A Copa América que começa nesta sexta-feira (14) é a quinta realizada em solo brasileiro na história. Ela vem cem anos depois da primeira edição aqui sediada, que teve como palco central o Estádio das Laranjeiras. A evolução da relação do brasileiro com o futebol pode ser vista pela ótica do envolvimento local com o torneio e, portanto, decidimos revisitar as quatro edições anteriores aqui realizadas.

Se em 2019 o torneio parece estar começando marcado por certa descrença, pressão e uma relação atribulada com quem gere o nosso futebol e também os personagens que compõem a Seleção, as edições de 1919, 1922, 1949 e 1989 carregaram, cada uma, suas particularidades, ajudando a contar a história do esporte por aqui e também do nosso envolvimento com a equipe nacional.

Campeonato Sul-Americano 1919 – O início da paixão

Reprodução/Revista Careta

Já faz algumas décadas que o futebol faz parte do imaginário do brasileiro, mas, evidentemente, nem sempre foi assim. A Copa América de 1919, ainda com seu antigo nome, Campeonato Sul-Americano, é um ponto de partida importante para nossa relação com o futebol. Em 1919, ainda antes de sua independência completar um século, o Brasil estava no processo de formação de sua identidade nacional, que não era bem definida. Isso acontecia no campo da arte, da literatura, e faltava ao futebol participar desse processo. O torneio, então, foi um catalisador.

A elite ainda olhava com maus olhos o futebol, que era desprezado por alguns escritores, cronistas e intelectuais, mas o ponto de virada estava perto.

Em sua primeira edição após o início do torneio, a revista semanal Careta ilustrava o efeito do torneio recém iniciado.

“Se na manhã gloriosa de 10 de novembro, 24 horas antes do armistício assinado no dia 11 do 11º mês do ano passado, um telegrama oficial comunicasse que a guerra acabava porque Berlim havia sido arrasada pela bomba atirada de um aeroplano brasileiro por um aviador brasileiro, o júbilo que sacudiria o povo carioca e o arremessaria aos vivas pelas ruas não daria uma ideia da vibração que o exalta e deprime nestes dias em que se disputa na Rua Guanabara o Campeonato Sul-Americano de futebol.

A declaração universal da Guerra, a entrada do Brasil no conflito dos povos, a fuga do Kaiser, a Liga das Nações, a oratória de Ruy Barbosa, a vesícula biliar extirpada ao Doutor Epitácio Pessoa, nada disso, que preocupa o carioca, preocupa, empolga e domina tanto o carioca como as manobras, as corridas, os pulos, as negaças de dois grupos empenhados em meter uma bola em duas casas de tela que se defrontam num campo de atletas do pé.

Para o carioca, todas as coisas interessantes são muito interessantes, mas o que realmente interessa é a licença do Carnaval, o pavor da gripe, a bola do futebol.

(…)

Na véspera do início dos jogos, as farmácias, como os bancos em tempo de crise, sofreram uma corrida, e, ao contrário dos banqueiros, por causa dessa corrida que recordava o período sinistro da epidemia espanhola, farmacêuticos ganharam fortunas vendendo calmantes à antecipada excitação dos torcedores.”

Com o decorrer da competição, a empolgação foi crescendo. Trens lotados chegavam de São Paulo ao Rio de Janeiro para os jogos do Brasil, e quem não conseguia entrar no estádio acompanhava o desenvolvimento das partidas por meio de placares pendurados pelos jornais na Avenida Rio Branco. As publicações, aliás, começaram a dar páginas inteiras de pré-jogo. A repercussão dos jogos também era grande na imprensa, e os atletas foram alçados à condição de heróis. Friedenreich, autor do gol decisivo do título, teve suas chuteiras expostas na vitrine da joalheria Casa Oscar Machado, no centro do Rio.

O triunfo por 1 a 0 no jogo de desempate contra o Uruguai, que deu ao Brasil o título, virou tema de canções como o samba “Goal brasileiro”, de Luiz Nunes Sampaio, e o choro “Um a zero”, de Pixinguinha, então com 22 anos.

Aquele Campeonato Sul-Americano é visto com um dos mitos fundadores da paixão do brasileiro pelo futebol. Sem ele, outros capítulos poderiam ter tido esse papel catalisador, mas isso está no campo da imaginação. O fato é que o gol de Friedenreich nos conectou pela primeira vez de forma profunda com o esporte.

