Em alguma viagem do Ajax, antes de o clube holandês dominar a Europa, um jovem Johan Cruyff fumava dentro do ônibus, quando percebeu que o técnico o olhava. Rinus Michels aproximou-se do futuro craque, que tentou esconder o cigarro dentro do bolso. Dois minutos depois, queimou a mão, segundo seu ex-companheiro de time Sjaak Swart. Cruyff adquiriu esse hábito que tanto cobra da saúde na adolescência e o manteve até 1991, às vésperas de se consagrar como treinador, com o Dream Team do Barcelona. Nesta quinta-feira, anunciou ao mundo que foi diagnosticado com câncer de pulmão.

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Aquela vez no ônibus deve ter sido uma das últimas em que Cruyff sentiu a necessidade de esconder que fumava. Depois que virou uma estrela, acendia cigarros antes das partidas e até mesmo no intervalo. Quem o contestaria? O alemão Hennes Weisweiler tentou, como parte de um confronto mais amplo com o jogador desde os seus primeiros dias no Barcelona, na temporada 1975/76, mas prevaleceu a importância do holandês dentro de campo.

Cruyff virou técnico no meio dos anos oitenta e manteve o hábito. Diante da pressão do cargo, usava os cigarros para se acalmar. Assumiu o Barcelona em 1988, e nas primeiras temporadas, conquistou apenas uma Copa do Rei e a Recopa Europeia. Começou a temporada 1990/91 debaixo de muito stress e começou a fumar cada vez mais. Passou de um maço por dia. Até que em fevereiro, a fumaça cobrou o seu preço.

Aos 43 anos, fazia compras com a esposa quando começou a sentir fortes dores no coração. A princípio, achou que eram a extensão de problemas nas costas e no estômago que vinha sentindo, mas acabou sendo muito mais sério. Ele foi levado ao hospital e precisou por uma séria cirurgia no coração para se salvar. Continuar sendo treinador do Barcelona seria mais complicado. Segundo o seu médico, ele precisaria repousar por alguns meses, justo na reta final da temporada, e principalmente parar de fumar.

Ele acatou as recomendações. “Eu não fumo mais porque me disseram que eu morreria se continuasse”, disse. Parou de fumar em 1991, mais ou menos na época em que conquistou seu primeiro título espanhol como treinador. O auxiliar Charly Rexach venceu seis dos nove jogos que Cruyff perdeu enquanto convalescia, e o Barcelona levantou o primeiro troféu do tetracampeonato nacional. A história continuaria do jeito que todos sabem: o título europeu de 1992 e as bases filosóficas e de formação de jogadores que transformaram o clube catalão no que ele é atualmente viriam em seguida.

A pedido do Departamento de Saúde da Catalunha, naquela época, Cruyff gravou uma propaganda para incentivar as pessoas a parar de fumar. Nela, ele faz embaixadinhas com um maço, enquanto fala uma frase definitiva sobre os seus problemas de saúde. “Na minha vida, tive dois vícios: fumar e jogar futebol. O futebol me deu tudo que tenho. O cigarro quase me tirou”.