Não há semifinalistas inéditos na Copa do Mundo de 2018. França, Bélgica, Inglaterra e Croácia já experimentaram antes o que é brigar por uma final, embora o histórico seja um tanto quanto longínquo a todos eles. Os franceses são os mais tarimbados em semifinais. Vão para a sua sexta, embora só tenham vencido as duas últimas, em 1998 e 2006. Os croatas, há 20 anos de sua façanha no Mundial de 1998, elevam o aproveitamento histórico de quem disputa sua quinta Copa. Os ingleses retornam após 28 anos, tentando deixar o desfecho mais parecido com a alegria de 1966 do que com as lágrimas de 1990. Já os belgas possuem a grande oportunidade para provar que a atual geração é mesmo melhor que a de 1986. Abaixo, relembramos brevemente o contexto e os jogos das semifinais passadas. Confira:

Copa de 1958, França 2×5 Brasil

Desde os primórdios do futebol de seleções, a França encabeçou a tomada de decisões, mas não necessariamente acumulava grandes resultados. A Copa de 1958, em partes, serve para referendar o talento dos Bleus – repercutindo também o que se via entre os clubes, com o Stade de Reims. Os vice-campeões da primeira Copa dos Campeões, aliás, serviam de base ao time treinado por Albert Batteux, que acumulava funções entre clube e seleção. A equipe era estrelada por Robert Jonquet, Roger Piantoni e Just Fontaine, ídolos alvirrubros, e também por Raymond Kopa, que já havia iniciado sua trajetória no Real Madrid.

Em um grupo relativamente difícil na primeira fase, a França terminou na liderança da chave que também tinha Paraguai, Escócia e Iugoslávia – para quem foi derrotada na segunda rodada. Nas oitavas de final, um baile sobre a Irlanda do Norte. Até que o potencial ofensivo não fosse suficiente contra o Brasil. Vavá abriu o placar e Fontaine até conseguiu empatar aos nove, mas o problema é o show que viria em seguida, especialmente depois que o camisa 10 Robert Jonquet se lesionou – em tempos sem substituições, ficou apenas fazendo número na ponta esquerda. Enquanto Didi deu a vantagem com um chutaço de fora da área antes do intervalo, Pelé acabou com o jogo na volta do segundo tempo, balançando as redes três vezes em 23 minutos, com direito a golaço. Piantoni, ao final, anotaria o gol de consolação, fechando o placar em 5 a 2. Como honra derradeira aos franceses, os 6 a 3 sobre a Alemanha Ocidental na decisão do terceiro lugar, que impulsionaram Fontaine à artilharia e Kopa à Bola de Ouro.

Copa de 1966, Inglaterra 2×1 Portugal

Havia uma pressão enorme sobre a Inglaterra em 1966. E, bem, a equipe correspondeu, ainda que seus resultados fossem magros no início da competição. Na fase de grupos, teve vitórias sobre França e México, além do empate com o Uruguai. Nas quartas de final, uma batalha para passar contra a Argentina. Até que Portugal chegasse como pedreira nas semifinais. Um adversário devidamente conhecido pelos ingleses, considerando que semanas antes o Manchester United havia eliminado o Benfica nas quartas de final da Copa dos Campeões. Desta vez, não haveria George Best em campo. No entanto, outro mancuniano resolveria: Bobby Charlton, dono da camisa 9.

O jogo inicialmente marcado para o Goodison Park aconteceu em Wembley, após a federação inglesa realizar a mudança nos bastidores – e contar com a aprovação da federação portuguesa para isso. Quando a bola rolou, Charlton apareceu pela primeira vez aos 30 minutos do primeiro tempo. Bobeira da defesa portuguesa que o meia não perdoou, com um chute rasante da entrada da área. Já no segundo tempo, o pé calibrado do craque faria a diferença mais uma vez, ampliando a vantagem com um ótimo arremate cruzado. Ao final, Eusébio descontou cobrando pênalti e António Simões até poderia ter forçado a prorrogação, mas Gordon Banks se agigantou em seu caminho, garantindo a vitória por 2 a 1. Na decisão, no mesmo estádio, prevaleceu a alegria da Inglaterra com a polêmica vitória por 4 a 2 sobre a Alemanha Ocidental.

Copa de 1982, França 3×3 Alemanha Ocidental

Sabia-se da qualidade da seleção francesa às vésperas da Copa de 1982. Ainda assim, o torneio poderia ser um divisor de águas ao time que caiu na primeira fase do Mundial anterior e sequer se classificou à Euro 1980. Era um elenco que atingia o seu auge físico, composto por jogadores ainda atuando no futebol local, mas com potencial. Ainda que a fase de grupos tenha deixado dúvidas, com classificação que veio mais pela incompetência da Tchecoslováquia do que por outros motivos, os Bleus engrenaram ao superar Áustria e Irlanda do Norte no triangular seguinte. Até que a Alemanha Ocidental aparecesse como desafio.

