Falcão poderia ter ficado a carreira inteira no Internacional. Seria confortável e fácil manter-se na seleção brasileira jogando no clube que o idolatrava, mas ele queria mais. Queria conquistar outros territórios, outros títulos, outras torcidas, e foi desfilar o seu futebol na Itália.

O volante conquistou o privilégio de ser um dos maiores jogadores da história do clube gaúcho, do Brasil e da Roma com passes apurados, chutes precisos, um tempo de bola esplendoroso e, principalmente, muita classe. Foi o mais importante estrangeiro do time da capital italiana e o brasileiro que abriu as portas da Itália para os seus conterrâneos. Acha pouco? Não se preocupe. No aniversário de 60 anos do craque, vamos contar o que mais ele fez por lá.

O jogador abre alas

A Itália fechou o mercado para estrangeiros por 14 anos. A ideia, que não era completamente absurda, era fortalecer a seleção nacional, que havia passado vexame na Copa do Mundo de 1966. A derrota para a Coreia do Norte e a eliminação na primeira fase foram apenas o clímax trágico de uma sequência de resultados péssimos. Caiu prematuramente nos Mundiais de 1954 e de 1962 – nem se classificou para 1958 – e nas duas primeiras edições da Eurocopa, em 1960 e 1964.

Cabe debate se isso foi preponderante ou não, mas a Itália foi campeã europeia de 1968 e vice mundial de 1970. Mesmo assim, abriu o seu mercado para jogadores estrangeiros apenas em 1980, e um dos primeiros contratados foi Paulo Roberto Falcão, exigência do técnico sueco Niels Liedholm. A Roma pagou U$ 1,5 milhão pelo craque e líder do Internacional tricampeão brasileiro.

O sucesso quase instantâneo de Falcão abriu as portas do mercado italiano. Zico, Toninho Cerezo, Júnior, Casagrande, Renato Gaúcho e outros craques brasileiros da década de 1980 tiveram passagens, mais ou menos vitoriosas, pelo país. Tudo porque um catarinense de Abelardo Cruz resolveu seguir o conselho da mãe e foi para a Europa tentar conquistar o mundo.

Primeiro, a península itálica
Falcão foi campeão italiano na terceira temporada pela Roma
Falcão foi campeão italiano na terceira temporada pela Roma

O primeiro passo era conquistar a Itália. Falcão tinha três anos de contrato para isso e começou bem. Desembarcou com alguns jargões em italiano na ponta da língua, mas o scudetto que queria vencer bateu na trave na sua primeira temporada. Por detalhes, ou se alguém quiser ser mais malicioso, pela interferência do árbitro Paolo Bérgamo, que seria o chefe de arbitragem da Federação Italiana de Futebol no escândalo de 2006, que favoreceu, entre outros clubes, a Juventus.

Pois essa mesma Juventus, líder do Campeonato Italiano de 1980/81, recebeu a segunda colocada Roma a três rodadas do fim, com um ponto de vantagem. Carlo Ancelotti começou a jogada, o centroavante Roberto Pruzzo arrumou de cabeça e o zagueiro Maurizio Turone mandou para o gol. A jogada aparentemente normal foi anulada, a partida terminou 0 a 0, e a Velha Senhora sagrou-se campeã, com dois pontos a mais que o time de Falcão, que fez três gols em 25 jogos, mas teve que se contentar com o título da Copa Itália.

Não era pouco para um clube que não vencia o Italiano desde 1942. A temporada seguinte, porém, foi pior, embora o brasileiro tenha dobrado o número de gols marcados. A Roma ficou em terceiro lugar, atrás da Fiorentina e da Juventus. A oportunidade de voltar a ser campeã nacional veio em 1982/83, e Falcão não a deixaria escorregar pelos dedos.

