O que representará Kiev no próximo sábado, se sentia em Paris há 37 anos. Liverpool e Real Madrid se enfrentaram em sua primeira decisão de Champions ao final da temporada 1980/81, uma época bastante distinta a ambos os clubes. Naquele momento, os Reds eram vistos como potência e favoritíssimos ao título, dominando os torneios continentais e o futebol inglês naquela época – embora viessem de duas temporadas em jejum além das fronteiras, desde o bicampeonato no final da década anterior. Os merengues, por outro lado, aos trancos e barrancos permaneciam como uma força na Espanha, então tricampeões nacionais. Mas insistentemente buscavam recuperar a taça que foi sua por tanto tempo, e que lhes escapava desde 1966. Uma decisão que, entre os descaminhos que 90 minutos de futebol proporcionam, acabaram norteando rumos em Anfield e no Bernabéu.

O Liverpool atravessava os anos abastados sob as ordens de Bob Paisley. Tinham um time com estilo de jogo bem definido, um elenco completo para enfrentar várias frentes, jogadores incisivos e também tarimbados. Não à toa, reinaram na Europa com o bicampeonato da Champions em 1977 e 1978, os primeiros ingleses a emendarem duas taças consecutivas. No entanto, os Reds não conseguiram se impor da mesma maneira logo na sequência, em duas quedas precoces. As eliminações para Nottingham Forest em 1978/79 e Dinamo Tbilisi em 1979/80 não deixaram de ter certo ar de surpresa no momento que aconteceram, apesar de tudo o que ambos os algozes provaram – o fulminante time de Brian Clough, que vinha do título inglês e da Copa da Liga em cima dos próprios Reds, antes de se sagrar bicampeão continental; e os soviéticos, de um estilo de jogo técnico e de muita capacidade individual, partindo à conquista da Recopa em 1981, bem como servindo de base à seleção nacional. De qualquer maneira, era a Copa dos Campeões uma cobrança em Anfield, até pela maneira como time continuava se impondo no Campeonato Inglês, bicampeão naquelas duas temporadas.

Já na Espanha, o Real Madrid atravessava um período de renascimento, ainda que sem empolgar. Para o que se viveu nos anos 1950 e 1960, a década de 1970 foi dura aos merengues. O clube encontrou certas dificuldades em seu processo de renovação, ao mesmo tempo em que via o Atlético de Madrid desfrutar de sua época dourada e o Barcelona se reafirmar sob a estrela de Johan Cruyff. Somente na segunda metade daquela década é que os merengues recuperaram sua hegemonia em La Liga, com cinco títulos entre 1975 e 1980 – uma supremacia marcada mais pelas dificuldades da concorrência do que exatamente pela excelência dos blancos. Tempos nos quais Amancio e Pirri passaram o bastão a uma geração mais jovem, encabeçada por Juanito, Santillana, Del Bosque e Camacho. Ainda assim, faltava algo para sonhar com a Champions. A partir de 1975/76, foram duas eliminações nas semifinais, para Bayern de Munique e Hamburgo, além de quedas em fases anteriores para Club Brugge e Grasshopper. Pouco a quem tinha uma história tão gloriosa a defender na competição.

No âmbito nacional, particularmente, a temporada de 1980/81 marcou problemas tanto a Liverpool quanto a Real Madrid. Os Reds sentiam certos desgastes e não fizeram uma grande campanha no Campeonato Inglês. Por mais que a espinha dorsal fosse mantida, o time de Bob Paisley sofreu com a inconsistência tanto de seu ataque quanto de sua defesa, que pioraram demais os seus números na liga. O primeiro turno do clube foi regular, se vislumbrando ainda chances de título. O problema veio a partir do Boxing Day, quando a coisa degringolou, com míseras seis vitórias nas últimas 19 rodadas. O Aston Villa aproveitou a derrocada para se sagrar campeão, enquanto os vermelhos amargaram um modestíssimo quinto lugar. E, apesar da conquista da Copa da Liga, a eliminação para o Everton na Copa da Inglaterra incomodou bastante.

O Real Madrid, da mesma maneira, perdeu sua sequência de três títulos consecutivos no Campeonato Espanhol. O iugoslavo Vujadin Boskov chegara na temporada anterior, referendado por seu trabalho no Zaragoza, e mantivera o ritmo dos merengues ao completar o tri nacional, apesar de uma disputa acirrada com a Real Sociedad. A pré-temporada de 1980/81 tinha deixado os seus avisos, especialmente quando os espanhóis engoliram uma humilhante goleada por 9 a 1 em amistoso contra o Bayern de Munique. E, de fato, o time perdeu competitividade em La Liga. Apesar dos bons números do ataque, a defesa descompensou, com média superior a um gol sofrido por jogo, rendendo um total de nove derrotas – o triplo em relação às duas campanhas anteriores. Ao longo de uma trajetória irregular, os madridistas transitaram entre a terceira e a sétima colocação durante a maior parte da campanha. A sequência de sete vitórias no final da liga serviu para deixar uma boa impressão final, mas não para superar a Real Sociedad. O time até chegou a comemorar o título por alguns segundos, após bater o Valladolid, mas o empate agônico arrancado pela Real Sociedad nos instantes finais de seu jogo deixou a taça com os txuri-urdin, graças aos critérios de desempate. Já na Copa do Rei, o Sporting de Gijón foi o carrasco nas quartas de final.

