no 24º Congresso Sul-Americano, realizado em Buenos Aires, quando alguns dirigentes chilenos propuseram instituir, então, uma Copa dos Clubes Campeões da América.

Aprovado o projeto, ficou decidido que apenas os campeões de cada país poderiam disputar o torneio. Com exceção do Brasil, todos os outros países já disputavam seus campeonatos nacionais. As competições brasileiras eram estaduais ou regionais, como o Torneio Rio-São Paulo, disputado desde 1933. Existia também o Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais, mas não o Campeonato Brasileiro de Clubes.

Com a criação da Copa dos Campeões da América, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) organizou o primeiro Campeonato Brasileiro em 1959, no qual apenas os campeões estaduais de 1958 poderiam competir. Ele ficou conhecido como Taça Brasil.

Os campeonatos nacionais ficaram mais disputados e profissionais a partir de 1959, pois, além do prestígio de se tornar campeão nacional, o clube teria direito de disputar a Copa dos Campeões, que definiria o melhor time do continente. Este, por sua vez, ainda poderia participar da Copa Intercontinental, contra o melhor clube europeu, para definir qual seria o melhor time do mundo.

Na primeira edição, em 1960, participaram os campeões de sete países. O Bahia, campeão da Taça Brasil de 1959, foi o primeiro clube brasileiro a disputar o torneio. Também participaram Jorge Wilstermann da Bolívia, Millonarios da Colômbia, Olímpia do Paraguai, Peñarol do Uruguai, San Lorenzo da Argentina e a Universidad do Chile.

No dia 19 de abril de 1960, no Estádio Centenário em Montevidéu, aconteceu o primeiro jogo da Copa dos Campeões, entre Peñarol e Jorge Wilstermann, com vitória dos uruguaios por 7×1. O atacante uruguaio Carlos Borges foi o primeiro jogador a marcar um gol na competição, aos 13 minutos do primeiro tempo. O campeão foi o Peñarol.

Em 1961, o Peñarol voltou a vencer a competição, que ainda não despertava o interesse esperado no continente. Isso até o ano seguinte, 1962, quando o Santos de Pelé entrou em ação para mudar as regras do jogo e encantar o mundo, mas o próprio clube paulista abriu mão de participar três vezes na década de sessenta. A partir de 1965, a Copa dos Campeões da América foi renomeada para Taça Libertadores da América e passavam a participar também os vices-campeões nacionais.

Quem são os Libertadores da América?

Simón Bolívar

O nome com que foi batizada a competição não homenageia uma instituição em si – como comumente acontece -, mas sim o conjunto de líderes dos processos de independência dos países da América do Sul. Influenciados pelo Liberalismo, esses líderes – de origem ibérica – buscavam conquistar a autonomia do território latinoamericano.

Destaque para José de San Martín e Simón Bolívar. Militar argentino, San Martín (1778-1850) serviu o exército espanhol por mais de 20 anos e, em 1812, insurgiu contra o governo, aderindo ao movimento de emancipação. Conquistou a independência da Argentina em 1816, e mais tarde a do Chile (1818) e Peru (1821).

Simón Bolívar (1783-1830) nasceu na Venezuela e foi a figura central da libertação da América espanhola. Conhecido como ‘O Libertador’, o militar e político é lembrado como herói revolucionário da América do Sul. De perfil diplomático, é responsável pela independência da Venezuela, Colômbia, Peru, Equador e Bolívia.

Embora seja creditada à dupla a moldagem e criação do primeiro projeto de integração dos países sul-americanos, a verdade é que foram diversos os nomes que puxaram o movimento, tais quais: José Gervasio Artigas, do Uruguai; Bernardo O’Higgins e José Miguel Carrera, do Chile; Manuel Belgrano, da Argentina; Antonio José de Sucre, da Venezuela; José Joaquín de Olmedo, do Equador; e Dom Pedro I, do Brasil.

