Como era o último Ajax a disputar os mata-matas da Champions, em 2005/06


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Dos 12 times que confirmaram suas classificações antecipadas às oitavas de final da Liga dos Campeões, oito estiveram também nos mata-matas da edição passada. Atlético de Madrid e Borussia Dortmund figuram entre as exceções, mas por conta das campanhas ruins que fizeram, acostumados à fase decisiva do torneio. E mesmo o Schalke 04 protagonizou trajetórias de destaque no torneio ao longo da década. O único clube que anda realmente alheio das etapas decisivas da Champions é justamente um dos mais tradicionais: o Ajax. A classificação dos Godenzonen no Grupo E encerra um hiato de 12 anos. E oferece a deixa para relembrarmos outros tempos do clube.

Quatro vezes campeão europeu, o Ajax participou da fase de grupos 14 vezes desde que a Champions mudou de formato, em 1992/93. O título de 1995 marcou a melhor campanha no período, comprovando a força do célebre time de Louis van Gaal, recheado de garotos promissores. De 1994/95 a 2004/05, os Godenzonen começaram a sentir os efeitos da Lei Bosman e nem sempre os seus elencos conquistaram a vaga na etapa seguinte da LC. Neste intervalo, em sete aparições na primeira fase de grupos do torneio, os alvirrubros avançaram apenas em quatro. Tempos no qual o caráter de investimento do clube se voltava ainda mais a jovens promessas, sem que elas pudessem permanecer tanto tempo em Amsterdã.

Neste contexto, nem tudo era certo ao Ajax quando se classificou à Champions 2005/06. A equipe terminou com o vice-campeonato na Eredivisie, o que a obrigou a entrar nas preliminares da competição continental. Campeão dinamarquês, o Brondby apareceu como desafio antes da fase de grupos, mas não causou tantos problemas. Os Ajacieden arrancaram o empate por 2 a 2 na região metropolitana de Copenhague, após ficarem duas vezes em vantagem. Já no reencontro em Amsterdã, aconteceu a vitória por 3 a 1, em que os gols decisivos vieram só depois dos 35 do segundo tempo. Confirmada a presença na etapa principal do torneio, os holandeses foram sorteados no Grupo B, ao lado de Arsenal, Thun e Sparta Praga.

O Ajax tinha uma base experimentada na Champions. Depois de algumas aparições na Copa da Uefa no início da década, aquela era a quarta participação consecutiva dos Godenzonen na etapa principal da LC. Em 2002/03, o clube passou pelas duas fases de grupos previstas pelo regulamento, encarando equipes como Lyon, Internazionale, Valencia, Roma e Arsenal. Caiu apenas nas quartas de final, superado pelo Milan, futuro campeão. O sucesso resultou na saída de alguns dos destaques daquela equipe, como Cristian Chivu, Andy van der Meyde e Mido. Já nas duas campanhas seguintes, em 2003/04 e 2004/05, o resultado ficou aquém do esperado. Em ambas o Ajax acabou no meio do caminho, no máximo avançando à Copa da Uefa na segunda tentativa. Da mesma maneira, destaques arrumaram as malas neste intervalo, com menções especiais a Zlatan Ibrahimovic (artilheiro do time na caminhada até as quartas de 2002/03) e Rafael van der Vaart.

De qualquer maneira, uma das virtudes do Ajax sempre foi se reconstruir a partir de suas promessas. Não seria diferente na Champions 2005/06. No início daquela temporada, o principal investimento do Ajax foi para o ataque. O clube trouxe Marcus Rosenberg do Malmö, então um promissor atacante de 22 anos. E a base titular tinha uma série de garotos que despontavam da base. Maarten Stekelenburg tomava a posição no gol, ganhando o posto do experiente sul-africano Hans Vonk. Hatem Trabelsi e Zdenek Grygera eram os mais rodados da defesa, que também via a ascensão de Thomas Vermaelen e Johnny Heitinga. Maxwell aparecia entre as opções, mas deixou o clube em janeiro, rumo à Internazionale.

Os maiores talentos estavam no meio. Olaf Lindenbergh e Tomás Galásek ofereciam tarimba ao setor, que tinha também Nigel De Jong, Urby Emanuelson, Hedwiges Maduro, Nourdin Boukhari e Mauro Rosales. A camisa 18 recaía sobre as costas de Wesley Sneijder, maestro da equipe e herói com seus gols derradeiros contra o Brondby. Já no ataque, o leque de opções incluía, além do citado Rosenberg, prodígios como Ryan Babel (já nome frequente no time aos 18 anos) e Steven Pienaar. A Euro 2004 repercutia em Amsterdã, com os centroavantes Giannis Anastasiou e Angelos Charisteas. E os Godenzonen investiram mais no setor, tirando Klaas-Jan Huntelaar do Heerenveen em janeiro. Por fim, o comando técnico ficava a cargo de Danny Blind, antigo ídolo do clube que assumira as rédeas em março de 2005, após alguns anos treinando os juniores.