Na Copa dos Campeões, ao menos, tudo dava certo a Liverpool e Real Madrid. O torneio continental se tornaria prioridade aos clubes, em uma temporada cansativa e de problemas com lesões. Os Reds nadaram de braçada a partir das fases iniciais. Após um surpreendente empate na estreia contra o Oulun Palloseura, visitando a Finlândia, o time de Bob Paisley tratou de normalizar a situação enfiando 10 a 1 em Anfield – com tripletas de Souness e McDermott. Nas oitavas e nas quartas, quatro vitórias, com novas goleadas em casa sobre dois oponentes de respeito: o Aberdeen de Sir Alex Ferguson e o CSKA Sofia, base da seleção belga e futuro carrasco na própria Champions. Já a grande pedreira veio nas semifinais, ao encarar o Bayern de Munique de Karl-Heinz Rummenigge, melhor jogador da Europa no momento.

Após o empate por 0 a 0 no enlameado Anfield, em duelo extremamente travado, o Liverpool precisou buscar o resultado no Estádio Olímpico de Munique. Apesar da lesão sofrida por Kenny Dalglish logo no início da partida, os ingleses tentaram partir para cima, em noite de faltas duras e provocações – sobretudo a Howard Gayle, substituto de King Kenny e primeiro negro a jogar pelo clube, que causava problemas à defesa bávara com sua velocidade, mas acabaria saindo também no decorrer a da partida ante o destempero. Os visitantes passaram a sofrer mais sustos no segundo tempo, mas conseguiram marcar a sete minutos do fim, com Ray Kennedy numa calma inimaginável à ocasião. E em meio à blitz desesperada dos germânicos, o tento de Rummenigge se tornou inútil. Pelo gol fora de casa, o empate por 1 a 1 recolocava os Reds na final após três anos.

Ao Real Madrid de Vujadin Boskov, a campanha rendeu certa afirmação a um time com bem menos reputação internacional naquele momento. Os irlandeses do Limerick não foram problema na primeira fase. Depois, os merengues passaram nas oitavas pelo Honvéd, que se restabelecia como principal força na Hungria. Nas quartas de final, um desafio considerável ante o Spartak Moscou de Dasaev, Cherenkov, Gavrilov, Rodionov e Romantsev. Após o empate sem gols na União Soviética, o substituto Isidro Díaz foi o talismã nos 2 a 0 do Bernabéu, em dois lances brigados dentro da área alvirrubra. Já nas semifinais, a Internazionale campeã italiana se punha como obstáculo, em tempos nos quais a Serie A se reabria a estrangeiros.

A qualidade dos nerazzurri era inegável, com uma escalação que apresentava Bordon, Bergomi, Giuseppe Baresi, Prohaska e Altobelli, entre outros. Porém, os 2 a 0 no Bernabéu foram determinantes. O Real Madrid pressionou durante a maior parte do tempo, apostando em seu jogo físico de arrancadas pelos lados e bolas alçadas na área. Santillana marcou de cabeça no primeiro tempo e, na raça, Juanito ampliou logo após o intervalo. Quando poderiam ter descontado, os italianos perdoaram. Por fim, no reencontro em Milão, os blancos puderam se dizer com sorte. A pressão foi toda da Inter, trocando passes em velocidade com certa facilidade. O goleiro Agustín Rodríguez, de apenas 21 anos, segurou o quanto pôde. No início do segundo tempo, o capitão Graziano Bini botou os interistas na frente. Contudo, o time não conseguiu furar a defesa adversária mais uma vez, para tentar ampliar a diferença. A vitória por 1 a 0 foi insuficiente e desatou a revolta nas arquibancadas do San Siro. Em vão.

