Como o vinho

 Se em uma temporada de 38 jogos, com 33 já passados, um cara que só começou 12 jogos ganha o prêmio de melhor jogador do ano eleito pelos outros jogadores, você não estranha? Bom, se o cara for o Ryan Giggs, você não estranha. A Associação dos Futebolistas Profissionais da Inglaterra anunciou neste domingo que é do galês o prêmio de Jogador do Ano, concedido por votação de todos os jogadores. É a primeira vez que um galês é eleito desde Mark Hughes, que ganhou em 91, justamente na temporada em que Giggs fez sua estreia pelo United – time de Hughes.

É evidente que o prêmio mistura o reconhecimento pela carreira com o reconhecimento da importância que o jogador, aos 35 anos, ainda consegue ter para sua equipe. Giggs, um dos melhores “wingers” pela esquerda da história do futebol britânico, tem atuado mais pelo centro do campo nesta temporada e, embora tenha começado poucos jogos, foi o jogador dos Red Devils que mais entrou como substituto.

O prêmio, apesar de ser o primeiro, vai disputar lugar com muitos outros na prateleira. Giggs foi, por exemplo, o primeiro a ser eleito Jovem Jogador do Ano por duas vezes consecutivas. É, além disso, o maior ganhador de títulos ingleses da história, com 10 troféus (por enquanto). Tem ainda 4 FA Cups, 3 League Cups, 2 Ligas dos Campeões e 2 Mundiais Interclubes – em um dos quais, aliás, foi eleito o melhor em campo, e os palmeirenses não precisam de nenhum lembrete sobre o motivo. É, ainda, o único jogador a marcar em 11 LCs consecutivas, e em 13 LCs. E o único a ter marcado em todas as temporadas da Premier League desde a adoção do atual formato.

Ou seja: a única surpresa é que o prêmio não tenha vindo antes, o que se explica pela concorrência interna. Em 99/00, por exemplo, quando ganhou o prêmio no Mundial, o United foi campeão, mas quem levou o prêmio de melhor do ano foi Roy Keane. Durante sua carreira, outros sete jogadores dos Red Devils acabaram premiados – Cristiano Ronaldo ganhou nos últimos dois anos.

Se o United chegar ao 11º título da “Era Giggs”, dificilmente se poderá dizer que o galês foi o jogador mais importante da equipe na conquista. Por outro lado, será fácil argumentar que, sem ele, o título talvez não viesse. Por mais que estejamos também falando de “serviços prestados”, Ryan Giggs não podia parar sem ter essa medalha em sua coleção, o que a torna justíssima.

Além do prêmio a Giggs, a PFA anunciou também o seu “Time do Ano”, dominado pelos Red Devils: Van der Sar (Man Utd), Johnson (Portsmouth), Vidic (Man Utd), Ferdinand (Man Utd) e Evra (Man Utd); Ronaldo (Man Utd), Giggs (Man Utd), Gerrard (Liverpool), Young (Aston Villa); Torres (Liverpool), Anelka (Chelsea). Ashley Young, do Aston Villa, foi também eleito o Jovem Jogador do Ano.

The money is over

Se Marcio Braga presidisse o Southampton, poderia ter protagonizado a cena do “A-CA-BOU O DINHEIRO” tal como fez no Flamengo – um pouco menos bronzeado, talvez. O tradicional clube do sul inglês tem oito dias para encontrar um comprador, caso contrário vai simplesmente fechar as portas. Como se não bastasse, a equipe já está rebaixada para a League One, e, como caiu dentro de campo, começará a temporada com um déficit de dez pontos, punição recebida por causa da falência da empresa dona do clube.

A história dos Saints, embora não tenha em nenhum momento sido tão gloriosa, lembra um pouco a do Leeds. O clube foi fundador da Premier League, e, antes de cair, em 2004, ficou 24 temporadas seguidas na primeira divisão do futebol inglês, e chegou a ser vice-campeão na temporada 83-84 –quando contava, no gol, com ninguém menos que Peter Shiton.

“Santa Maria, mãe de Deus”, diz a oração. No caso dos Saints, tudo começou a ir por água abaixo justamente com a construção do novo estádio Saint Mary’s, acabado em 2001. Em 2003, a equipe chegou à final da FA Cup – perdeu para o Arsenal – e acabou em oitavo na Premier League. A partir daí, entretanto, nada mais deu certo. No ano seguinte o Southampton caiu para o Championship, e, a partir daí, as dívidas acabaram por soterrar a equipe. Na temporada passada, o rebaixamento só foi evitado na última rodada, mas, nessa, viria mesmo sem a punição.

O Southampton foi fundado em 1885, justamente na igreja de Saint Mary, e tem este nome desde 1897. Segundo a imprensa inglesa, existem dois grupos interessados em sua aquisição. Quem comprar, leva uma história sem muitas glórias, mas com uma FA Cup (1976, quando ainda jogava a segunda divisão) e uma academia que revelou, recentemente, Theo Walcott, Wayne Bridge e Gareth Bale. Além de um estádio novinho em folha, para 32 mil pessoas, e que, enquanto o time esteve na Premier League, nunca teve média inferior a 30 mil espectadores.

Certamente, uma enorme perda para o futebol inglês.