A estreia do Ajax aconteceu fora de casa, visitando o Sparta Praga na República Tcheca – velhos conhecidos a Grygera e Galásek, duas referências daquela equipe alvirrubra. E o resultado não foi ruim aos visitantes. Escalando Michal Kadlec e Karel Poborsky naquela noite, o Sparta abriu o placar com Miroslav Matusovic. Já aos 45 do segundo tempo, aconteceu o gol que valeu o empate por 1 a 1, obra de Sneijder em um belíssimo chute de fora da área. Na rodada seguinte, a estreia em Amsterdã, logo encarando o Arsenal. Os anfitriões não foram páreos ao esquadrão de Arsène Wenger, mesmo que nem todos os seus astros estivessem presentes. Freddie Ljunberg anotou o primeiro e Robert Pirès ampliou, antes que Rosenberg descontasse na derrota por 2 a 1.

A reação do Ajax começou a partir da terceira rodada, quando o time recebeu o Thun em Amsterdã. Anastasiou anotou ambos os gols da noite, assegurando a vitória por 2 a 0. E no reencontro na Suíça, mais um triunfo dos Godenzonen, desta vez por 4 a 2. Não foi uma partida fácil no Stade de Suisse. Sneijder abriu o placar, antes que Mauro Lustrinelli empatasse. Anastasiou voltou a botar os holandeses em vantagem, novamente igualados quando o rodado Adriano Pimenta apareceu. Os gols decisivos só saíram nos acréscimos do segundo tempo. De Jong fez o terceiro ao encher o pé de fora da área e Boukhari completou a festa, a partir de um belo passe de calcanhar de Pienaar. Com sete pontos, os Ajacieden se aproximavam da classificação, enquanto o Arsenal deslanchava.

Na penúltima rodada, a Amsterdam Arena se encheu com 46 mil torcedores, para o segundo jogo contra o Sparta Praga. Os gols saíram apenas no segundo tempo, mas a vitória por 2 a 1 já se tornou suficiente para carimbar a vaga nas oitavas. O herói da noite foi Nigel de Jong, autor de ambos os tentos, antes que Martin Petras descontasse no final. Enfim, com o Arsenal já garantido em primeiro, os dois times cumpriram tabela com o empate por 0 a 0 em Londres. Thierry Henry chegou a desperdiçar um pênalti na ocasião.

O sorteio das oitavas de final guardou uma pedreira ao Ajax: a Internazionale, que ganhara dos holandeses três anos antes e possuía uma equipe muito forte, mesmo que atravessasse o seu jejum na Serie A. Que Huntelaar já reforçasse os Godenzonen naquele momento, o desafio ante o time de Roberto Mancini era enorme. A espinha dorsal possuía astros como Javier Zanetti, Esteban Cambiasso, Dejan Stankovic, Juan Sebastián Verón, Luis Figo, Adriano, Walter Samuel e Francesco Toldo. Pior, os Ajacieden precisariam se virar sem Wesley Sneijder, que se lesionou no início de fevereiro de 2006 e ficou indisponível para ambos os compromissos.

O primeiro jogo aconteceu na Amsterdam Arena. E o Ajax ficou muito próximo de uma façanha. Pressionando, abriu o placar aos 16 minutos. Rosales deu um cruzamento cheio de estilo para Huntelaar concluir de cabeça. E quatro minutos depois, o próprio Rosales ampliou. Aproveitou um cruzamento rasante de Emanuelson para vencer Toldo, em chute que ainda desviou na marcação. O problema é que a vantagem dos holandeses ruiu no segundo tempo. Dejan Stankovic descontou em uma boa jogada aos quatro minutos, em que entortou a marcação e contou com o arremate prensado para anotar. Já o amargo empate saiu aos 41. Luis Figo deu uma enfiada na medida para Cambiasso, que se infiltrava na área. O argentino tocou de primeira e Julio Cruz não teve problemas para escorar. O  2 a 2 no marcador cobrava uma vitória dos Ajacieden na visita à Itália.

Pois dentro do San Siro, o Ajax não conseguiu o resultado que precisava. Antes do jogo, aconteceu uma homenagem bacana aos antigos ídolos nerazzurri. Em celebração ao bicampeonato continental na década de 1960, estiveram presentes lendas como Luis Suárez Miramontes, Sandro Mazzola e Jair da Costa. Johan Cruyff também recebeu o seu tributo. Quando a bola rolou, a Inter tomou conta do jogo, liderada por Figo. Obafemi Martins carimbou o travessão e Adriano desperdiçou um pênalti. Assim, o gol da vitória por 1 a 0 aconteceu no início do segundo tempo, graças a uma jogadaça de Stankovic. O sérvio fintou Maduro e acertou um lindo chute cruzado na gaveta de Stekelenburg. Fim da linha para os Ajacieden, que terminaram na modesta quarta colocação na edição da Eredivisie. Os interistas sucumbiriam na fase seguinte, ante o Villarreal.

Depois desta campanha, o Ajax sofreria um desmanche e uma crise significativa. Caiu duas vezes nas preliminares da Champions, para Copenhague (2006/07) e Slavia Praga (2007/08), até voltar à fase de grupos apenas em 2010/11. Foram cinco eliminações seguidas na etapa principal da Champions, com lampejos de glória limitados a uma vitória sobre o Milan e outra sobre o Barcelona. Já nas últimas três edições do torneio, os Godenzonen sucumbiram nas preliminares. Tudo para que na atual campanha, numa chave de camisas pesadas, os holandeses voltassem a experimentar o gosto de disputar os mata-matas. Importante pela fortuna que se lucra, mas também pelos sonhos revividos.