“Perguntar-se se a Euro 2016 deve ser cancelada é jogar o jogo dos terroristas.” A frase é de Jacques Lambert, presidente do comitê organizador da competição, mas representa o pensamento de muitas pessoas envolvidas no mundo do futebol e também de muitos torcedores. Entretanto, a preocupação com possíveis ataques durante eventos esportivos existe, e nos dias seguintes aos atentados em Paris, na última sexta-feira, muito tem sido dito sobre a segurança em estádios.

Não se trata exatamente de um procedimento a ser tomado especificamente em relação a eventos esportivos, mas François Hollande anunciou algumas de suas intenções após os ataques em Paris, na última sexta-feira. O presidente francês quer que a França implemente controles sistemáticos e coordenados das fronteiras internas e externas da União Europeia e assinalou também para uma restrição maior a estrangeiros: quer que a lei permita a destituição da nacionalidade francesa de cidadãos com dupla nacionalidade que tenham sido condenados por terrorismo, além de pedir a a proibição de entrada na França daqueles que representem um “risco terrorista”. Algumas das instituições esportivas confirmaram que a pauta sobre segurança será discutida e algumas mudanças ocorrerão em relação a este tipo de evento.

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Em termos de equipe, Hollande anunciou a criação de 8.500 novos empregos nas forças de segurança e no exército: “Teremos cinco mil novos policiais dentro de cinco anos. O ministério da Justiça incluirá 2.500 postos extras, e haverá mais mil pessoas trabalhando na alfândega”. Fica claro que a ideia de reforçar as fronteiras e o controle de quem entra e sai do país é uma preocupação latente neste momento. A questão dos passaportes também vai além do que a União Europeia pode fazer.

Realização da Euro 2016

Em comunicado nesta segunda-feira, 16, a Uefa confirmou que a Eurocopa de 2016 será realizada na França, além de assegurar que o sorteio dos grupos da competição ocorrerá, como previsto, em 12 de dezembro, no Palais de Congres, em Paris. “Não há nenhuma razão para acreditar que a Euro possa ser alvo de qualquer ataque, a potencial ameaça terrorista sempre foi levada em consideração, desde o início do projeto. O comitê de organização da Euro 2016 e todas as partes interessadas envolvidas na organização do torneio continuarão seu trabalho conjunto e regularmente irão monitorar o nível de risco do torneio e os respectivos planos organizacionais”, diz um trecho do texto.

A Uefa afirmou que tem trabalhado em conjunto com autoridades há três anos para garantir a segurança do torneio e comunicou que o comitê de organização da Euro se reunirá em 10 de dezembro, dois dias antes do sorteio dos grupos, para discutir a procedimentos específicos da segurança da competição.

Antes mesmo do comunicado oficial da Uefa sobre a manutenção da França como sede do torneio, Jacques Lambert, líder do comitê organizador da competição, já havia reforçado a posição. Em entrevista à rádio francesa RTL, afirmou que “perguntar-se se a Euro 2016 deve ser cancelada é jogar o jogo dos terroristas. O risco se elevou em janeiro (com os ataques ao semanário Charlie Hebdo) e agora subiu ainda mais”. Lambert não quis revelar quais as mudanças nos planos de segurança, “porque isso alertaria os oponentes”, mas assegurou novamente que a segurança em estádios não é um problema: “Tomaremos as decisões necessárias para que a Euro 2016 aconteça nas melhores condições de segurança. A segurança em estádios funciona bem, o risco está mais nas ruas, em encontros espontâneos”.

A posição de Lambert tem algum respaldo mesmo nos fatos trágicos do atentado. Durante o jogo entre França e Alemanha, um dos terroristas tentou entrar no estádio e foi impedido pela segurança. Ele fugiu da segurança do estádio e explodiu a cinta com explosivos. Houve um risco real de uma tragédia muito maior se um dos terroristas tivesse conseguido entrar no estádio, como era o plano. Nesse ponto, o dirigente tem razão e a segurança conseguiu impedir que mais pessoas morressem. Seja como for, a preocupação sobre o torneio no próximo ano permanece. A capa da France Football desta semana, que trata do assunto, deixa isso claro. Uma criança, vestida com a camisa da seleção francesa, pergunta ao pai: “Pai, você me levará a um jogo da Euro?”. Uma pergunta que, neste momento, seria muito difícil de responder.

Capa da revista France Football que trata dos atentados em Paris
Capa da revista France Football que trata dos atentados em Paris

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Just Fontaine pediu cancelamento da Euro na França

Lenda do futebol francês e artilheiro da Copa do Mundo de 1958, Just Fontaine ficou bastante assustado com os ataques da última sexta-feira e com a tentativa dos terroristas de detonar bombas dentro do Stade de France. Posicionou-se publicamente contra a realização da Eurocopa na França e argumentou que, para um evento tão importante, não há a garantia esperada de segurança.