Naquele momento, o Parc des Princes tinha certa aura como o principal estádio da Europa continental. O Liverpool, que já tinha se consagrado no Estádio Olímpico de Roma (1977) e em Wembley (1978) poderia adicionar mais um palco histórico às suas façanhas. E o favoritismo estava do lado dos Reds, por toda a experiência do elenco. O Real Madrid, por sua vez, retornava a um local que representava bastante à sua história. Foi no mesmo gramado que os merengues conquistaram o seu primeiro título europeu, batendo o Stade de Reims em 1956. Depois disso, dominaram as finais continentais. Mas o sexto título, em 1966, marcava um incômodo hiato. Até existiram bons times no Bernabéu depois disso. Porém, nenhum deles capaz de alcançar a final como o de 1981.

O Liverpool mantinha oito titulares em relação ao time que conquistara o bicampeonato europeu em 1978. Ray Clemence era o goleiro, em linha defensiva estabelecida com Phil Neal, Phil Thompson, Alan Hansen e Alan Kennedy – que ocupava a lacuna deixada pelo capitão Emlyn Hughes em relação à vitória sobre o Club Brugge. No meio, Graeme Souness e Terry McDermott eram os dínamos na faixa central, com Sammy Lee e Ray Kennedy providenciando o apoio pelas pontas. Já no ataque, David Johnson acompanhava Kenny Dalglish, grande referência ofensiva da equipe. King Kenny, aliás, era uma boa notícia, após ser dúvida por causa das lesões recentes. Não perderia aquela ocasião por nada. Estrelava uma equipe que sabia controlar as partidas, tinha muita intensidade e poder de decisão.

Do outro lado, o Real Madrid de Vujadin Boskov contava com uma equipe mais física, sem tantos recursos, de imposição na força – como se caracterizou o clube naquele momento histórico. Formado na base, o goleiro Agustín Rodríguez assumia a bronca após a lesão de Mariano García Remón. A defesa contava com Rafael García Cortés, Antonio García Navajas, Andrés Sabido e José Antonio Camacho. No meio, o nome mais célebre era do alemão Uli Stielike, um jogador incansável e de inteligência tática, mas que diferia de Günter Netzer e Paul Breitner, seus antecessores na “germanização” do Bernabéu. Com problemas musculares, tinha a companhia de Ángel de los Santos e do passador Vicente del Bosque. Já no ataque, Santillana servia como principal referência, acompanhado por Juanito e Laurie Cunningham. Jogador mais habilidoso do time, o ponta inglês sofria com as frequentes contusões. Segundo os próprios companheiros, não estava pronto para atuar naquele momento.

Não foi dos jogos mais agradáveis de se assistir. Até porque o Real Madrid, também em crise de confiança após a derrocada para a Real Sociedad no Campeonato Espanhol, passou a atuar em função do Liverpool. Tudo o que Boskov pensou, foi para contragolpear o time de Bob Paisley. E sua estratégia pouco deu certo no ataque, especialmente por causa da péssima jornada de Cunningham. Pressionado a jogar, o ponta demonstrava claras dificuldades para correr. Não conseguiu ser o toque de fantasia em meio a um time lutador. Afinal, nada que fizesse os Reds temerem, já que dificilmente algo incomodava o estilo de jogo bem fundamentado em Anfield.

O gramado também não ajudava. Dias antes, o Parc des Princes havia sido palco de uma partida de rúgbi e o estado do campo era péssimo – com vários buracos, desníveis e marcações mal feitas. E para piorar, os dois times estavam dispostos a se impor mais na pancada do que na bola. Houve uma série de entradas duras, que poderiam ter rendido bem mais do que os dois cartões amarelos exibidos pelo árbitro húngaro Károly Palotai. Camacho, por exemplo, havia sido especialmente designado a perseguir Souness. Logo nos primeiros minutos, deixou sua marca no motor dos Reds (que, afinal, também não era santo) e limitou bastante os seus movimentos no restante da partida. Seria esta a tônica da final.

O Liverpool, ao menos, conseguiu ameaçar mais no ataque. Tentava se aproximar da meta do Real Madrid, embora não concluísse as jogadas da melhor maneira. Na melhor chance antes do intervalo, Souness parou no goleiro Agustín Rodríguez e não conseguiu aproveitar o rebote. Os merengues, de fato, tiveram apenas uma oportunidade clara de marcar. Camacho saiu de frente para Ray Clemence, mas, na tentativa de encobrir o arqueiro, mandou por cima do travessão. Sequer o artilheiro Santillana conseguiria assustar da maneira que costumava, diante do duelo amarrado em Paris. Assim, como os Reds mantendo a posse de bola e explorando as pontas, o gol saiu apenas a dez minutos do fim. Um lateral de Ray Kennedy aproveitou a passagem de Alan Kennedy – que era dúvida para a final, após quebrar o pulso contra o Bayern. O defensor passou por García Cortés, que errou o bote, e encheu o pé, na cara do gol. Após o tento, Paisley preferiu fechar o meio, mas o fato é que os ingleses poderiam ter feito mais, dada a facilidade que encontraram contra adversários já desmontados pela desesperança e pelo cansaço.

