A semifinal da Copa do Rei possui um significado especial à rivalidade entre Barcelona e Real Madrid. Afinal, há 103 anos, exatamente nesta fase da competição os dois gigantes disputaram o seu primeiro duelo oficial. E já partidas históricas, que tiveram enorme papel para forjar “El Clásico”. Até então, os embates se resumiam a esparsos amistosos, disputados a partir de 1902. Contudo, a temporada de 1915/16 transformou o ranço regional entre Castela e Catalunha em algo mais específico, aglutinado entre merengues e blaugranas. Os oponentes precisaram disputar quatro jogos para definir a classificação, com total de 26 gols marcados. Personagens eternos deram suas caras, como Santiago Bernabéu e Paulino Alcántara. Além disso, também ficou registrada a primeira polêmica entre os arqui-inimigos.

Até então, o maior clássico da Espanha era protagonizado por Madrid (o “Real” do nome seria adicionado apenas em 1920) e Athletic Bilbao, adversários costumeiros nas finais da Copa do Rei. O cenário começa a se transformar a partir de março de 1916, mesmo que a conotação política posterior tenha sido bem mais decisiva para El Clásico ganhar todo o seu peso. De qualquer maneira, aquele primeiro encontro oficial pela Copa do Rei colocava frente a frente duas potências regionais. Eram os representantes de suas ligas locais que se classificaram à competição nacional e mediriam forças. Não à toa, os jornais falavam sobre vitórias de Castela ou da Catalunha, sem sequer citar o nome dos clubes em suas manchetes.

O jogo de ida aconteceu no antigo Camp de la Indústria, casa do Espanyol. O Barcelona fez as honras da casa e venceu por 2 a 1, de virada. Foi uma partida violenta, com muitas entradas duras das equipes, na qual o barcelonista Baonza se machucou e fez apenas papel decorativo em campo. Conforme os relatos dos jornais, o árbitro acabou sendo benevolente com as pancadas dos merengues, recebendo avaliações negativas. Independentemente disso, Paulino Alcántara terminou como herói. O maior artilheiro blaugrana até o surgimento de Lionel Messi abriu a contagem com “o chute mais fenomenal desta temporada”, segundo o jornal Mundo Deportivo. Aos 19 anos, o filipino começava a escrever sua trajetória como eterno ídolo. Aquele jogo ainda seria marcado por protestos nas arquibancadas: os catalães reclamavam de sua federação regional por “mercantilizar o futebol”, ao se abrir ao profissionalismo.

O troco do Madrid aconteceu dias depois, em O’Donnell, seu velho campo. Cerca de 10 mil pessoas apareceram nos arredores do gramado, recebendo de maneira hostil os visitantes. E o encarregado de comandar a reação foi um tal Santiago Bernabéu, na época um jovem atacante que começava a despontar no clube que um de seus irmãos ajudou a fundar. O jovem de 20 anos anotou três gols na vitória por 4 a 1, resultado que certamente respaldou o ídolo ascendente. Embora o Barça tenha começado o jogo com nove jogadores, por conta de um acidente de trem que atrasou a chegada de dois atletas, a virada dos merengues aconteceu quando os rivais já tinham 11 em campo. Ainda assim, o resultado amplo pouco adiantou. Em tempos nos quais o placar agregado não servia como critério de desempate, um jogo extra foi remarcado para O’Donnell.

Em 13 de abril de 1916, menos de duas semanas após a segunda partida, Madrid e Barcelona protagonizaram um dos jogos mais eletrizantes da história do Clásico. Uma partidaça que terminou com 12 gols. Durante o tempo normal, o empate de 4 a 4 já dilatava o placar. Desta vez quem liderava os merengues era Luis Belaúnde, autor de três tentos, enquanto Paulino Alcántara deixou dois ao Barça. E nem mesmo o cansaço da prorrogação pararia os ataques. Paulino completou a sua tripleta e Martínez ia dando a classificação aos catalães com um tento no segundo tempo extra. E eis que apareceu Don Santiago. O atacante, que já havia deixado a sua marca nos 90 minutos, balançou as redes mais duas vezes na prorrogação. A tripleta se completou a dois minutos do apito derradeiro. Placar final: incríveis 6 a 6, que forçavam um segundo jogo extra. Os times saíram de campo aplaudidíssimos.

