Se você não for torcedor do Manchester United, seria normal não reconhecer de primeira o nome de Wilf McGuinness. Em termos modernos, ele foi o David Moyes de Matt Busby. Escolhido a dedo para ser o sucessor do lendário treinador, que havia passado 24 anos à frente dos Red Devils, e um desastre completo. O paralelo foi comum na imprensa inglesa durante o breve período em que Moyes foi o guardião do legado de Alex Ferguson. Com a demissão de José Mourinho, a comparação fica um pouco mais ampla e permite uma reflexão: quanto tempo demorará para o United reencontrar o seu caminho?

No caso de Busby, foram aproximadamente 20 anos. Porque McGuinness, como Moyes, foi apenas o primeiro profissional triturado pela responsabilidade de calçar os sapatos de um gigante. Outros quatro também sucumbiram, com direito a um rebaixamento, até que Ferguson emergisse do Aberdeen para recolocar o clube no primeiro patamar da Inglaterra. E mesmo ele precisou de paciência e apoio da diretoria para concretizar a sua visão, o que começou a acontecer apenas na década de noventa.

A comparação entre McGuinness e Moyes para na cronologia. Moyes tinha experiência e um trabalho sólido no Everton. Foi identificado por Ferguson como um semelhante: escocês, sóbrio, sem muita firula, alguém que fazia bastante com poucos recursos à disposição. O mundo, porém, havia mudado, assim como o United. Ferguson havia sido excepcionalmente bem-sucedido em colocá-lo na posição de um clube global. Mesmo que seu instinto fosse correto, os Red Devils não precisavam de outro Ferguson. As exigências do trabalho acabaram sendo grandes demais para Moyes, demitido antes do fim da sua primeira temporada.

McGuinness era mais um laranja para que Busby continuasse a exercer influência no Manchester United. Ele tinha 12 anos a menos do que Ferguson quando tomou a decisão de se aposentar e se manteve como um diretor ativo, tratando da relação com os diretores e do mercado de transferências. McGuinness era o treinador dos reservas e havia acabado de passar dos 30 anos, mais novo que alguns dos seus comandados.

Não foi capaz de ganhar o respeito do elenco, com Busby ainda muito presente, e, como cachorro que tem dois donos morre de fome, o United foi apenas oitavo colocado na sua única temporada completa como técnico em Old Trafford. A carta de demissão chegou na altura do Natal de 1970. Busby retornou para terminar a campanha e chegou a oferecer o antigo emprego a McGuinness, que até ficou alguns meses, mas, com o orgulho ferido, saiu para seguir carreira na Grécia. Nunca mais fez grande coisa.

McGuinness, à esquerda, ao lado de Busby

A próxima tentativa foi com o irlandês Frank O’Farrell, um profissional mais consolidado na carreira. Havia sido rebaixado com o Leicester, mas, na mesma temporada, chegara à decisão da Copa da Inglaterra. Antes de se mudar para Old Trafford, conquistou o acesso à elite, com o título da segunda divisão. Também precisou batalhar pelo poder com Matt Busby. E também perdeu. Ficou 18 meses no cargo, antes de dar lugar a Tommy Docherty.

Além de problemas administrativos, o Manchester United também tinha que lidar com os ocasos das carreiras de Bobby Charlton, Denis Law e George Best, os pilares sobre os quais Busby reconstruiu o time depois do desastre de Munique. Docherty saiu da seleção escocesa e encontrou um elenco envelhecido, caindo pelas tabelas. Conseguiu algumas vitórias a partir de fevereiro e manteve os Red Devils na primeira divisão, com a 18ª posição. Na temporada seguinte, porém, o rebaixamento foi inevitável.

Apesar de ter caído de divisão com um clube que seis anos antes havia sido campeão europeu, Docherty foi mantido no cargo. Tempos diferentes, mas, mesmo naquela época foi uma decisão surpreendente. E correta. Ele retornou, com o título da Segundona, conseguiu um honroso terceiro lugar e emendou duas finais de Copa da Inglaterra. Na segunda, derrotou o Liverpool, papa-títulos daquela década, e conquistou o primeiro troféu da era pós-Busby.

O homem que caiu com o United o reergueu. Não ao mesmo patamar da década de sessenta, mas pelo menos às primeiras posições da tabela, às fases finais das copas inglesas. E o fez com uma equipe jovem, armada no 4-2-4, com os ótimos Steve Coppell e Gordon Hill pelas pontas. Praticava um futebol atraente. Era o começo de um novo projeto, e havia esperança no ar. Para a próxima temporada, ele negociava a contratação do goleiro Peter Shilton, do Stoke City. Mas, então, Docherty conheceu Mary Brown.

Mary era esposa do fisioterapeuta do Manchester United. O caso de Docherty com ela tornou-se um escândalo e, duas semanas depois do título da Copa da Inglaterra, o escocês foi demitido, para “preservar a reputação” do clube. Eles se casaram e ficaram juntos pelo resto de suas vidas. Mas Docherty perdeu a chance de colher os frutos do que havia plantado – e o United perdeu Shilton, que acabou se mudando para o Nottingham Forest. “Sou o único treinador que foi demitido por ter se apaixonado”, disse, ao Independent, em 2014.

