Como a mediocridade do clássico de 2011 se reinventou no maior Atlético x Cruzeiro da história

A última rodada do Brasileiro de 2011 marcou aquele que se prometia como um dos clássicos mais memoráveis da história de Minas Gerais. Não pela glória, mas pelo drama. O Atlético Mineiro tinha escapado do rebaixamento por pouco e, no dérbi decisivo, poderia derrubar o Cruzeiro à Série B. O resultado em Sete Lagoas, no entanto, esteve longe de concretizar os planos do Galo. A Raposa goleou por 6 a 1, em grande atuação de Roger Flores contra o time de Daniel Carvalho. Um placar que só maquiava a tragédia dupla: os atleticanos humilhados pela derrota e os cruzeirenses aliviados por evitarem a humilhação de cair. Fecharam o ano nas modestas 15ª e 16ª posições do Brasileiro e pararam nas oitavas de final da Copa do Brasil.

TEMA DA SEMANA: O que acontece quando dois rivais estão no auge ao mesmo tempo

Não se passaram nem três anos daquele jogo na Arena do Jacaré. Entretanto, a trajetória de Atlético e Cruzeiro a partir de então faz parecer que a goleada aconteceu em outro século. As torcidas deixaram o seu exílio no interior de Minas para voltar ao Mineirão e ao Independência, completamente renovados como grandes fortalezas. Cuca soube reinventar parte daquele time atleticano para ser vice-campeão brasileiro, conquistar uma Libertadores e acabar com as piadas que perseguiram a torcida no passado recente do clube. Já o Cruzeiro viveu a chegada de Marcelo Oliveira, capaz de montar um elenco fortíssimo mesclando estrelas e outros talentos que ascenderam em suas mãos.

Os duelos da final da Copa do Brasil, estes sim, são os mais importantes da história do clássico. Deixaram para trás a mediocridade de 2011. Marcam agora momentos históricos para a dupla: a continuidade do Atlético que conquistou o título mais importante e o maior domínio do Cruzeiro no futebol nacional. O confronto é um tira-teima sobre o sucesso recente, valendo taça. E que pode não parar por aí, diante das excelentes fases vividas em Belo Horizonte.

Os outros grandes momentos do clássico

Nem sempre Atlético e Cruzeiro fizeram o principal clássico de Minas Gerais, especialmente com o América dominando os primeiros anos do Campeonato Mineiro. Entretanto, os duelos ganharam novas proporções a partir dos anos 1950. Enquanto o Galo desfrutava anos de ouro, com a vitoriosa excursão pela Europa e o pentacampeonato estadual, a Raposa surgiu como desafiante em 1956. O título dividido naquele ano por conta de uma briga na justiça aumentou as rusgas entre os clubes.

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A década de 1960 marcou uma inversão de papeis, com o domínio do Cruzeiro dono de sete campeonatos estaduais e uma Taça Brasil no período. Até que os anos 1970 culminaram em conquistas memoráveis de ambos os lados, concomitantes com os primeiros anos do Mineirão, inaugurado em 1965. O Galo levou o Brasileirão e a Raposa conquistou a América pela primeira vez. Entretanto, por mais que a dupla se mantivesse forte na disputa pelos principais títulos nacionais, os encontros dos timaços ficavam limitados ao estadual. Faltou um momento no qual coincidisse o sucesso de atleticanos e cruzeirenses no mesmo torneio, um Dario x Tostão ou Reinaldo x Nelinho para marcar a história.

Cerezo e Palhinha, dois grandes ídolos de Cruzeiro e Atlético

Cerezo e Palhinha, dois grandes ídolos de Cruzeiro e Atlético

Os confrontos nacionais chegaram a acontecer na década posterior, mas com equipes que não eram tão fortes. O Galo venceu o clássico pelas quartas de final do Brasileiro de 1986 e parou diante do Guarani na etapa seguinte. Já no ano seguinte, a esperada decisão entre os dois melhores times da fase de classificação da Copa União nunca veio, destruída por Flamengo e Inter nas semifinais. E os anos 1990 guardariam mais dois cruzamentos por competições que ultrapassavam as fronteiras estaduais: os cruzeirenses se deram melhor nas semifinais da Copa Ouro de 1993, enquanto o Atlético avançou nas quartas de final do Brasileiro de 1999. Mas, outra vez, os momentos de sucesso não coincidiam tanto. E a Raposa se manteve um passo à frente, com a Libertadores de 1997 e a Tríplice Coroa, vendo o Galo limitado a títulos secundários.