O termo Libertadores é uma alcunha que retrata o agarrar dos ideais de Liberdade. Apesar de envolver ainda outros termos e objetivos abrangentes, em suma, os Libertadores se pautariam neste conceito.

Quem participa da Libertadores da América?

Na primeira edição do torneio, participaram campeões nacionais de sete países. No ano seguinte, foram nove e no outro dez, mas a verdade é que esses números oscilaram até 1965. Já na segunda metade da década de 1960, a quantidade de equipes alternava entre 17 e 20. De 1974 até 1997, a Libertadores contou com 21 equipes, com exceção para 1986 e 1990, que tiveram 19.

Em 1998, a competição mudou o formato e inseriu a fase preliminar, conhecida como Pré-Libertadores, que elevou o número de equipes para 23. A partir dos anos 2000, o número de equipes subiu, mais uma vez, e até 2009 alternou entre 32 e 38 participantes. Em 2010, o número foi para 40, mas, no ano seguinte, voltou para 38.

Desde 2017, a Pré-Libertadores passou a contar com três classificatórias para a fase de grupos. Com isso, o número de times que disputam a competição foi para 47.

Atualmente, participam da Libertadores o atual campeão da competição, o campeão da Copa Sul-Americana e o campeão nacional dos 10 países participantes. As outras equipes classificadas são definidas por meio dos critérios determinados pelas confederações de cada país, mas em geral, são os primeiros colocados dos campeonatos nacionais.

No Brasil, classificam-se o campeão da Copa do Brasil e os seis primeiros colocados do Campeonato Brasileiro da Série A. Se o campeão da Copa do Brasil estiver entre os seis primeiros da Série A, o sétimo colocado do Brasileirão também entra na Libertadores. Caso o campeão da Libertadores ou da Sul-Americana seja um time brasileiro, a competição não tira uma vaga do país campeão. Sendo assim, o Brasil pode chegar a ter até nove representantes na Libertadores.

As vagas para a Copa Libertadores da América estão atualmente distribuídas assim:

  • Brasil (7 vagas): Fase de Grupos (5 vagas) + Fase 2 (2 vagas)
  • Argentina (6 vagas): Fase de Grupos (5 vagas) + Fase 2 (1 vaga)
  • Chile (4 vagas): Fase de Grupos (2 vagas) + Fase 2 (2 vagas)
  • Colômbia (4 vagas): Fase de Grupos (2 vagas) + Fase 2 (2 vagas)
  • Uruguai (4 vagas): Fase de Grupos (2 vagas) + Fase 2 (1 vaga) + Fase 1 (1 vaga)
  • Equador (4 vagas): Fase de Grupos (2 vagas) + Fase 2 (1 vaga) + Fase 1 (1 vaga)
  • Paraguai (4 vagas): Fase de Grupos (2 vagas) + Fase 2 (1 vaga) + Fase 1 (1 vaga)
  • Peru (4 vagas): Fase de Grupos (2 vagas) + Fase 2 (1 vaga) + Fase 1 (1 vaga)
  • Bolívia (4 vagas): Fase de Grupos (2 vagas) + Fase 2 (1 vaga) + Fase 1 (1 vaga)
  • Venezuela (4 vagas): Fase de Grupos (2 vagas) + Fase 2 (1 vaga) + Fase 1 (1 vaga)
  • Campeão da Copa Libertadores: vaga direta na fase de grupos
  • Campeão da Copa Sul Americana: vaga direta na fase de grupos

Total de 47 vagas, 28 diretas a fase de grupos, 13 na fase 2 e 6 na Fase 1.

Todos os campeões da Libertadores da América

Os argentinos levam vantagem como maiores vencedores da competição, com 25 títulos; o Brasil vem logo na sequência, com 18 títulos no total; e em terceiro lugar vem o Uruguai, com 8 títulos.

O Independiente, da Argentina, com 7 títulos, é o maior campeão da Libertadores; logo atrás, vem o Boca Juniors, também da Argentina, com 6 taças; o terceiro maior vencedor do torneio é o Peñarol, do Uruguai, com 5 títulos. Entre os brasileiros, há um empate: São Paulo, Grêmio e Santos conquistaram três títulos cada um.

