O início da década de 1980 é inesquecível para o futebol brasileiro. A Seleção de 1982 ainda ocupa o imaginário de muitas pessoas como maior representante do futebol-arte. Mais do que isso, aquele foi o último momento em que os melhores jogadores brasileiros seguiam no país em seu auge. Depois do Mundial da Espanha, a debandada contou com as vendas de Zico, Júnior, Toninho Cerezo e Sócrates para o futebol italiano, onde acompanharam Falcão. Os três primeiros, craques dos grandes esquadrões do futebol nacional naquele período áureo: o Flamengo e o Atlético Mineiro.

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A decisão do Campeonato Brasileiro de 1980 é considerada por muita gente como a melhor da história do torneio. E foi ela que iniciou a maior rivalidade interestadual do Brasil. O Flamengo de Zico só pode ser considerado tão grande por causa do Atlético de Reinaldo. E o Galo, por sua vez, não pode ser diminuído por causa dos rubro-negros. Ninguém esteve tão próximo de superar aquele timaço e, em muitos momentos, os atleticanos estiveram no direito disso.

Em jogos que levaram quase 250 mil torcedores aos estádios, Flamengo e Atlético escreveram dois épicos naquele Brasileirão. O Galo venceu por 1 a 0 no Mineirão, mas acabou derrotado por 3 a 2 pelo Fla, que ficou com o título por ter a melhor campanha. Reinaldo, mesmo estourado pelas lesões, balançou as redes duas vezes e se manteve em campo de maneira heroica, até ser expulso. Acabou superado pelo endiabrado Nunes, que marcou o gol decisivo para os cariocas. Ainda que os mineiros quase tenham empatado aos 50 do segundo tempo, em um lance salvo por Andrade.

O maior nó na garganta do atleticano, contudo, veio em 1981. Naquela época, os clubes do mesmo país se enfrentavam na primeira fase da Libertadores, e só um avançava ao triangular semifinal. Após dois empates por 2 a 2, ambos com oito pontos, Fla e Galo precisaram decidir a vaga em um jogo-desempate. A arbitragem de José Roberto Wright no jogo do Serra Dourada é uma das mais contestadas da história do futebol nacional. O juiz encerrou o jogo aos 37 do segundo tempo, depois que expulsou cinco jogadores alvinegros. Os rubro-negros foram declarados vencedores e rumaram para o título da competição e do Mundial Interclubes de 1981, seus dois feitos mais festejados.

A força dos esquadrões não era a mesma quando o Atlético foi à desforra, em 1986. Pelas oitavas de final do Brasileirão, os mineiros finalmente conseguiram a vingança. O Galo segurou o empate por 1 a 1 no Maracanã e garantiu a classificação no jogo de volta, ao vencer por 1 a 0 no Mineirão, tento de Nelinho. Um jogo tão marcante que levou ninguém menos que o filho de Zico a torcer pelo Guarani. Nas semifinais, o Bugre de João Paulo e Júlio César eliminou os atleticanos. O suficiente para ganhar a simpatia de Júnior, então com nove anos.

Por fim, em 1987 aconteceu o último grande confronto da década de 1980, pela Copa União. Embora o Atlético estivesse invicto e com a melhor campanha, caiu diante do Flamengo de Carlinhos. O Galo perdeu com um tento de Bebeto no Maracanã e encerrou o primeiro tempo no Mineirão com dois gols de desvantagem. Na segunda etapa, o time comandado por Telê Santana iniciou uma reação inacreditável ao buscar o empate e pressionar muito pela virada. Entretanto, aos 34, Renato Gaúcho arrancou para marcar o gol da vitória do Flamengo por 3 a 2. O tento da classificação.

Nos últimos anos, outros grandes jogos aconteceram pelo Brasileiro. A vitória do Atlético por 3 a 0 em 2008 jogou um balde de água fria nas intenções do Flamengo em ser campeão nacional, enquanto troco dos rubro-negros por 3 a 0 no ano seguinte foi decisivo para o hexa. As semifinais da Copa do Brasil servem para reaquecer a rivalidade, ainda mais diante da fome dos dois clubes pelo título. O Fla busca o bicampeonato, o quarto título no torneio. Já o Galo tenta dar sequência às conquistas que vêm desde a Libertadores 2013.

Por conta das derrotas nos anos 1980 e das polêmicas em torno delas, os atleticanos olham para o Flamengo com muito mais gana. No entanto, a raiva dos mineiros é tanta que provoca os flamenguistas a responderem à altura. Com um histórico tão pesado por trás do encontro, o mínimo que dá para se esperar são dois grandes jogos. Para honrar a multidão que lotará o Maracanã e o Mineirão, bem como o passado escrito por Zico, Reinaldo, Júnior, Cerezo, Adílio, Luisinho e tantos outros craques misturados entre vermelho, preto e branco.