“Qualquer outro país poderia sediar o evento, mas nós não. Acho que a França deveria abrir mão do torneio. Tenho muito medo de que essa sexta-feira negra possa ser repetida. Acho que não podemos garantir a segurança necessária para receber um evento tão grande. É simplesmente muito perigoso. Você realmente acha que as pessoas vão para o Stade de France no futuro?”, questionou, em entrevista ao jornal alemão Die Welt.

É relevante pontuar que Fontaine foi a primeira figura pública a se posicionar de tal maneira. A partir do comunicado da Uefa, podemos entender que a hipótese não passa pela cabeça dos organizadores. Mesmo uma improvável campanha de pessoas relevantes no mundo futebol não deverá mudar isso, e o esforço deve ser mesmo em tomar medidas para buscar essa segurança de que Fontaine fala.

O simbólico jogo entre Inglaterra e França desta terça-feira

“Isso terá uma significância global enorme. O primeiro grande evento desde sexta-feira. É uma chance de demonstrarmos que o terrorismo não pode vencer. Não podemos deixar este ato de terror nos acovardar.” A fala de Martin Glenn, diretor-executivo da FA, mostra como, além de um jogo, o confronto entre Inglaterra e França é um posicionamento político do Ocidente.

Para que esse posicionamento fosse tomado, no entanto, garantias de segurança foram necessárias, evidentemente. Glenn então explicou que, no sábado, as federações conversaram, e os franceses apenas fizeram algumas demandas, atendidas pelos ingleses. As autoridades britânicas e o governo precisavam assegurar que era seguro e os franceses precisavam querer jogar. “Eles quiseram seguir em frente, principalmente por razões simbólicas, e ficamos felizes de atender a suas preocupações. Quero confirmar novamente que o aparato de segurança e as pessoas que nos aconselham dizem que não há risco concreto, então o jogo deve ir em frente. Gostaríamos que os torcedores chegassem mais cedo para que façamos mais averiguações”, comentou o dirigente da FA.

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Peter Terry, vice-comandante adjunto da polícia metropolitana de Londres, complementou a fala de Martin Glenn, informando que policiais armados seriam deslocados para o Wembley e que o plano de segurança da partida já havia sido discutido novamente, diante dos ataques em Paris: “Reavaliamos que segurança achamos que seja necessária para a ocasião de amanhã à noite, que, é claro, será uma ocasião bastante sombria, especialmente considerando com quem vamos jogar”.

Os primeiros efeitos dos ataques no futebol europeu

Envolvida diretamente nos ataques em Paris por estar jogando no Stade de France durante a tentativa de explosão no palco do amistoso entre França e Alemanha, a Federação Alemã anunciou que reforçará sua segurança na Eurocopa de 2016. A entidade não revelou exatamente o que fará, mas o chefe de segurança da Federação Alemã, Hendrik Grosse-Lefert, contou ao jornal Frankfurter Allgemeine que os ataques a Paris na última sexta-feira terão um grande impacto no planejamento da seleção alemã para a competição. Apesar disso, reconheceu que, independentemente de quais medidas sejam tomadas, a segurança não pode ser 100% garantida. Já o presidente interino da federação, Rainer Koch, pressionou a organização da Euro: “A segurança na Eurocopa será um grande desafio para os franceses”.

A Premier League também demonstrou preocupações com futuros ataques a eventos desportivos. Dirigentes da liga têm se reunido com a polícia, o governo e conselheiros de segurança para elaborar novas instruções para os 20 clubes que atuam na elite do futebol inglês. Além de uma reunião marcada com as equipes para o fim desta semana, em que esses novos procedimentos serão repassados, a Premier League emitirá um comunicado oficial em breve, “para que os torcedores estejam plenamente conscientes do que esperar ao chegar a estádios.”

Todos os procedimentos tomados pelas federações e ligas deverão ser mantidos em confidencialidade, pelo mesmo motivo explicado mais acima por Jacques Lambert, mas é importante saber que existe uma mobilização para reforçar a segurança após os ataques, sobretudo diante da proximidade da Eurocopa e das ameaças do Estado Islâmico a outros países. O desafio dos organizadores de competições do futebol europeu será oferecer na prática condições para que de fato os torcedores não se acovardem diante de um cenário tão tenebroso. A alta procura por ingressos para o jogo desta terça-feira entre Inglaterra e França no Wembley sugere que os amantes do futebol estão dispostos a seguir apoiando o esporte como sempre fizeram. E como mostramos nesta segunda, o Stade de France foi o símbolo da maior derrota dos terroristas no atentado.

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