O Moghreb Tétouan chega ao Mundial de Clubes com uma responsabilidade enorme. Não apenas por ser o representante do país-sede da competição, mas também por representar o legado do Raja Casablanca, capaz de feitos históricos na campanha de 2013. Donos de dois títulos nacionais, ambos conquistados a partir de 2012, e sem nunca terem feito uma grande campanha na Liga dos Campeões da África, os alvirrubros estão distantes da tradição do Raja. No entanto, o passado do clube de 92 anos representa bastante para o Marrocos. Sobretudo, porque ajuda a recontar a história do colonialismo europeu no norte da África durante o Século XX.

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Fundado em 1922, o clube atualmente se chama Moghreb em referência à região geográfica que compreende, além do Marrocos, também Tunísia e Argélia. Porém, surgiu como Athletic Tétouan. Reconheceu a origem? A partir de 1912, parte da costa norte do Marrocos se tornou protetorado da Espanha. Sequência a uma ligação histórica de Tétouan com os ibéricos, que vinham desde séculos antes, quando a cidade se tornou refúgio para mouros e judeus expulsos da Andaluzia durante a Reconquista. E os espanhóis ajudaram a criar o clube local, a partir da fusão de outras duas agremiações. Como boa parte dos imigrantes torciam para o Athletic de Madrid, então filial do Athletic Bilbao na capital, nome e símbolos foram copiados aos marroquinos. E as origens ficam mais claras graças ao calção azul do time de Tétouan, mesma cor dos colchoneros.

As fortes ligações com a Espanha permitiam ao Athletic Tétouan não apenas a fazer amistosos frequentes com os adversários da metrópole, como também a ser afetado pela política. E o episódio em que esta influência ficou mais clara aconteceu entre as décadas de 1930 e 1940, após o fim da Guerra Civil Espanhola e o início da ditadura de Francisco Franco. O regime fascista proibiu palavras em suas instituições que estivessem em idioma diferente do castelhano. Por isso, muitos clubes acabaram rebatizados, inclusive o Atlético Tétouan, que precisou abandonar o nome em inglês.

O único clube africano na elite europeia

Maghreb-Tetouan

A aproximação do clube marroquino com a Península Ibérica cresceu na década de 1940, quando passou a disputar as divisões inferiores do Campeonato Espanhol. O grande feito se deu na temporada 1951/52, depois que o Atlético conquistou a divisão sul da segundona. Pela primeira e única vez, um clube africano participava da elite de uma liga europeia. O sonho não durou muito, com os alvirrubros rebaixados já naquele ano, com apenas sete vitórias em 30 partidas. Ainda assim, houve tempo suficiente para registrar resultados históricos, como o empate por 3 a 3 com o Real Madrid no Dia de Reis.

O Atlético Tétouan seguiu na segunda divisão espanhola até 1955/56. Naquele ano, a independência do Marrocos se desencadeou. Após uma série de revoltas populares e a criação de um exército de libertação, a França pôs fim ao exílio do Rei Mohamed V (que hoje dá nome ao estádio de Casablanca) e permitiu que a monarquia negociasse a soberania nacional. A motivação para que o Atlético se tornasse Moghreb.

A Espanha perdeu o seu protetorado diante dos conflitos pela independência, embora seguisse com territórios no norte da África: as cidades autônomas de Ceuta e Melilla, que serviam de bases ao exército ibérico. Uma divisão que também se desdobrou no futebol. O Unión Deportiva España, que chegou a disputar a segunda divisão na década de 1940, deixou a cidade de Tanger para se fundir com um clube do sul da Espanha e se tornar o Algeciras.  Já o Atlético Tétouan se dividiu em duas partes: o Moghreb, que fincou suas raízes na cidade do novo país, e o Ceuta, que se transferiu para a cidade autônoma.

A partir de então, os clubes de mesma origem passaram a caminhar com as próprias pernas. O Ceuta chegou a disputar a segunda divisão espanhola na década de 1980 e teve Iarley no elenco durante a temporada 1998/99, mas fechou as portas por problemas financeiros em 2012. Curiosamente, mesmo ano em que o Moghreb vivia a chegada do empresário local Abdelmalek Abroun e, com investimentos consideráveis para os padrões locais, conquistava o seu primeiro título nacional. O ápice de uma trajetória que nem sempre se manteve no topo do futebol marroquino nas últimas seis décadas. Apesar das aparições frequentes na primeira divisão, os alvirrubros oscilaram de nível diversas vezes, com quatro taças da segundona no currículo desde 1965. Ficava difícil de competir com as equipes da parte francesa do Marrocos, que já possuíam o seu campeonato nacional separado da Ligue 1 antes mesmo da independência.