A representatividade do Atlético x Cruzeiro

O título da Libertadores veio para encerrar uma série de traumas do Atlético Mineiro. Uma geração de torcedores alvinegros tinha crescido apenas ouvindo as glórias de quem viu Dario, Reinaldo e Cerezo. O limite era o Campeonato Mineiro ou a Copa Conmebol, quando muito o vice-campeonato brasileiro buscado pelo bom time da dupla Guilherme e Marques. Ainda assim, muito pouco pela história do Galo e por sua massa de seguidores.

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Se a derrota por 6 a 1 para o Cruzeiro pode ser considerada um ponto de virada, está na maneira como o Atlético soube se refazer daquele vexame. Cuca não foi demitido, ao contrário do que muita gente queria. E encabeçou o projeto do elenco montado reaproveitando medalhões – a maioria deles, quando já era chamada de refugo. O negócio mais caro foi a transferência de Victor do Grêmio, embora a tacada de mestre aconteceu quando ninguém mais acreditava em Ronaldinho. O craque deixou o Flamengo para levar os atleticanos ao vice-campeonato brasileiro em 2012 e à glória na Libertadores. Uma campanha na qual o Atlético flertou em vários momentos com o velho infortúnio, mas se reinventou como um campeão que parecia inevitável, tantas foram as suas façanhas.

Réver Levanta a taça da Copa Libertadores: glória máxima
A eliminação para o Raja Casablanca no Mundial de Clubes, o insucesso na defesa do título da Libertadores e a inconsistência no início do Brasileiro deixavam uma interrogação sobre o Galo. No entanto, era apenas uma turbulência que não encerrou a competitividade daquele mesmo time. Apesar da perda de Ronaldinho, a chegada de Levir Culpi serviu para que os atleticanos retomassem os rumos. O título da Recopa iniciou o bom segundo semestre, complementado pela aproximação do G-4 no Brasileiro e a final da Copa do Brasil.

ATLÉTICO: O Galo outra vez desafiou o impossível e provou que estava certo

Em contrapartida, o atleticano não pôde desfrutar plenamente de suas glórias porque, ao mesmo tempo, via o Cruzeiro fazer campanhas tão fantásticas quanto. A queda para a Série B poderia significar uma hecatombe na Toca da Raposa. Contudo, os cruzeirenses ensinaram uma lição bastante valiosa à maioria dos times brasileiros: não é preciso ser rebaixado para começar a reconstrução. Depois de um ano apenas regular em 2012, com o time fechando o Brasileiro no meio da tabela, a nova era se iniciou a partir da chegada de Marcelo Oliveira para 2013.

Cruzeiro garantiu título brasileiro com grande campanha (Foto: Washington Alves/Textual)

A volta ao Mineirão deu novo impulso ao Cruzeiro, que também se movimentou bem no mercado. Dedé, Júlio Baptista, Willian, Dagoberto e Henrique eram os nomes tarimbados que chegavam, junto com jogadores sem tanta grife, como Everton Ribeiro, Ricardo Goulart e Nilton. E o bom trabalho na promoção das promessas das categorias de base ajudou a formar um elenco fortíssimo. Os cruzeirenses formaram o time mais consistente do país, premiado com duas campanhas irretocáveis no Campeonato Brasileiro. Por mais que o poder de decisão tenha falhado em alguns momentos na Copa do Brasil de 2013 e na Libertadores. De qualquer forma, os torcedores mais jovens puderam reviver as melhores lembranças de 2003, quando a imponência foi comparável. Desta vez, em dose dupla.