Bola por bola, a França tinha jogadores mais talentosos, especialmente porque Karl-Heinz Rummenigge começara no banco, sem as melhores condições físicas. E, apesar do gol de Pierre Littbarski que abriu o placar, os franceses eram melhores na partida, com Michel Platini cobrando pênalti para empatar. O atrito maior viria no início do segundo tempo, na saída de gol criminosa de Harald Schumacher, que tirou Patrick Battiston de combate e sequer rendeu cartão ao arqueiro. O empate prevaleceu em meio aos ânimos acirrados e, logo no início da prorrogação, Marius Trésor e Alain Giresse anotaram dois gols à França. A Alemanha só renasceu depois que Rummenigge foi ao sacrifício, com o veterano descontando e vendo Klaus Fischer decretar o empate com uma meia-bicicleta. Já na disputa por pênaltis, vitória germânica nas alternadas, pelo placar de 5 a 4, com direito a duas cobranças defendidas por Schumacher. Os Bleus ainda perderiam a decisão do terceiro lugar para a Polônia, por 3 a 2. O rancor pela semifinal, porém, não terminou no campo. Dias depois à histórica partida, os líderes políticos de França e Alemanha Ocidental precisaram vir a público buscar uma reconciliação diante das tensões.

Copa de 1986, França 0x2 Alemanha Ocidental

Se em 1982 havia a expectativa, em 1986 a França já era uma certeza. Conquistara a Euro 1984 com uma campanha fantástica, via Michel Platini vivendo seus melhores anos na Juventus e a base do time em boa sequência, até por aquilo que outras lideranças faziam com o Bordeaux. A caminhada no México começou econômica, mas não deixava dúvidas de que aquele poderia ser o ápice, com uma fase de grupos invicta, a classificação sobre a Itália nas oitavas e a vitória nos pênaltis contra o Brasil nas quartas. Isso até que a Alemanha Ocidental aparecesse mais uma vez no caminho, para reavivar o velho ranço e as lembranças do que acontecerá quatro anos antes, em Sevilha.

Quatro anos envelhecida e desgastada pelos 120 minutos contra o Brasil, a França não teve vez no Estádio Jalisco. Porque, afinal, mais do que os remanescentes de 1982, quem brilharia na Alemanha seriam os futuros tricampeões de 1990. Rummenigge vestia a braçadeira, mas não foi ele quem amedrontou. Aos nove minutos, contando com a colaboração do goleiro Joël Bats, Andreas Brehme abriu o placar. Os Bleus poderiam ter empatado, mas desperdiçaram um caminhão de chances, com Schumacher acumulando boas defesas. Já nos instantes finais, um contra-ataque aberto foi a deixa para Rudi Völler fechar o caixão, chapelando Bats antes de concluir à meta vazia. Marcaria o fim de uma geração à França, ausente nos dois Mundiais seguintes.

Copa de 1986, Bélgica 0x2 Argentina

Na mesma Copa do Mundo de 1986, do outro lado, a Bélgica vivia a sua única semifinal. Era um país que batia cartão nas competições internacionais durante aquelas décadas e que via o sucesso de seus clubes além das fronteiras, mas se marcou mesmo pela caminhada no México. Possuía um elenco homogêneo, com bons jogadores em quase todas as posições e talentos evidentes, do porte de Jean-Marie Pfaff e Jan Ceulemans. A primeira fase foi sofrível, com direito a uma derrota para o México na estreia e a classificação apenas como um dos melhores terceiros colocados, mas o time engrenou a partir das oitavas de final. Passou pela União Soviética em épica vitória por 4 a 3, num jogo de emoções e contestações, até derrubar a Espanha nos pênaltis, durante as quartas de final. Por fim, a Argentina seria o desafio gigantesco nas semis.

E se Maradona fez o que fez contra a Inglaterra dias antes, ele seria também o pesadelo da Bélgica – que, curiosamente, vencera a Albiceleste na abertura da Copa de 1982. O camisa 10 começou a decidir a partir do segundo tempo. Anotou um gol de raça, na saída de Pfaff, e ampliou com uma jogadaça individual, fazendo fila na defesa vermelha antes de definir com sutileza. Não deixava de ser já uma façanha aos belgas chegar até ali, de qualquer forma. A base daquela seleção acumularia outras participações nas grandes competições, mas sem o mesmo nível de excelência visto no México. Ainda assim, marcam a história.

Copa de 1990, Inglaterra 1×1 Alemanha Ocidental

Por todo o contexto, a Copa de 1990 possui enorme representatividade ao futebol inglês. Olhando para trás a partir daquele marco, eram tempos medonhos ao futebol local, por todos os episódios de violência que ocorriam, diante de uma sensação de decadência. Olhando para frente, se tornou um resgate não apenas ao que se vivia na relação do público com o esporte, mas na própria comoção ao redor da seleção inglesa. O time de Bobby Robson soube resgatar o orgulho e a empolgação a partir de jogadores talentosos, além de vitórias emocionantes. Depois da campanha morna na fase de grupos, a equipe embalou após bater o Egito. Nos mata-matas, superou Bélgica e Camarões apenas na prorrogação. Até que o ápice viesse, mais uma vez, diante da Alemanha Ocidental.

O jogo em Turim teve as emoções à flor da pele. Durante o primeiro tempo, Chris Waddle quase marcou do meio-campo, mas Bodo Illgner deu um tapinha e a bola bateu no travessão. Andreas Brehme abriu o placar aos 15 do segundo tempo, em uma cobrança de falta que desviou em Paul Parker e encobriu Peter Shilton. Já o troco viria aos 35, a partir de um erro da defesa alemã, que deu brechas para Gary Lineker resolveu com pouco espaço. E a prorrogação seria ainda mais intensa, entre as chances de Jürgen Klinsmann e a bola na trave de Guido Buchwald, entre o tento anulado de David Platt e a vez em que Waddle esbarrou também no poste. Paul Gascoigne chorou quando recebeu o amarelo que o tiraria de uma eventual final. E com o 1 a 1 prevalecendo, a decisão foi aos pênaltis, depois de Shilton e Illgner fazerem defesas milagrosas nos 120 minutos de bola rolando. Melhor ao alemão, que salvou o chute de Stuart Pearce e viu Waddle perder, definindo o placar em 4 a 3 ao Nationalelf.

Copa de 1998, França 2×1 Croácia

Em 1998, encontros cruzados em relação ao que acontecerá 20 anos depois. Anfitriã, a França passava sufoco ao longo da competição e tinha questionamentos sobre o seu elenco, mas não se negava a força. Depois das vitórias agonizantes sobre Paraguai e Itália nos mata-matas, havia um time com mental forte e caráter para encarar os desafios. Necessitava reafirmar as suas condições contra a Croácia, que vinha como franco-atiradora em seu primeiro Mundial. Independentemente da derrota para a Argentina no fim da primeira fase, os croatas mereciam o rótulo de sensação, após superarem Romênia e Alemanha nas etapas anteriores. Além disso, tinham um elenco com jogadores experimentados nas grandes ligas europeias. Mas o que poderia ser um encontro histórico de Davor Suker e Zinedine Zidane, terminou com outro protagonista.

Zidane bem que tentou. Comandou o bombardeio durante o primeiro tempo, parando no goleiro Drazen Ladic. E logo no primeiro minuto da segunda etapa, os franceses prenderiam a respiração, quando uma bobeira na marcação permitiu que Suker abrisse o placar. Seria necessário reagir, um desafio inédito ao time até então naquela Copa. Pois o herói seria um dos mais inesperados. Lilian Thuram empatou um minuto depois, ao roubar a bola de Zvonimir Boban e tabelar com Youri Djorkaeff, antes de anotar seu primeiro gol pela seleção. O segundo viria aos 25, depois que o lateral recebeu de Thierry Henry e ganhou mais uma disputa na frente, antes de mandar a bola no cantinho. Aos 31, Laurent Blanc foi expulso por uma suposta agressão em Slaven Bilic, deixando os Bleus com um a menos. O jogo ficou aberto e os dois times tiveram chance de marcar, com Fabien Barthez salvando o último lance de perigo. Ao apito final, Thuram era carregado nos braços em Saint-Denis.

Copa de 2006, França 1×0 Portugal

Após o tombo em 2002, a França vinha com os pés no chão em 2006. Ainda tinha um time qualificado, entre os remanescentes de outros sucessos e novas apostas. Mas precisaria se provar quando os resultados já não eram tão bons. Ter Zidane, Henry, Patrick Vieira, Claude Makélélé e Franck Ribéry não bastou para os Bleus fugirem do sufoco na fase de grupos, com apenas uma vitória sobre Togo. A mudança de postura só aconteceu nos mata-matas, com a primeira atuação soberba de Zizou, para despachar a Espanha. Então, o triunfo afirmativo sobre o Brasil, definido por Henry e decidido pelo craque da camisa 10. Do outro lado, Portugal também vinha de dois grandes vitórias, sobre Holanda e Inglaterra, e com um grupo de veteranos que tinha sua última oportunidade de triunfar.

Em Munique, não daria para Figo, Deco ou o ascendente Cristiano Ronaldo. Portugal martelou durante a maior parte do primeiro tempo, mas quem abriu o placar foi a França. Aos 33 minutos, Ricardo Carvalho cometeu pênalti em Henry e Zidane não se intimidou com a figura do goleiro Ricardo, que pegara três cobranças contra a Inglaterra. Chute no cantinho do camisa 10, 1 a 0 no placar. Durante o segundo tempo, os franceses começaram fazendo Ricardo trabalhar, mas logo a Seleção das Quinas cresceria e insistiria contra a meta de Fabien Barthez. A falta de pontaria pesou contra. Melhor para os Bleus, que avançaram rumo à noite amarga contra a Itália em Berlim.


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