O presente ainda marcado pelo passado

De qualquer forma, não foi a independência do Marrocos que encerrou as ligações do Moghreb com a Espanha. O clube segue se relacionando com o Atlético de Madrid e, desde 2007, possui um acordo de cooperação que inclui ações entre os torcedores e um projeto conjunto nas categorias de base. Amizade que não condiz muito com as marcas espanholas que resistem no norte da África.

Ceuta se tornou uma das principais válvulas de escape dos imigrantes espanhóis que querem atravessar o Mar Mediterrâneo rumo à Europa. Por isso mesmo, desde a década de 1990 as fronteiras da cidade são divididas por uma cerca de seis metros de altura, protegida por arame farpado e torres de segurança, que marcou o assassinato de alguns daqueles que tentaram atravessá-la. Já o Saara Ocidental, livre do domínio espanhol desde 1976, atualmente é uma das áreas mais litigiosas do mundo. A região é disputada por marroquinos e independentistas e, embora o Marrocos tenha estabelecido o domínio, a ONU não reconhece o reconhece, considerando o território como autônomo.

Apesar das cicatrizes, o Moghreb Tétouan quer unir o Marrocos em torno de sua campanha no Mundial. Os alvirrubros não possuem uma torcida tão numerosa quanto a do Raja Casablanca, mas têm seus fiéis seguidores – na decisão da liga em 2012, 30 mil pessoas foram até Rabat para apoiar o time e comemorar o inédito título nacional. Ainda assim, qualquer ajuda para pressionar os visitantes dentro dos estádios será bem-vinda.

As referências aos espanhóis até continuam em Tétouan. Faixas em castelhano sendo comuns nas arquibancadas e o técnico Aziz El Amri, apontado como principal responsável pela ascensão vivida no clube durante os últimos três anos, ter revolucionado justamente a partir de um jogo de posse de bola parecido com o tiki-taka. Mas, independente das origens, desde 1956 o Moghreb possui sua identidade muito bem definida. E é pelo Marrocos que o clube começa a lutar nesta quarta-feira.

Análise: O que esperar do Maghreb Tétouan no Mundial?

Por Gabriel Pazini, colunista de África da Trivela

Na última edição do Mundial, dois jogadores do Raja Casablanca se destacaram: o habilidoso meia Moutouali e o atacante Mouhcine Iajour. Pois bem: se em 2013 os verdes contavam com Deo Kanda, atacante que teve a chance de surpreender o Internacional defendendo o Mazembe, o Moghreb também aposta em um jogador com a experiência de ser zebra em Mundiais passados. Para isso, a equipe foi buscar Iajour e tem o atacante como a principal esperança de gols para fazer história.

No entanto, mesmo com Iajour e outros jogadores experientes, como o meia-atacante Anouar Hadouir, o atacante Mohammed Faouzi e o talentoso Zaid Krouch, é improvável que o modesto Moghreb consiga passar pelo ES Sétif nas quartas de final (já considerando que os marroquinos farão valer o favoritismo e eliminarão o Auckland City nesta quarta-feira). E, mesmo que consiga, a diferença de nível técnico e tático para o San Lorenzo é considerável. Especialmente quando se leva em conta a campanha dos alvirrubros no Marroquinão 2014/15, ocupando apenas a nona colocação – embora o Raja também não viesse tão bem das pernas no último ano e, mesmo assim, tenha surpreendido o Galo.

Analisando friamente, a tendência é que o Sétif elimine o Moghreb e encare o Ciclón nas semifinais. No entanto, para um time que joga em casa e vive um momento que mais parece um sonho para a sua torcida, tudo é possível. Quem sabe, até para se reencontrar com o Real Madrid 62 anos depois e tentar a vingança daquele empate com sabor de derrota em 1951/52, quando os marroquinos chegaram a abrir dois gols de vantagem e cederam o 3 a 3.

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