Confira a lista com todos os campeões:

  • 7 títulos: Independiente – ARG (1964, 1965, 1972, 1973, 1974, 1975 e 1984)
  • 6 títulos: Boca Juniors – ARG (1977, 1978, 2000, 2001, 2003 e 2007)
  • 5 títulos: Peñarol – URU (1960, 1961, 1966, 1982 e 1987)
  • 4 títulos: Estudiantes – ARG (1968, 1969, 1970 e 2009); River Plate – ARG (1986, 1996, 2015 e 2018)
  • 3 títulos: Grêmio – BRA (1983, 1995 e 2017); Nacional – URU (1971, 1980 e 1988); Olímpia – PAR (1979, 1990 e 2002); Santos – BRA (1962 , 1963 e 2011); São Paulo – BRA (1992, 1993 e 2005)
  • 2 títulos: Atlético Nacional – COL (1989 e 2016); Cruzeiro – BRA (1976 e 1997); Internacional – BRA (2006 e 2010)
  • 1 título: Argentinos Juniors – ARG (1985); Atlético Mineiro – BRA (2013); Colo-Colo – CHL (1991); Corinthians – BRA (2012); Flamengo – BRA (1981); LDU – EQU (2008); Once Caldas – COL (2004); Palmeiras – BRA (1999); Racing – ARG (1967); San Lorenzo – ARG (2014); Vasco – BRA (1998); Vélez Sarsfield – ARG (1994).

Maiores artilheiros da Libertadores

Spencer, o craque do Peñarol

O maior artilheiro na história da Libertadores é o equatoriano Alberto Spencer. Ele marcou um total de 54 gols, conquistou 3 títulos na década de 60 e disputou a competição pelo Peñarol e pelo Barcelona do Equador.

O maior artilheiro de uma única edição é o argentino Daniel Onega, responsável por marcar 17 gols na edição de 1966, quando atuava pelo River Plate. Entre os brasileiros, Luizão foi o maior goleador, com 29 gols – ele ocupa agora a sexta posição no ranking geral, empatado com o colombiano Antony de Ávila e com o argentino Juan Carlos Sarnari.

Os 10 maiores artilheiros da Libertadores são:

  • Alberto Spencer – EQU (54 gols);
  • Fernando Morena – URU (37 gols);
  • Pedro Rocha – URU ( 36 gols);
  • Daniel Onega – ARG (30 gols);
  • Julio Morales – URU (30 gols);
  • Antony de Ávila – COL (29 gols);
  • Juan Carlos Sarnari – ARG (29 gols);
  • Luizão – BRA (29 gols);
  • Luis Artime – ARG (26 gols); 
  • Oswaldo Ramírez – PER (26 gols).

Maiores artilheiros brasileiros na Libertadores

  • Luizão (29 gols): o centroavante Luizão marcou um total de 29 gols jogando por quatro clubes brasileiros: Vasco, São Paulo, Corinthians e Grêmio. E foi campeão em duas vezes: em 1998 pelo Vasco e em 2005 pelo São Paulo.
  • Palhinha (25 gols): Palhinha conquistou o primeiro título da história do Cruzeiro no torneio em 1976 e ainda anotou 25 tentos com a camisa celeste.
  • Célio Taveira (22 gols): Célio Taveira é um brasileiro que se consagrou pelo Nacional do Uruguai, onde marcou 22 gols.
  • Jairzinho (21 gols): Jairzinho disputou a Libertadores com o Cruzeiro – onde foi campeão em 1976 -, Botafogo e Jorge Wilstermann, da Bolívia. Marcou no total 21 gols.
  • Guilherme (19 gols): O atacante Guilherme marcou 19 gols, vestindo 4 camisas diferentes: Atlético Mineiro, Grêmio, Cruzeiro e Vasco.
  • Tita (18 gols): Tita marcou 18 gols e conquistou dois títulos, com o Flamengo em 1981 e com o Grêmio em 1983.
  • Marcelinho Carioca (18 gols): Marcelinho marcou 18 gols representando duas das maiores torcidas do Brasil: Corinthians e Flamengo.
  • Ricardo Oliveira (19 gols): o centroavante marcou 19 gols na Libertadores, com as camisas de Santos, São Paulo e do Atlético Mineiro.
  • Fred (18 gols): Fred tem 18 gols pela Libertadores, jogando com as camisas do Cruzeiro, Atlético Mineiro e Fluminense.
  • Pelé (17 gols): o Rei marcou 17 vezes no torneio continental, todas pelo Santos, pelo qual foi bicampeão em 1962 e 1963.