Individualmente, foi a melhor temporada dele na Itália. Fez sete gols em 27 partidas na liga, criou uma infinidade de chances e terminou o torneio como o principal destaque. Apesar de perder os dois confrontos diretos para a Juventus, a Roma foi campeã com duas rodadas de antecedência. Quebrou o jejum de 41 anos e consagrou Falcão, que sucedeu Tarquínio, o Soberbo, como o oitavo Rei de Roma. O apelido, mais até do que o título, era a prova de que havia conquistado a península itálica.

Agora, o resto da Europa
Falcão jogava de cabeça erguida, mas às vezes dava carrinho
Falcão jogava de cabeça erguida, mas às vezes dava carrinho

A Copa Uefa de 1982/83 foi um aperitivo. Uma forma de Falcão testar as suas habilidades contra outros clubes europeus. A Roma passou pelo Ipswich Town, vice-campeão inglês das duas temporadas anteriores, na primeira rodada e sofreu para eliminar o sueco Norrkoping, nos pênaltis. Depois de bater o alemão Köln, chegou às quartas de final e foi derrotado pelo Benfica. Falcão marcou o gol do empate por 1 a 1 em Lisboa, mas os italianos haviam perdido por 2 a 1, em casa.

Com o scudetto abrilhantando a estante de troféus, o time chegou com mais moral para a Liga dos Campeões de 1983/84. A pressão por uma boa campanha era maior ainda porque a decisão seria realizada no Estádio Olímpico. Nada que o Rei de Roma não pudesse suportar.

Nas três primeiras fases, Falcão jogou todas as partidas. Liderou um time que fez dez gols e sofreu apenas quatro para eliminar o sueco Göteborg, o búlgaro CSKA Sofia e o alemão Dynamo Berlin. A brilhante Liga dos Campeões do brasileiro foi atrapalhada por uma lesão no joelho que o tirou da primeira semifinal contra o Dundee United, que abriu vantagem de 2 a 0 na disputa.

Falcão esteve em campo na segunda partida, em um Estádio Olímpico abarrotado com 90 mil pessoas. Ainda no primeiro tempo, Pruzzo, duas vezes, e Di Bartolomei fizeram o resultado que a Roma precisava para decidir o título europeu em casa. A final contra o Liverpool de Ian Rush, Graeme Souness e Kenny Dalglish seria difícil, mas a Roma tinha suas próprias armas: Toninho Cerezo, Bruno Conti e, claro, Falcão. O problema é que o craque do time havia machucado o joelho mais uma vez na semifinal contra o Dundee United e não conseguiu jogar bem.

A partida terminou 1 a 1. O troféu europeu seria decidido nos pênaltis. Todos esperavam que Falcão realizasse uma das cobranças, mas ele se recusou. Conti e Francesco Graziani desperdiçaram as suas cobranças e o título ficou com o Liverpool. Foi o fim do sonho da Roma e o começo da derrocada do brasileiro na capital italiana.

O rei ficou nu
Falcão jogou contra Maradona na Itália
Falcão jogou contra Maradona na Itália

A Roma ganhou a Copa Itália de 1983/84 e foi vice-campeã italiana e europeia. A mudança de patamar do clube desde o começo daquela década foi tão acentuada que a temporada acabou sendo decepcionante, mesmo com a Tríplice Coroa tendo batido na trave.

A seguinte seria a última de Falcão na Itália. As lesões o impediram de jogar. Atuou apenas quatro vezes e fez um gol no Campeonato Italiano de 1984/85, que a Roma terminou em sétimo. Sem poder chutar uma bola, teve uma vida agitada fora dos gramados. A diretoria irritou-se ao ver o salário mais elevado do clube namorando Ursula Andress, primeira Bond Girl da franquia de filmes do 007, enquanto a equipe patinava na liga nacional.

O ponto de ruptura foi a viagem, sem autorização, que Falcão fez para Nova York para operar o joelho. Seu agente queria mantê-lo na Europa, mas o jogador decidiu voltar para o Brasil como o melhor estrangeiro da história da Roma, mas sem conquistar o mundo. Talvez a Itália seja o bastante.

Veja os 22 gols de Falcão pela Roma: