Desde 2001/02, a Roma possui uma notável relevância entre os clubes italianos na Liga dos Campeões. São dez participações na competição continental desde então – três a menos que a Juventus, uma a menos que o Milan e o mesmo número que a Internazionale. A presença constante, porém, não vinha se revertendo necessariamente em grandes campanhas dos romanistas. Nem mesmo o esquadrão que reconquistou o Scudetto em 2000/01 teve vida tão longa, parando na segunda fase de grupos. No máximo, os giallorossi haviam sido quadrifinalistas duas vezes. Em 2006/07, superaram nas oitavas o multicampeão Lyon, mas foram massacrados pelo Manchester United na fase seguinte, com direito aos famosos 7 a 1. Já em 2007/08, o feito foi derrubar o Real Madrid, naquela época em que as oitavas pareciam um obstáculo intransponível aos merengues. Contudo, o sonho logo acabaria novamente ante os Red Devils, ainda que sem nova goleada acachapante.

Antes de 2001/02, o costume da Roma era disputar as copas europeias secundárias – Recopa e Copa da Uefa. Em tempos nos quais a Champions era um clubinho fechado aos realmente campeões, os romanistas não tinham muita vez. Ainda assim, é preciso considerar seu relativo sucesso além das fronteiras. Em time treinado pelo mítico Luis Carniglia, a Roma conquistou a Taça das Cidades com Feiras (precursora da Copa da Uefa) em 1961, batendo o Birmingham na final. Era um elenco fortíssimo, capitaneado pelo ídolo Giacomo Losi, além de contar com talentos como o brasileiro Dino da Costa e o argentino Antonio Angelillo. Já em 1990/91, seria a vez dos giallorossi ficarem com o vice-campeonato na Copa da Uefa, em decisão perdida contra a Internazionale. Giuseppe Giannini, Aldair e Rudi Völler estavam entre as estrelas da equipe dirigida por Ottavio Bianchi. E, entre uma decisão e outra, houve a grande aventura europeia vivida na Cidade Eterna.

A Roma ao menos figurou uma vez na antiga Copa dos Campeões. E não era com qualquer time. Não seria exagero dizer que conquistar a Serie A nos anos 1980 se colocava como uma missão tão difícil quanto chegar ao topo do torneio continental. Basta ver os craques que desfilavam pelos estádios italianos, a concorrência. Em 1982/83, os giallorossi faturaram o segundo Scudetto de sua história, o primeiro em 41 anos. Contavam com um timaço dinâmico e de muita verticalidade, que conquistou aquele título com todos os méritos.

Conhecedor da Serie A como pouquíssimos, Nils Liedholm estava em sua segunda passagem à frente da Roma. Comandou o time nos anos 1970 e, depois de um breve hiato no Milan , retornou em 1979/80. Pôde redesenhar o time a partir da abertura do mercado italiano a estrangeiros. E assim, com o investimento do presidente Dino Viola, o treinador recebeu o reforço de Paulo Roberto Falcão. Desde o desembarque do craque no Estádio Olímpico, em 1980/81, os giallorossi sonhavam com a reconquista do Scudetto, mas ficavam no quase. Perderam a liderança para a Juve apenas na reta final de 1980/81, com direito a um contestado gol anulado da Loba durante a visita a Turim na antepenúltima rodada; e terminaram em terceiro na campanha seguinte, desta vez sem acompanhar tão de perto os juventinos. Por fim, era hora de dar um passo à frente em 1982/83.

O esteio daquele time estava no meio-campo. Falcão era o vértice do esquadrão e tinha ao seu lado duas ótimas companhias, para oferecer mobilidade ao setor. Jovem talento em ascensão, Carlo Ancelotti se firmava com a camisa giallorossa, enquanto o austríaco Herbert Prohaska fora comprado junto à Internazionale. No ataque, outro reforço recente, Maurizio Iorio, acompanhava outros dois nomes tarimbados: Roberto Pruzzo e Bruno Conti, entre os maiores ídolos da história do clube, nomes recorrentes na seleção nacional. Já na renovada linha defensiva, escoltando o goleiro Franco Tancredi, o eterno capitão Agostino Di Bartolomei fazia o papel de líbero, com Aldo Maldera e Sebastiano Nela como terzinos, além do promissor Pietro Vierchowod trazido para dar o combate pelo centro da zaga.

Bicampeã, a Juventus parecia ainda mais forte com as adições de Michel Platini e Zbigniew Boniek. A Roma, todavia, não deu chances para os bianconeri – apesar dos triunfos da Velha Senhora nos dois turnos. Das 30 rodadas, os giallorossi não foram líderes apenas na terceira. Contaram com uma belíssima arrancada, vencendo cinco das primeiras seis rodadas, e também com a boa proteção de sua defesa, a segunda menos vazada. Ao final, com quatro pontos de vantagem, o Scudetto se confirmou na penúltima rodada, graças ao empate fora de casa contra o Genoa. Di Bartolomei ergueu a taça e terminou por consagrar o esquadrão.

A missão da Roma seria mais ampla. Apesar da perseguição que durou quase toda a campanha, os giallorossi não conseguiram conquistar o bicampeonato da Serie A em 1983/84, terminando atrás da Juventus. Mas poderiam sonhar com a inédita conquista da Copa dos Campeões, um título que a Itália não faturava já havia 15 anos. E não se podem negar que, apesar de algumas perdas, o time permanecia fortíssimo. Vierchowod, Prohaska e Iorio deixaram o Estádio Olímpico. Em compensação, Toninho Cerezo desembarcou para tomar conta do meio-campo, enquanto o ataque ganhava o acréscimo de um campeão do mundo em 1982, Ciccio Graziani, trazido da Fiorentina. E, por sorte, Falcão permaneceu como o Rei de Roma, depois de uma turbulenta renovação de contrato.

Nils Liedholm, ainda assim, teve os seus problemas na montagem do esquadrão. Com a volta de Vierchowod à Sampdoria, de onde tinha vindo por empréstimo, a linha defensiva passou a sofrer rotações maiores sem se encaixar. Já no meio-campo, a perda mais lamentada foi a de Carlo Ancelotti, que sofreu uma série lesão no joelho em novembro. De qualquer forma, não era isso que minava o favoritismo dos romanistas na Champions. Apareciam na primeira prateleira de candidatos ao título, desafiando principalmente Liverpool e Hamburgo.

A Roma encontrou suas dificuldades na Copa dos Campeões, mas ia conseguindo se impor fase a fase. Nos 16-avos de final, o desafio era duro, com o Göteborg de Glenn Hysén pela frente. Os giallorossi abriram o caminho para a classificação já no Estádio Olímpico, vencendo o jogo de ida por 3 a 0, em verdadeiro bombardeio no qual o goleiro e as traves evitaram um estrago maior. Conti, Vincenzi e Cerezo (este, em uma jogada coletiva magnífica, com vários passes de primeira) anotaram os gols. Já na volta, a derrota por 2 a 1 na Suécia não atrapalhou os planos. O CSKA Sofia surgiu como desafio seguinte, mas os giallorossi não tomaram conhecimento dos búlgaros. Falcão garantiu a vitória por 1 a 0 fora de casa e Graziani repetiu o placar na Itália.

A exigência parecia subir um pouco mais nas quartas de final, diante do Dínamo de Berlim, dominante no Campeonato Alemão-Oriental. Nada que os comandados de Nils Liedholm não tirassem de letra. De novo, encaminharam a situação logo na ida, anotando 3 a 0 na Itália – desta vez, com tentos de Graziani, Pruzzo e Cerezo, em meia hora arrasadora no fim do segundo tempo. Tiveram calma para encarar a intimidação em Berlim, até abrindo o placar, apesar da virada dos anfitriões por 2 a 1.

Por fim, nas semifinais, aconteceu uma reação com contornos épicos, que de certa forma lembra a situação desta temporada. Tudo bem, o Dundee United não possui a badalação do Barcelona, mas era um time bastante forte na época, ascendendo no Campeonato Escocês ao lado do Aberdeen. E a reviravolta parecia bem difícil após a partida de ida no Tannadice Park, quando os visitantes – sem o lesionado Falcão – perderam por 2 a 0. Botando pressão no segundo tempo, especialmente no jogo aéreo, os Tangerinas balançaram as redes com David Dodds e Derek Stark, além de acertarem o travessão de Tancredi. A superioridade havia sido tão marcante que o técnico Jim McLean passou a provocar, dizendo que seus jogadores “atuaram a base de esteroides”.