O Real Madrid lamentava a chance desperdiçada, entre as lágrimas de seus jogadores nos vestiários. Mas, de tão azarões, os jogadores receberam a premiação da diretoria pela campanha até a final. A derrota por 1 a 0 saía em conta, pela diferença entre os dois times. Já o Liverpool ergueu a Orelhuda pela terceira vez, a terceira sob as ordens de Bob Paisley. Na comemoração em Paris, ficaram eternizadas as imagens das camisas com uma fita crepe sobre o símbolo da Umbro, em uma disputa hoje impensável com a transmissão da TV, que se recusou a exibir a marca. E na volta para a Inglaterra, Alan Kennedy era o mais festejado, por todo o esforço e o poder de decisão. Aquele era o primeiro título continental do defensor, que viu os companheiros erguerem uma faixa de agradecimento no ônibus que desfilou por Merseyside.

O título da Champions serviu como uma confirmação ao Liverpool. De 1976 a 1983, o time de Bob Paisley sempre ganhou ao menos um título relevante por temporada, entre Campeonato Inglês e Copa dos Campeões – sem contar a Copa da Liga, Copa da Uefa, Supercopa Europeia e Community Shield que vieram neste caminho, em coleção na qual só faltou mesmo a Copa da Inglaterra e o Mundial Interclubes, este entre duas desistência e a derrota para o Flamengo em 1981. Naquela temporada 1980/81, que havia sido turbulenta na liga nacional, a reconquista continental evitou qualquer pressão desnecessária para a continuidade do trabalho. O clube ficaria pelo caminho nas duas edições seguintes do torneio da Uefa, derrubado por CSKA Sofia e Widzew Lódz, ambos em confrontos pelas quartas de final. Ainda assim, a hegemonia seria mantida na liga nacional com mais um bicampeonato.

Vale dizer que o Liverpool passou por uma renovação sutil ao longo daqueles anos. Ray Clemence, Terry McDermott, Ray Kennedy e David Johnson saíram de cena até 1982, com a ascensão de Bruce Grobbelaar, Ronnie Whelan, Craig Johnston e Ian Rush. Já em 1983/84, quando o assistente Joe Fagan assumiu o legado de Bob Paisley, os Reds voltaram a conquistar a Champions, na famosa decisão contra a Roma no Estádio Olímpico. A base de 1981 ainda tinha sua importância e representava mais metade da escalação. A espinha dorsal sofreria mais algumas alterações a partir da temporada seguinte, quando novamente a equipe foi finalista na Champions, perdendo para a Juventus no jogo marcado pelo desastre de Heysel. Só então haveria um processo de mudança mais efetivo, que ainda assim permitiu novos títulos domésticos em Anfield.

Já o Real Madrid percebeu que aquela final era mesmo um ponto fora da curva, ato final de um time que não frutificaria nas temporadas seguintes. Boskov durou mais uma temporada, assim como Laurie Cunningham. Os ídolos Alfredo Di Stéfano e Amancio Amaro passaram pelo banco de reservas, mas não tiveram grande sucesso no Campeonato Espanhol – em tempos dominados por Real Sociedad e Athletic Bilbao, antes que o Barcelona tomasse o topo em 1985. No máximo, os merengues precisaram se contentar com o título da Copa do Rei em 1982, que os permitiria disputar (e perder) a final da Recopa de 1983 contra o Aberdeen de Ferguson. O céu só começou a clarear em 1984/85, quando os madridistas voltaram a celebrar uma taça continental: a Copa da Uefa, não a mais desejada, embora representasse algo ao que se vivia.

Os anos de penúria aos merengues, de qualquer maneira, permitiram a reconstrução do clube. Vários jogadores da base passaram a ganhar espaço nas temporadas posteriores, entre eles Chendo, Butragueño, Martín-Vázquez, Manolo Sanchís e Míchel. Nascia ali a famosa Quinta del Buitre, de futebol bem mais ofensivo e vistoso. Em 1985, aconteceu uma importante mudança na política interna, com a saída do franquista Luís de Carlos e a chegada do cosmopolita Ramón Mendoza. Logo também viriam reforços como Hugo Sánchez e Antonio Maceda. O jejum no Campeonato Espanhol se rompeu com o pentacampeonato nacional. Veio também o bicampeonato na Copa da Uefa. Faltaria mesmo a Champions, uma obsessão que se tornou mais torturante com as três quedas consecutivas nas semifinais (para Bayern, PSV e Milan), quando a envolvente equipe merecia mais sucesso. Os merengues só voltariam a uma final do principal torneio europeu em 1998. Desde então, não perderam mais, em sequência que apenas o Liverpool poderá interromper.