Desde que o escândalo Fifagate foi revelado, em 27 de maio, a Fifa tem insistido em tirar o corpo fora. Seus dirigentes, liderados pelo presidente Joseph Blatter, dizem repetidas vezes que a entidade está “feliz” com as investigações e que luta pela melhora do futebol. Nega qualquer envolvimento dos principais nomes da entidade, como o próprio presidente e o secretário-geral, Jérôme Valcke. Até esta quinta-feira, quando a entidade divulgou a demissão do francês do seu cargo depois de tomar conhecimento das acusações do dirigente no escândalo de venda de ingressos para a Copa do Mundo.

“A Fifa anunciou hoje que o seu secretário-geral, Jérôme Valcke, foi colocado em licença e liberado das suas funções com efeito imediato até novo aviso. Além disso, a Fifa tomou conhecimento de uma série de denúncias envolvendo o secretário-geral e solicitou uma investigação formal pelo Comitê de Ética da Fifa”.

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Valcke é uma figura que gosta de holofotes e de declarações fortes. Em março de 2012, em uma reunião da International Football Association Board (Ifab, que define as regras do futebol), uma das suas pérolas foi ter dito que o Brasil “precisava de um chute no traseiro” pelos atrasos na preparação para a Copa do Mundo. “Eu não entendo por que as coisas não estão se movendo. Os estádios não estão dentro no cronograma, e por que tantas coisas estão atrasadas?” perguntou. Segundo ele, o Brasil precisa “se mexer”, e os organizadores da Copa precisam “levar um chute no traseiro e entregar essa Copa do Mundo”.

As primeiras denúncias de envolvimento de Jérôme Valcke relacionadas ao Fifagate vieram em junho. O New York Times denunciou que Valcke autorizou o pagamento de US$ 10 milhões a Jack Warner pelo apoio à candidatura da África do Sul para sediar a Copa de 2010. Este pagamento feito pelo Comitê Organizador da África do Sul já tinha causado suspeitas que, na verdade, era o pagamento de suborno. Quando os sul-africanos tentaram explicar o incidente, só levantaram mais suspeitas.

A denúncia surgiu nesta quinta na Suíça. Benny Alon, ex-funcionário de uma empresa chamada JB Sports Marketing, mandou e-mails para veículos de imprensa ingleses detalhando o que seria a venda de ingressos com mais de três vezes o valor de face. A empresa venderia ingressos da Copa do Mundo, mas o contrato acabou cancelado.

Segundo o jornal inglês Guardian, os documentos sugerem que Valcke seria o beneficiário de um acordo para vender ingressos a preços inflacionados. Os documentos, contudo, estão incompletos, são seletivos e poderiam facilmente ser abertos a outras interpretações. Alon ainda afirmou, sem ter qualquer prova que sustente, que ele levou cerca de US$ 250 mil em dinheiro para entregar a Valcke na sede da Fifa em Zurique como pagamento por um negócio de venda de ingressos.

De fato havia um contrato entre JB Sports Marketing e Fifa para a venda de ingressos para a Copa do Mundo de 2014. A empresa, aliás, está envolvida em contratos com a Fifa desde o Mundial de 1990, na Itália. O contrato da alegação, assinado em 2010, garante ingressos para as 12 melhores partidas do torneio, mas também confirma que eles devem aceitar a venda de ingressos das 12 piores partidas. Segundo Alon, em uma reunião com Valcke no escritório do secretário-geral em que o executivo da empresa de marketing afirmou que teria perda de US$ 300 mil nas piores partidas, o dirigente da Fifa ofereceu-se para garantir que ele garantiria ingressos para os melhores jogos de Alemanha e Brasil. Outro e-mail mostra que os ingressos foram alocados conforme combinado.

Um e-mail de Alon, enviado a Valcke em abril de 2013, traz detalhes sobre o lucro com cada um dos ingressos. Em um jogo de oitavas de final em São Paulo, por exemplo, 50 ingressos com valor nominal de US$ 230 foram vendidos a US$ 1,3 mil e outros 600 ingressos para um jogo da Alemanha na primeira fase foram vendidos por três vezes o valor nominal de US$ 190. “Estamos indo melhor que a bolsa de Nova York”, escreveu Alon.

O negócio, porém, acabou fracassando, segundo Alon, porque a Fifa percebeu que não deveria ter concordado vender os ingressos, uma vez que o negócio não estava em conformidade com a legislação brasileira. Valcke diz, em e-mail, que é preciso abandonar a ideia. “Você, nós, não temos escolha. Caso contrário, o negócio será cancelado pela Fifa ou todos nós estaremos cometendo crime. Não é uma piada. É muito grave”, escreveu o secretário-geral.

Embora os documentos não provem o recebimento de dinheiro por parte de Valcke, na melhor da hipóteses, tinha relações suspeitas e teve uma atuação bastante questionável em relação à JB Sports Marketing. Todo mundo deve ser presumido inocente até que se prove o contrário, porque é assim que a justiça funciona. A questão, neste momento, é que a Fifa afastou o dirigente – usando o mesmo termo da entidade, mas a descrição correta seria dizer que ele foi demitido. E isso é suficiente para falarmos sobre a atuação de Valcke no futebol, que não foi positiva.

O secretário-geral da Fifa é um dos cargos mais importantes do futebol, mas Valcke sempre atuou mais em manter um “padrão Fifa” de estádios e de Copas do Mundo, elevando o gasto dos países-sede, com estádios que não servem para o dia a dia. Servem apenas para a Copa do Mundo, não para o futebol. O tão alardeado padrão Fifa, seja para sediar Copas do Mundo, seja para estádios, seja na forma de conduzir o esporte, só serviram para dar dinheiro à entidade, não para melhorar a modalidade. O legado de Valcke no seu cargo é negativo. Ter as duas Copas do Mundo em lugares extremamente questionáveis como a Rússia e o Catar é só a ponta do iceberg: o futebol tem se tornado um esporte que serve só aos interesses dos dirigentes, não ao dos torcedores, principal patrimônio dessa paixão.

Adeus, Valcke. Até nunca mais. Você não fará falta nenhuma ao futebol.