Campeonato Sul-Americano 1922 – A pátria de chuteiras

Se em 1919 o Campeonato Sul-Americano havia sido a ocasião de estabelecimento do futebol como paixão em grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro, a edição de 1922 tinha um aspecto muito mais político do que esportivo. Era o ano da celebração do centenário da Independência do Brasil, e o governo organizou uma série de eventos comemorativos, o torneio de futebol sendo um deles.

Via-se na competição a oportunidade de construir a imagem da seleção brasileira como um elemento representante da nação brasileira e sua torcida. Os torcedores que não puderam ir ao estádio para acompanhar o torneio seguiam a equipe pela imprensa, por meio da qual se construía a imagem de um símbolo forte imaginário: a seleção brasileira, para além de seus jogadores.

Muito mais do que na edição de 1919, os atletas de 1922 foram exaltados como heróis da nação. Houve até discussão sobre o pagamento de uma premiação aos jogadores, proposta do deputado Benjamim Barroso e aprovada no Congresso, sob a justificativa de que eles haviam se esforçado pelo renome do povo. O pagamento gerou polêmica, e a imprensa atacou de maneira contundente e até com o humor o episódio.

O caricaturista Belmonte, na Gazeta de Notícias, ironizava a discussão da premiação aos jogadores e também a ligação das partidas de futebol com a ideia de defesa da pátria. Dois dias após o final do torneio, publicou uma caricatura em que quatro jogadores da Seleção apareciam machucados, com muletas, e diziam “E agora o que queremos é uma pensão vitalícia; porque, afinal, fomos feridos em ‘defesa da Pátria’!”.

A premiação, aliás, foi combustível para uma elite intelectual que já virava a cara para o futebol. A classe já mostrava resistência ao tratar o esporte como um “estrangeirismo” que arriscava tirar o interesse de outras atividades consideradas mais tradicionais no País. O tratamento então dado pela imprensa e por representantes no Congresso aos jogadores mexeram com alguns escritores e cronistas.

Na revista Careta, uma ilustração trazia uma mulher gigante como “A República”, protegendo um pequeno Ruy Barbosa enquanto dizia: “Meus filhos! Nada de exageros! Lembrai-vos que a grandeza de uma nação não está nos músculos de seus atletas, mas na inteligência de seus intelectuais”. Lima Barreto, também na Careta, escrevia ironicamente no início daquele ano que o Brasil ficaria célebre no mundo, desde que ganhasse “campeonatos internacionais dessas futilidades todas”. “E, sendo assim, em breve aparecerá um Camões ou um Homero para rimar uma epopeia em louvor desses heróis esforçados, que nada fizeram para o benefício comum; mas que são glórias do Brasil.”

Reprodução/Revista Careta

O Campeonato Sul-Americano daquele serviu também para o nascimento de rivalidades entre as seleções do continente, muito por causa de reclamações de arbitragem, mas também por duelos duros fisicamente. Publicações da época, assim como alguns parlamentares, viram o futebol como um prejudicador das relações exteriores do Brasil, com estes últimos até condenando as competições internacionais.

Campeonato Sul-Americano 1949 – O ensaio

Reprodução/Jornal dos Sports

Quase três décadas depois da última realização de um Campeonato Sul-Americano em solo brasileiro, o esporte já estava muito difundido entre as massas e era paixão nacional muito bem estabelecida. O torneio continental, que naquelas primeiras edições com o Brasil como sede tinha grande importância ao torcedor, era visto como secundário a essa altura. Isso porque as pretensões já eram maior: conquistar a Copa do Mundo.

Leônidas da Silva e a Seleção de 1938 haviam feito sonhar o torcedor brasileiro, chegando à terceira colocação da terceira edição de Copa do Mundo. Os dirigentes da época viam o sucesso em campo fundamental para poder sediar um torneio, já que o Brasil ainda não gozava de grande prestígio internacional no esporte. O País pretendia sediar a edição seguinte, que se daria em 1942, mas viu a derrota para a Itália na semifinal em 1938 como o sepultamento do sonho. A sede foi dada à Alemanha, mas a Segunda Guerra Mundial impediu a realização de Mundiais nos anos 1940.

Com a Europa destruída, os olhares se viraram para fora do Velho Continente, e o Brasil havia sido escolhido como sede da primeira Copa do pós-guerra. A expectativa pelo desempenho brasileiro em sua busca pelo primeiro título mundial era grande, e o Campeonato Sul-Americano de 1949 foi grande catalisador nisso. A campanha marcante, com 46 gols em oito jogos, uma média de quase seis por duelo, que representa até hoje o melhor ataque da história da competição, encheu os brasileiros de esperança pela inédita conquista mundial no ano seguinte, em sua própria casa.