As declarações não pegaram nada bem. A Roma ficou ainda mais mordida para o reencontro no Estádio Olímpico. Os ultras giallorossi fizeram uma recepção barulhenta aos escoceses no hotel e ainda atiraram objetos no ônibus, a caminho do Estádio Olímpico. No entanto, a Roma era bem mais forte também na bola dentro de sua casa. Diante de 70 mil nas arquibancadas pulsantes, o placar agregado já estava igualado com apenas 38 minutos. Pruzzo chamou a responsabilidade e balançou as redes duas vezes, como um legítimo centroavante. Já na segunda etapa, o Bomber sofreu um pênalti claro, convertido pelo capitão Di Bartolomei, que colocou os romanistas na inédita final.

Na saída de campo, McLean sofreu com a hostilidade dos torcedores e dos próprios jogadores da Roma. Ouviu impropérios, tomou socos e foi alvo de cusparadas no caminho até os vestiários. Em uma foto icônica, o zagueiro Sebastiano Nela mostra o dedo do meio ao treinador. Além disso, dois anos depois da partida, o presidente romanista Dino Viola acabou suspenso pela Uefa. A entidade continental descobriu uma tentativa de suborno ao árbitro Michel Vautrot e condenou o dirigente a quatro anos de gancho. Em 2011, inclusive, o filho do antigo mandatário romanista admitiu que o dinheiro foi entregue a um intermediário e que teria chegado às mãos do francês. O juiz, por outro lado, negou a manipulação. De fato, os giallorossi fizeram uma partidaça naquela tarde e, além do pênalti bem marcado, tiveram dois tentos anulados, em uma arbitragem acima das suspeitas. Mas, diante da revelação, a insatisfação que perdura entre os escoceses é compreensível.

Chegar à decisão da Champions, por fim, era um sonho em sentido amplo. Mais do que ter a chance de botar a mão na taça, a Roma ainda jogaria no Estádio Olímpico, pré-selecionado para a decisão. Só que, apesar do apoio da torcida e do ambiente favorável, havia uma pedreira pela frente. O Liverpool passou por renovações, mas seguia como o esquadrão que assombrou o continente a partir do final da década de 1970. Sob o comando de Joe Fagan, os Reds contavam com referências do calibre de Kenny Dalglish, Graeme Souness, Alan Hansen e Ian Rush – muitos deles suficientemente experimentados no cenário europeu, com os títulos de 1977, 1978 e 1981.

Para a partida final, Nils Liedholm via a força de seu time se concentrar entre o meio-campo e o ataque. Na faixa central, a Roma contava com uma trinca formada por Di Bartolomei, Cerezo e Falcão. A dinâmica dos brasileiros, sobretudo, era essencial ao funcionamento do time, com suas costumeiras chegadas à área para finalizar – embora o Rei de Roma não estivesse em suas melhores condições físicas. Bruno Conti se punha como o responsável pela ligação, apoiando Pruzzo e Graziani na linha de frente. Já a defesa tentava encontrar o seu norte, entre as mudanças em relação à temporada anterior. Apenas o goleiro Tancredi e Nela permaneciam em relação ao 11 principal na conquista do Scudetto. O experiente Michele Nappi fechava pela direita, enquanto pela esquerda a aposta era em Dario Bonetti. Já Ubaldo Righetti se tornava a grande revelação,  jovem zagueiro que vinha ganhando espaço nos meses anteriores e chegou até mesmo à seleção.

O clima no Estádio Olímpico, obviamente, era favorável à Roma. O Liverpool precisava encarar um adversário forte e ainda a hostilidade da torcida nas arquibancadas abarrotadas. Por isso mesmo, adotou uma estratégia defensiva, que logo deu resultado. Aos 12 minutos, os Reds abriram o placar. Após um cruzamento da direita, o goleiro Tancredi disputou no alto com Ronnie Whelan e soltou a bola. Na sobra, Nappi tentou afastar e carimbou o próprio arqueiro. Então, a pelota ficou limpa para Phil Neal estufar as redes. Dois minutos depois, Souness marcaria o segundo, mas o tento acabou anulado por impedimento.