O duelo de contrastes

Atlético e Cruzeiro protagonizaram grandes campanhas desde 2013. E de maneiras completamente diferentes. A poesia do Galo, com suas estrofes épicas e os finais inesperados. A prosa da Raposa, com sua linearidade e regularidade. O milagreiro dos mata-matas diante o rolo compressor dos pontos corridos, em uma final cuja lógica das trajetórias não diz muito. Afinal, é possível esperar qualquer coisa de um clássico, ainda mais nessas dimensões.

Luan (Cruzeiro) e Leonardo Silva trocam empurrões na final do Campeonato Mineiro de 2013

A torcida atleticana se acostumou ao sofrimento. De um time que pode não ser constante, mas tem sangue quente o suficiente para decidir quando é preciso. E provou esta capacidade inúmeras vezes nos últimos meses. Agora, o difícil é acreditar que o Galo não consegue virar uma situação adversa. Especialmente porque seus melhores jogadores parecem feitos para aparecer justo quando a esperança se esvaiu. Como Victor, Diego Tardelli ou Luan – o grande nome da campanha na Copa do Brasil até aqui.

CRUZEIRO: Quando as pernas cansaram, Cruzeiro arrancou as suas vitórias e foi campeão incontestável

Já o Cruzeiro tem o sangue frio de manter o ritmo de seu passo no Brasileiro, por mais que o cansaço por vezes pese nas pernas. Não quer dizer, contudo, que a Raposa também não possua a capacidade de crescer em momentos cruciais. Algo que demonstrou na suada classificação na fase de grupos da Libertadores e nas oitavas contra o Cerro Porteño, apesar da queda para o San Lorenzo dos milagres também infinitos. E que se repetiu em jogos vitais nos últimos dias. No primeiro tempo contra o Internacional e no segundo contra o Grêmio, os cruzeirenses mostraram essa vontade, assim como no confronto de volta com o Santos na semifinal da Copa do Brasil.

A história dos últimos dérbis

Por sorte, o futebol ignora a racionalidade. O que torna a vitória do Atlético Mineiro por 2 a 0 no primeiro duelo da decisão uma mera vantagem, longe de qualquer certeza. Os alvinegros sabem como as possibilidades de reverter o placar seguem abertas, ainda mais depois do que fizeram ao longo da campanha. Enquanto os celestes confiam no ótimo time que possuem, por mais que seja difícil copiar os milagres dos rivais.

Ainda mais porque, nos últimos clássicos, quem tem dominado é o Atlético. Em 2013, o Galo perdeu dois dos três dérbis pelo Campeonato Mineiro, mas acabou com a taça. Já no Brasileiro, quando atuou com o time completo, botou água no chope dos rivais. O cenário se reverteu no Campeonato Mineiro de 2014, com o Cruzeiro buscando o título após dois empates por 0 a 0. Só que as duas derrotas para os atleticanos acabaram maculando a campanha do bicampeonato brasileiro. E o primeiro jogo da Copa do Brasil reiterou a sequência alvinegra, em uma invencibilidade de sete jogos contra os arqui-inimigos.

NO PRIMEIRO JOGO: O Atlético soube ser Cruzeiro, mas o Cruzeiro saberá ser Atlético?

Se o Atlético não conquistar a taça nesta quarta, porém, essa hegemonia recente não adiantará em nada. Quem vai reinar no jogo que realmente valia taça será o Cruzeiro. Ou Galo conseguirá manter a coroa dos mata-matas e mostrar que tem mais fúria que os rivais? A resposta só virá depois dos 90 minutos no Mineirão, que renderão horas de espera aflita e semanas de sarro nas ruas de Minas Gerais. Uma história que continua sendo escrita, e cujo ponto final talvez não seja o troféu da Copa do Brasil – mas, quem sabe, um confronto pela Libertadores, como poderia ter acontecido já em 2014.

Os títulos da dupla entre 2013-14

Atlético Mineiro: Libertadores 2013; Recopa Sul-Americana 2014; Campeonato Mineiro 2013.
Cruzeiro: Campeonato Brasileiro 2013, 2014; Campeonato Mineiro 2014.