O sucessor de Docherty foi Dave Sexton, ex-Chelsea e Queens Park Rangers. Seu perfil era oposto: um futebol mais seguro e, ao mesmo tempo, mais chato. Nunca caiu nas graças da torcida. Até porque os resultados não foram muito melhores para compensar a mudança de estilo de jogo. Em quatro temporadas, ficou três vezes no meio da tabela e foi vice-campeão em 1979/80. Também chegou a uma decisão da Copa da Inglaterra, derrotado pelo Arsenal.

O Manchester United começou a reviver um pouco das glórias do passado de verdade com Ron Atkinson. Ele vinha de um bom trabalho no West Brom, com o qual foi terceiro colocado do Campeonato Inglês e quadrifinalista da Copa da Uefa. Antes de assumir os Red Devils, havia deixado os Baggies em quarto lugar. Sua passagem foi responsável por contratar jogadores importantes como Bryan Robson e Frank Stapleton e pela promoção de Mark Hughes.

Ron Atkinson

O United havia sido oitavo colocado na última temporada com Sexton. Com Atkinson, emendou cinco campanhas seguidas entre os quatro primeiros lugares e conquistou duas vezes a Copa da Inglaterra. Ainda chegou à semifinal da Recopa Europeia, em 1983/84. Apesar dos bons resultados, não passou despercebido que os Red Devils ainda cultivavam um incômodo jejum de títulos ingleses – o último havia sido em 1966/67.

Parecia que o título viria em 1985/86. O Manchester United começou o Campeonato Inglês com dez vitórias seguidas e quinze rodadas de invencibilidade. Mas, depois dessa sequência, afetado por lesões, especialmente a do capitão Bryan Robson, ganhou apenas nove jogos em 27. Acabou em quarto. Apesar de especulações de que seria substituído por Ferguson ou por Terry Venables, Atkinson começou a temporada seguinte.

As lesões, porém, continuavam relevantes, e a venda de Mark Hughes para o Barcelona não ajudou. Três derrotas seguidas abalaram o ambiente. A sequência ruim parou com o empate contra o Leicester, e Robson voltou para ajudar a golear o Southampton. Mas logo em seguida vieram outras três derrotas em sequência. No começo de novembro, Atkinson estava demitido. E Ferguson, contratado. O resto vocês já sabem.

As dificuldades do presente
Van Gaal, ex-treinador do United

Os desafios atuais do Manchester United são diferentes. Não há uma sombra tão presente quanto a de Busby. Ferguson também virou diretor, e sempre haverá comparações, mas ele atua de maneira mais diplomática, sem interferência no dia a dia. Mais como um embaixador. É impensável pensar que um clube que atingiu o status do United possa realmente ser rebaixado, independente de quantos erros forem cometidos, em contraste com o equilíbrio ferrenho do futebol inglês nas décadas seguintes à aposentadoria de Busby.

Por outro lado, o topo da pirâmide do futebol europeu, atualmente, exige mais excelência. O Manchester United conseguiu manter-se nas primeiras posições da Premier League com mais frequência do que nos anos pós-Busby. Demorou menos para conquistar títulos. No entanto, isso não é o bastante. Precisa disputar a Champions League todas as temporadas. Precisa ganhar a Premier League ano sim, ano não. Precisa ganhar a Champions League.

E o United não encontrou excelência com nenhum dos treinadores que vieram depois de Ferguson. Moyes estava claramente abaixo do nível necessário para comandar um clube global, um erro de avaliação de Ferguson, que o sugeriu, e da diretoria, que confiou na indicação. As tentativas seguintes foram com treinadores renomados, aqueles que impõem respeito nos vestiários recitando sua lista de títulos. Nomes com costas largas o suficiente para administrar um vestiário estrelado.

O problema é que os nomes escolhidos estavam longe dos seus melhores dias. Louis van Gaal assumiu o trabalho literalmente na reta final da sua carreira, e Mourinho também está em decadência, o que talvez não fosse tão claro antes dele chegar a Old Trafford. E, ao mesmo tempo, o diagnóstico pode estar errado. O que o United mais precisa é de um projeto claro e coerente. Uma ideia de jogo e uma política de contratações que combine com ela.

O atual elenco do United é um remendo. Tem uma molecada que subiu com Van Gaal, ou foi contratada por ele, e que não encontrou tanto apoio com Mourinho. Tem estrelas, como Lukaku, Sánchez e Pogba, rendendo pouco. Tem zagueiros remanescentes da era Ferguson, de qualidade duvidosa, e dois jovens trazidos por Mourinho. Nenhum no auge da forma. Os meias compartilham a mesma característica, todos muito físicos, de chegada na área. Nenhum criativo, de passe apurado. Os laterais mais confiáveis ainda são Ashley Young e Antonio Valencia, que durante grande parte de suas carreiras nem laterais eram.

A política de contratações tem que encontrar um norte, o que coloca Ed Woodward em patamar de culpa parecido ao de Mourinho. Mas qual é esse norte? Qual estilo de futebol o Manchester United deseja praticar? Van Gaal gostava de tocar muito a bola, sem propósito, de maneira enfadonha. Mourinho apostava na supremacia física, nas bolas longas, na defesa sólida. Muito pouco para torcedores que, com Alex Ferguson, se acostumaram a um time que se impunha com coragem e qualidade contra todos os seus adversários.

No século passado, o Manchester United demorou duas décadas para se reencontrar depois de perder uma lenda. E agora, quanto tempo demorará? De um jeito ou de outro, a caminhada será mais curta se o clube souber aonde quer chegar.