O crescimento gigantesco do futebol no Brasil desde a realização do último Campeonato Sul-Americano, em 1922, indicava que estádios do porte das Laranjeiras não eram mais suficientes para a paixão do brasileiro, e o Maracanã estava sendo construído para a Copa no ano seguinte, com capacidade para receber perto de 200 mil torcedores.

Como destacou o Puntero Izquierdo, é importante apontar também o papel da tecnologia no crescimento da massa de fanáticos pelo País. Se em 1919 e 1922 os torcedores que tinham acesso à Seleção eram poucos, apenas aqueles que podiam ir aos estádios ou então que eram letrados para acompanhar a cobertura nos jornais, no final da década de 1940 e no aquecimento para a Copa de 1950 o rádio já fazia o esporte chegar a milhões de pessoas.

Reprodução/Jornal dos Sports

Por fim, o ingrediente final da excitação com a seleção brasileira estava na crise vivida pela vizinha Argentina. Favorita ao título dos Mundiais que não aconteceram nos anos 1940 ao lado da Itália, a seleção argentina viu o fim de uma geração de ouro que poderia buscar o título em 1950. Isso porque uma greve no país levou o governo peronista a decisões econômicas, de piso e teto salariais, que afugentou estrelas nacionais para a “Liga Pirata” da Colômbia – isso em uma época em que se disputava torneios internacionais sobretudo com jogadores que estivessem atuando em seu país.

O Campeonato Sul-Americano de 1949 foi então, um ensaio que alçou nas alturas a expectativa brasileira. Uma espécie de Copa das Confederações (in memorian) daqueles tempos, no sentido de imbuir nosso espírito com uma confiança exagerada.

Copa América 1989 – A cólera

Reprodução/Folha de S.Paulo

É possível encontrar paralelos entre a seleção brasileira que em 2019 busca sua nona conquista de Copa América e aquela da última vez em que sediamos o torneio – o clima na época, no entanto, era bem mais hostil do que agora.

Se Tite hoje entra pressionado no torneio e com seu cargo em xeque, o mesmo acontecia com o então técnico Sebastião Lazaroni, ainda que em graus diferentes. A equipe começou a competição em um mau momento, atraiu público ínfimo para a estreia (13 mil pessoas na Fonte Nova para ver o duelo com a Venezuela) e ainda teve que lidar com forte pressão da torcida local. Isso porque a equipe disputou três dos quatro jogos da primeira fase em Salvador, e os torcedores do Bahia estavam revoltados com Lazaroni por cortar o atacante Charles, destaque do Esquadrão de Aço, durante o período de preparação na cidade. Os resultados certamente não ajudaram.

Antes de vencer seu último duelo no grupo, contra o Paraguai, no Arruda, no Recife, a Seleção ainda amargou dois empates sem gols na Fonte Nova, contra Peru e Colômbia. Contra os peruanos, a revolta foi grande, com os atletas sendo hostilizados com xingamentos e até ovos atirados das arquibancadas – um deles atingindo Renato Gaúcho.

A pressão em cima de Lazaroni e o envolvimento da torcida com a campanha brasileira eram tão ruins que Ricardo Teixeira, à época recém-eleito como presidente da CBF, chegou a decidir pela demissão do treinador, antes de ser dissuadido por Eurico Miranda, então diretor de seleções.]

Sair da pressão na Bahia fez bem ao time, que deslanchou a partir do 2 a 0 sobre o Paraguai. No quadrangular final que decidiu o campeão, realizado todo ele no Rio de Janeiro, o Brasil levou 130 mil pessoas ao Maracanã para o primeiro duelo, com a Argentina, além dos mais de 132 mil presentes no jogo final, uma “revanche” contra o Uruguai. A pressão era grande: tratava-se do primeiro grande torneio realizado no País desde a Copa de 1950, quando os uruguaios frustraram uma nação certa do título. Fazia ainda 19 anos que a Seleção não vencia uma competição importante, desde a Copa de 1970. Na Copa América, o jejum era de 40 anos: isso mesmo, a equipe não havia vencido desde a última vez que a sediara, em 1949.

O título, por fim, deu sobrevida a Lazaroni, que comandou o Brasil na Copa do Mundo do ano seguinte, em 1990, na Itália.

Por motivos diferentes, 30 anos depois nos vemos mais uma vez disputando a Copa América com uma relação azeda com a seleção brasileira – o extracampo tendo papel importantíssimo desta vez. Como nas edições anteriores aqui realizada, a história de nosso envolvimento com o torneio em casa não tem previsão fácil antes do pontapé inicial.

Como viveremos esta Copa América 2019?