Victor comemora o pênalti contra o Tijuana: outro mexicano pelo caminho? (AP Photo/Eugenio Savio)

O grande momento do Atlético Mineiro

Diante de tantos milagres, fica até difícil escolher um só. No entanto, não há nenhum mais simbólico do que a defesa de Victor no pênalti de Riascos. O lance que parecia pronto para derrubar o Atlético Mineiro em suas desgraças recentes se transformou na redenção. No momento de virada, em que o impossível se tornou mero detalhe para o Galo. Depois disso, ainda vieram os gols suados e os pênaltis contra Newell’s Old Boys e Olimpia na Libertadores, o esforço ante o Lanús na Recopa e as viradas incríveis para cima de Corinthians e Flamengo na Copa do Brasil. Contra os rubro-negros, para exorcizar um dos maiores fantasmas no imaginário atleticano.

O grande momento do Cruzeiro

Ao contrário de seus rivais, as melhores memórias deste Cruzeiro não vêm do sofrimento. Pelo contrário, são aqueles jogos nos quais o domínio que a equipe celeste impõe impressiona. Na campanha do Brasileiro de 2013, a vitória por 3 a 0 sobre o Botafogo de Seedorf no segundo turno é a que mais pesa. Já neste ano, fica difícil de superar a virada em cima do Grêmio em Porto Alegre. Mesmo com o time desgastado, a Raposa conseguiu buscar o resultado contra um adversário sólido defensivamente e que tinha o apoio da torcida. A defesa de Fábio no chute à queima-roupa de Barcos ainda evitou o triunfo gremista.

O craque atleticano no período

Não há questão que o jogador do Galo mais talentoso neste ciclo vitorioso é Ronaldinho. No entanto, por mais que o camisa 10 tenha brilhado em lances sensacionais, principalmente na campanha da Libertadores, o grande mito atleticano que surgiu foi Victor. São Victor. O goleiro capaz de defesas fundamentais, que proporcionaram os grandes milagres do clube. Por mais que sua trajetória siga em curso, pelo protagonismo, já pode ser considerado como o maior camisa 1 do Atlético.

Éverton Ribeiro, meia do Cruzeiro

O craque cruzeirense no período

O Cruzeiro não é time de um jogador. A virtude do trabalho de Marcelo Oliveira é o conjunto. Mesmo assim, Éverton Ribeiro despontou como principal nome da Raposa. O meia que sabe fazer golaços e servir os companheiros como ninguém se tornou a estrela no Brasileirão de 2013 e se transformou em principal termômetro neste ano. A maratona de jogos pesou contra Éverton, mas os momentos em que ele soube superar as pernas pesadas resultaram em importantes vitórias cruzeirenses. As atuações decisivas nas últimas semanas reforçam isso.

O carrasco atleticano no período

As atuações de Diego Tardelli foram fundamentais nas vitórias do Atlético sobre os rivais nos últimos dois anos. Ele comandou a conquista do Mineiro em 2013 e também jogou muito bem nos 3 a 2 no segundo turno do Brasileirão deste ano. E, por mais que não tenha balançado as redes, ajudou a desmontar a defesa cruzeirense no jogo de ida da final da Copa do Brasil. Contudo, quem começa a despontar como um possível carrasco é o garoto Carlos, que balançou as redes aos 46 do segundo tempo na vitória de setembro e demonstrou muita categoria na decisão do Independência.

O carrasco cruzeirense no período

Ricardo Goulart se transformou no principal artilheiro do Cruzeiro em 2014, mas meses antes protagonizou a goleada sobre o rival no Brasileirão. É verdade que o Galo poupou o time principal após ganhar a Libertadores, mas a Raposa não teve piedade no Mineirão: vitória por 4 a 1 de virada, com dois gols do atacante. No duelo do segundo turno do Brasileirão deste ano, Goulart até comandou a reação que buscou o empate contra os atleticanos, mas o gol de Carlos no fim impediu que os cruzeirenses tivessem motivos para comemorar.

Os números de 2013-14

5 vitórias do Atlético Mineiro
3 empates
3 vitórias do Cruzeiro