Regulamento da Libertadores

A Libertadores é disputada em 8 fases. Todas as fases, exceto a final, são disputadas com dois jogos, um de ida e um de volta, em cada país dos clubes participantes. De um total de 47 equipes classificadas para a competição, 6 ingressam na fase 1, 13 na fase 2 e 28 diretamente a fase de grupos.

Fase 1: 6 clubes disputam esta fase: 1 da Bolívia, 1 do Equador, 1 do Paraguai, 1 do Peru, 1 do Uruguai e 1 da Venezuela. Os confrontos das Fases 1, 2 e 3 são definidos na mesma cerimônia de sorteio.

Fase 2: as 3 equipes classificadas da Fase 1 se juntam a outras 13 equipes que ingressam diretamente a esse fase. Os clubes que ingressam nessa etapa da competição são 2 do Brasil, 2 da Colômbia, 2 do Chile e 1 equipe das outras 7 associações: Argentina, Bolívia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai, Venezuela. Após jogos de ida e volta, 8 clubes avançam a Fase 3.

Fase 3: Nessa fase, as 8 equipes classificadas se enfrentam e os confrontos já estão determinados no sorteio da Fase 1. Os jogos são em forma de ida e volta e os 4 classificados, avançam a fase de grupos.

Fase de grupos: as 4 equipes classificadas na segunda fase se juntam a outras 28 equipes classificadas diretamente a fase de grupos. As 28 equipes vem do Brasil (5 participantes), Argentina (5 participantes) e 2 clubes de cada uma das outras 8 associações da Conmebol: Bolívia, Equador, Chile, Colômbia, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela, além dos campeões do ano anterior da Copa Libertadores e da Copa Sul Americana. As 32 equipes são divididas através de sorteio, em 8 grupos de 4 equipes cada um, onde após jogos de ida e volta dentro dos mesmos grupos, os 2 primeiros de cada grupo avançam à fase de oitavas de final e os terceiros colocados disputam a Copa Sul Americana.

Oitavas de Final: os 16 classificados da fase de grupos são divididos em 2 potes para o sorteio dos confrontos das oitavas de final. No pote 1 ficam as equipes que obtiveram o 1º lugar nos seus grupos e no pote 2 as equipes que ficaram na 2ª colocação da sua chave. Os confrontos ocorrem em dois jogos, sendo que o segundo e decisivo jogo ocorre na casa da equipe que tiver a melhor campanha na fase de grupos.

Quartas de final: os confrontos das quartas de final em diante já são determinados no sorteio das oitavas de final. Os confrontos das oitavas são ordenados por letras, começando da letra A até a letra H e os confrontos das quartas de final são:

A x H (o vencedor será o S1, ou semifinalista 1)

B x G (o vencedor será o S2, ou semifinalista 2)

C x F (o vencedor será o S3, ou semifinalista 3)

D x G (o vencedor será o S4, ou semifinalista 4)

Semifinal: os 4 vencedores dos confrontos de quartas de final também já têm seus confrontos determinados pela tabela a partir do sorteio das oitavas de final, ou seja:

S1 x S4 (o vencedor será o F1, ou finalista 1)

S2 x S3 (o vencedor será o F2, ou finalista 2)

Final: a partir de 2019, a final da Libertadores será disputada em jogo único, numa sede neutra.