Os dois goleiros trabalhavam, mas a Roma conseguiu buscar o empate pouco antes do intervalo. Marcado por dois, Conti teve o primeiro cruzamento bloqueado, mas aproveitou a sobra para tentar novamente. Mandou a bola na cabeça de Pruzzo, que se esticou para desviar e mandou no canto de Grobbelaar. Já no segundo tempo, os romanistas intensificaram a pressão, embora tenham perdido o artilheiro Roberto Pruzzo por lesão. O zagueiro Mark Lawrenson se sobressaía, fundamental para conter a ânsia dos italianos, enquanto Di Bartolomei também era um xerife na cabeça de área italiana, travando as aproximações vermelhas. Além disso, os dois goleiros realizaram boas defesas, mantendo o placar inalterado até a prorrogação. Então, nada de riscos, em 30 minutos extras cautelosos e arrastados, que levaram a definição aos pênaltis.

A ambição da Roma, entretanto, se perdeu em meio às pernas malemolentes de Grobbelaar. Os giallorossi até criaram esperanças, quando Steve Nicol chutou por cima do travessão a primeira cobrança do Liverpool e Di Bartolomei soltou um petardo para colocar os italianos em vantagem. Já na segunda série, Phil Neal deixou tudo igual e Conti também isolou. Souness e Righetti converteram na terceira rodada, até que a quarta fosse decisiva, depois que Ian Rush botou os Reds na frente. Ciccio Graziani foi para a bola e Grobbelaar fez sua célebre dança, tentando desestabilizar o adversário. Desconcentrado, o atacante mandou para fora. Por fim, Alan Kennedy anotou o quinto chute dos ingleses e confirmou o título com a vitória por 4 a 2.

Entre as “romadas” históricas, esta certamente é a mais dolorosa. Não que a Roma tenha amarelado, em uma final na qual peitou um esquadrão de igual e teve atitude. De qualquer maneira, era inegável a frustração por ver o timaço de Nils Liedholm cair daquela maneira, com a taça erguida pelos Reds dentro de sua própria casa e diante da torcida giallorossa. Como consolação, um mês depois os romanistas conquistaram a Copa da Itália, batendo o Verona na final. Aquele triunfo marcou a despedida de Liedholm, que voltou ao Milan, mas teria ainda mais duas passagens pelo Estádio Olímpico.

Já a maior perda se deu com a saída do capitão Di Bartolomei. Eleito o melhor jogador da final contra o Liverpool, seguiu com Liedholm a Milão. Depois de quase duas décadas no clube, honrando as cores da Loba desde as categorias de base, o símbolo giallorosso se despedia do Estádio Olímpico, para nunca mais voltar. Defendeu os rossoneri por três anos, além de passar por Cesena e Salernitana, até se aposentar em 1990, aos 35 anos. O ídolo, porém, nunca se esqueceu da mágoa deixada por aquele 30 de maio de 1984. Exatos dez anos depois da decisão da Champions, enclausurado por conta da depressão e sofrendo com as dívidas financeiras, o herói romanista decidiu pôr um ponto final em sua vida. Com um tiro no peito, se suicidou em 30 de maio de 1994.

O desmanche da Roma vice-campeã europeia aconteceu aos poucos, e boa parte dos remanescentes ainda levaram o clube ao vice-campeonato da Serie A em 1985/86, além de novo título da Copa da Itália na mesma temporada. Já a chance de disputar outra vez uma final europeia aconteceu na referida decisão da Copa da Uefa de 1990/91, na qual Sebastiano Nela era o único que permaneceu em relação ao confronto com o Liverpool – reserva, Bruno Conti deixou o clube naquela temporada. Seriam necessários 34 anos para reviver a sensação de disputar uma semifinal de Champions. E os giallorossi certamente não reclamam da emoção que experimentaram ao longo das últimas horas.


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