Tivesse um dia optado pela bola redonda, Jonah Lomu poderia ser um jogador implacável. Talvez não tivesse a habilidade necessária se tornar um craque com os pés. No entanto, a capacidade física do neozelandês era inquestionável. Do alto de seu 1,96 m, se transformaria em paredão no miolo da zaga ou em centroavante de referência. Quem sabe ainda em um volante insaciável, entre a solidez na marcação e a força na saída de bola. Melhor nem pensar. Porque, no rúgbi, Lomu é insuperável. Para muita gente, o maior nome da história do esporte – e não apenas por tudo aquilo que jogava, mas pela maneira como ajudou a revolucionar a modalidade com sua imagem. Lenda que ficará agora apenas nas saudosas memórias. Sofrendo de problemas nos rins, o ponta faleceu nesta terça, aos 40 anos.

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Lomu nunca conquistou a Copa do Mundo de Rúgbi, mas as suas histórias com os All Blacks são clássicas. Ainda hoje recordista de tries na competição, o neozelandês viveu seu ápice em 1995. Tornou-se alvo de profundo respeito e temor de ninguém menos do que Nelson Mandela, na memorável final retradada pelo filme Invictus. Contudo, a forte marcação da África do Sul sobre o craque lhes garantiu o título, o símbolo da união do país após a queda do Apartheid. Tirou de Lomu a grande chance de ser campeão do mundo. No entanto, manteve seu reconhecimento e não diminuiu sua trajetória.

South Africa Rugby World Cup

Afinal, Lomu era a superestrela de uma modalidade em transformação, atingindo uma audiência global inédita naquele momento. Naquele mesmo ano, o rúgbi havia se tornado profissional. E não dá para negar o impacto do craque neste contexto, concentrando os holofotes sobre si e acumulando atuações fantásticas que justificavam a legião de novos torcedores. Comparando com outros esportes, Lomu teve no rúgbi a importância de Pelé para o futebol, de Michael Jordan para o basquete, de Muhammad Ali para o boxe. Uniu a excelência como atleta à imagem que se valorizava como astro.

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Lomu já sofria de problemas nos rins desde o início da carreira, e jogou debilitado até mesmo na Copa do Mundo de 1995. O craque passou por um transplante em 2004 e, ainda assim, tentou seguir em frente até 2010, quando se aposentou aos 35 anos. A partir de então, o neozelandês assumiu o papel de embaixador do esporte. E pode ser colocado entre as influências da Alemanha na conquista da Copa do Mundo de 2014, pela forma como mexeu com muitos daquele elenco quatro anos antes.

lomu2010

Às vésperas do Mundial da África do Sul, a comissão técnica alemã chamou ex-atletas para conversar com os jogadores. Lomu visitou o Nationalelf em maio de 2010, quando o time já se concentrava na Sicília. Além de ter jogado rúgbi com os comandados de Joachim Löw, falou sobre sua carreira e a luta contra a doença nos rins. “Foi inspirador ouvir sobre sua paixão e o trabalho árduo incrível que fez dele o melhor jogador de rúgbi do mundo. ‘Power within’, a tatuagem nas costas de Lomu, se tornou nosso lema durante aquela Copa. Seguíamos falando sobre isso, gritando a frase nas reuniões do time. Você podia sentir que estávamos firmemente melhorando como grupo em todas as áreas, especialmente na união. Trabalhando para a televisão durante a Copa do Mundo no Brasil, eu sei que 2014 foi o ápice neste sentido”, afirma o ex-lateral Arne Friedrich, em depoimento ao livro ‘Das Reboot: How German Soccer Reinvented Itself and Conquered the World’, de Raphael Honigstein.

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A Alemanha não passou das semifinais na Copa de 2010. Porém, o amadurecimento do elenco desde o Mundial da África do Sul acabou sendo uma das chaves para a conquista do tetra no Brasil. Enquanto Lahm, Klose e Schweinsteiger se tornaram os líderes do grupo, outras jovens promessas se firmaram na equipe titular. Certamente, não se esqueceram da conversa com Lomu quatro anos antes. Prova disso veio em um dos treinos realizados já na Bahia, antes do duelo contra os Estados Unidos na primeira fase. Os jogadores alemães se divertiam com uma bola de rúgbi. Botavam em prática os conceitos de união aprendidos com a lenda da bola oval, em chama que se manteve acesa até a conquista no Maracanã.