Durante os últimos anos, o futebol do Iraque experimentou uma reabertura gradual. Numa década marcada pelos conflitos armados no país e por diferentes manifestações do terror, a seleção local permanecia “exilada”. Em 2017, a equipe pôde interromper um hiato de quatro anos sem atuar no território nacional, durante amistoso contra a Jordânia. Já nesta quinta-feira, os iraquianos viveram outro momento significativo. Pela primeira vez desde setembro de 2011, os Leões da Mesopotâmia realizaram em casa uma partida pelas Eliminatórias da Copa. Receberam Hong Kong e, mesmo em dias tumultuados na nação, garantiram a festa nas arquibancadas, com a vitória por 2 a 0 em Basra.

O desterro da seleção iraquiana foi consequência das crises ocorridas no país desde o início da década. Em 2011, houve uma escalada de violência por conta dos conflitos entre o governo e grupos religiosos sectários – com menção principal ao Daesh, o autointitulado Estado Islâmico. Naquele mesmo período, os Estados Unidos também retiraram suas tropas militares do país. Em setembro de 2011, o Iraque até enfrentou a Jordânia pelas Eliminatórias da Copa do Mundo na cidade de Arbil, dentro do Curdistão. Porém, o compromisso contra a China em novembro precisou ser transferido a Doha.

Durante o primeiro semestre de 2013, o Iraque chegou a disputar dois amistosos em Bagdá. Seria uma exceção, já que o país entraria em guerra civil meses depois. Nos anos seguintes, os Leões da Mesopotâmia mandaram seus jogos em países como Turquia, Catar, Irã, Jordânia e Emirados Árabes Unidos. O conflito com o Daesh teria fim em dezembro de 2017. No entanto, logo em junho, a Fifa permitiu que a seleção disputasse amistosos em regiões pacificadas. A cidade de Basra, no extremo sudeste do país, se tornou a nova casa do time. Pouco depois, a equipe também passou a atuar em Karbala, no centro do território, a 100 quilômetros de Bagdá.

Em agosto deste ano, o Iraque sediou em Karbala o Torneio da WAFF, uma das cinco associações regionais que compõem a Confederação Asiática de Futebol. A competição se tornou um grande passo rumo ao fim da espera. Ainda assim, as expectativas se concentravam na volta das Eliminatórias da Copa ao território. Após estrearem contra o Bahrein fora de casa, os iraquianos disputaram o primeiro duelo como mandantes nesta quinta. Puderam reviver as emoções em Basra. Além da questão de segurança ao redor da cidade, distante dos principais focos de ataque do Daesh, também há por lá um moderno estádio para 65 mil torcedores, inaugurado em 2013.

“Esperamos muito tempo por este momento histórico. Pessoalmente, não consigo encontrar palavras para descrever como me sinto. É uma grande conquista ao povo iraquiano. Esta partida terá um lugar especial na história do futebol iraquiano, depois de tantos anos sem atuar em nosso país. Será um grande incentivo para fazermos nossa torcida feliz. Nosso sonho agora é conquistar a classificação à Copa no solo iraquiano”, apontou o defensor Saad Natiq, em entrevista ao site da Fifa antes da partida.

Visão complementada pelo meia Safaa Hadi: “Jogar no Iraque definitivamente nos dará muito ímpeto. Estou muito feliz por compor este elenco. Ao mesmo tempo, temos uma enorme responsabilidade para fazer nossos torcedores felizes. A torcida será nosso principal jogador no estádio. Seremos um oponente difícil de se encarar nestas Eliminatórias e esperamos alcançar a Copa do Mundo”.

Um momento especial nesta quinta aconteceu logo durante a execução do hino nacional, cantado a plenos pulmões pelos iraquianos nas tribunas. E, dentro de campo, os Leões da Mesopotâmia cumpriram seu papel com a vitória. O atacante Mohanad Ali desperdiçou um pênalti durante os primeiros minutos, mas se redimiu com um gol de cabeça para abrir o placar. Já no segundo tempo, o tarimbado Ali Adnan cobrou penal e fechou a contagem a favor do Iraque.

A partida possui ainda um valor simbólico maior. Mais de 100 pessoas morreram em meio aos protestos recentes contra o governo, concentrados em Bagdá. O recomeço da seleção se insere neste cenário e oferece um alento. A expectativa é de que, gradualmente, os jogos possam ser levados de volta a outras cidades – em especial, Bagdá. Mas, por enquanto, o primeiro passo já vale demais.

Com um elenco jovem, que fez bom papel na Copa da Ásia, o Iraque se permite sonhar nas Eliminatórias. Os iraquianos ocupam a segunda colocação do Grupo C, que ainda conta com Irã, Bahrein, Hong Kong e Camboja. Apenas o líder avança à fase decisiva, juntamente com as quatro melhores campanhas entre os segundos colocados. Os Leões da Mesopotâmia tem uma motivação a mais para lutar.