O Barcelona, de qualquer forma, não estava satisfeito com o resultado. Teve um gol anulado e viu três pênaltis assinalados a favor do Madrid. Dois deles os oponentes desperdiçaram e o terceiro, este graças a um toque de mão pueril sem questionamentos, foi justamente o que decretou o empate. Cabe dizer, entretanto, que o goleiro Lluis Bru teve uma atuação sensacional para evitar a vitória dos visitantes. O arqueiro blaugrana pegou as duas penalidades perdidas (uma delas com a cabeça) e ainda colecionou milagres, ovacionado pelos torcedores. O que não apagava a bronca com a arbitragem, especialmente por conta do dono do apito. O juiz era José Ángel Berraondo, jogador aposentado do Real Madrid, onde também seria dirigente anos depois. E mesmo com todo o imbróglio, o próprio Berraondo voltou para apitar o quarto confronto consecutivo pelas semifinais, em 15 de abril de 1916, somente dois dias após aqueles 6 a 6.

Novamente em O’Donnell, os blaugranas tiveram o domínio da partida e estiveram duas vezes em vantagem, graças a Martínez. Os merengues reagiram e empataram em ambas as ocasiões, apesar dos protestos dos rivais por um impedimento no primeiro tento. Além do mais, ainda desperdiçaram novo pênalti, com Lluis Bru segurando o chute de Bernabéu. A prorrogação seria inescapável. Sotero Aranguren anotou dois gols aos blancos no tempo extra. Porém, quando os anfitriões assinalaram 4 a 2 no marcador, os catalães reclamaram de uma falta sobre o goleiro. Restando 12 minutos, sequer ficaram em campo, em protesto contra o árbitro. Segundo os relatos, a torcida não se manifestou quando os dois times deixaram de campo. Curiosamente, os madrilenos se revoltaram mesmo com Berraondo. A vaga na final caía no colo dos madridistas.

Vale ressaltar que ainda existiam outras controvérsias. No primeiro jogo em Madri, por conta do acidente de trem, Paco Bru completou o Barcelona com cerca de meia hora de bola rolando. O defensor já havia se aposentado nesta época e estava presente em O’Donnell como correspondente do Mundo Deportivo. Contudo, por ainda ser sócio dos culés, ganhou a permissão para entrar. Emprestou as chuteiras de um amigo presente nas arquibancadas e usou uma camisa diferente dos companheiros. Por outro lado, o Madrid também teve o seu reforço de última hora na quarta partida. Diante da ausência de Belaúnde, Zabalo pôde ser escalado pelos blancos. Embora o clube afirmasse que ele fosse atleta de seu segundo quadro, o atacante passou toda a temporada defendendo a Real Unión de Irún. Seria um dos heróis no embate decisivo, autor do gol de empate a cinco minutos do fim do tempo regulamentar.

A ironia de toda a história? O Madrid voltou a Barcelona para a final, em duelo marcado contra o Athletic Bilbao no Camp de la Indústria. Encontrou uma torcida raivosa e sedenta pela vingança através dos bascos. O público catalão não se esqueceu de Berraondo, insultando o árbitro. Desta vez, o apito ficou por conta de Paco Bru – sim, o ex-jogador do Barça, que anos depois se tornaria o primeiro técnico da seleção espanhola. E os Leones acabaram fazendo a festa dos presentes: goleada por 4 a 0, com três gols do artilheiro Félix Zubizarreta. Na saída da cidade, a comitiva merengue chegou a ser apedrejada, embora os dirigentes blaugranas tenham negado que fossem seus torcedores. A semente da discórdia entre barcelonistas e madridistas estava plantada.