Fase a fase, o Ajax vai estabelecendo marcos em sua campanha na Liga dos Campeões. Quando conquistou a classificação no Grupo E, encerrou um hiato de 12 anos sem marcar presença nos mata-matas. Pois o feito alcançado nesta terça-feira, com a goleada por 4 a 1 no Santiago Bernabéu, alonga um pouco mais esta história. Os Godenzonen não se colocavam entre os oito melhores do torneio continental desde 2002/03. Outros tempos da Champions, quando ainda existiam duas fases de grupos e apenas oito sobreviventes avançavam às etapas eliminatórias. E outros tempos também aos Ajacieden, donos de um time que deixou suas marcas na Johan Cruijff Arena.

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Em 2002, as memórias dos sucessos do Ajax na Liga dos Campeões ainda eram recentes. Não fazia nem uma década que os holandeses haviam conquistado o título com o esquadrão de Louis van Gaal em 1995, além de terminarem com o vice em 1996. Todavia, os efeitos da Lei Bosman já eram implacáveis em Amsterdã. O clube tinha dificuldades para segurar os principais talentos e começava a conviver com os seguidos desmanches. Não à toa, isso impactou diretamente em seu desempenho. Após a queda nas semifinais da Champions 1996/97, o time perdeu força no Campeonato Holandês e disputou apenas uma das quatro edições seguintes da competição continental. Foi em 1998/99, quando sequer passou da fase de grupos. Nas outras três temporadas ao longo deste intervalo, acumulou campanhas mornas na Copa da Uefa, sem ultrapassar as quartas de final.

A virada aconteceu a partir de 2001/02, uma temporada especial ao Ajax. Os Godenzonen encerraram o jejum de três anos na Eredivisie e ainda por cima faturaram a dobradinha nacional, erguendo também a Copa da Holanda. Foram meses transformadores na Johan Cruijff Arena. Co Adriaanse começou a campanha à frente da equipe, mas não durou muito tempo no cargo. O clube caiu nas preliminares da Champions ao Celtic e também não resistiu ao Copenhague na segunda fase da Copa da Uefa. Como se não bastasse, o bom começo no Campeonato Holandês virou pó a partir de novembro. Os Ajacieden perderam o clássico para o PSV em Amsterdã e entregaram a liderança de bandeja aos Boeren. Foi a gota d’água para Adriaanse, substituído por Ronald Koeman em dezembro. O novato faria seu primeiro trabalho de peso como treinador.

Aposentado dos gramados em 1997, Koeman logo acumulou experiências com os principais técnicos da Holanda naquele período. Foi assistente de Guus Hiddink rumo à Copa de 1998, auxiliando principalmente os treinamentos defensivos. Depois, também passou um período como auxiliar de Louis van Gaal no Barcelona. Assumiu o Barça B e logo depois foi pinçado pelo Vitesse, levando os aurinegros a boas campanhas na Eredivisie. Assim, a ascensão meteórica acabava premiada pelo Ajax. Aquela versão inicial de Koeman como treinador estava mais ligada aos idealismos do futebol holandês do que exatamente a uma visão pragmática, evidente em seus últimos trabalhos. O jovem técnico de 38 anos preservava a influência de Johan Cruijff e Rinus Michels, comandantes de alguns de seus melhores momentos como atleta. E se tornou o homem certo para reerguer os Godenzonen.

Apesar de um início oscilante, o Ajax de Ronald Koeman pegou embalo na Eredivisie a partir do segundo turno e tomou a liderança na penúltima rodada. A sequência de seis vitórias nas seis rodadas finais concedeu uma vantagem de cinco pontos sobre o PSV no topo da tabela, garantindo o título. Já na Copa da Holanda, após despacharem os Boeren por 3 a 0 nas semifinais, os Ajacieden celebraram a conquista em cima do Utrecht, com a vitória por 3 a 2 garantida graças ao gol de ouro. Era a consagração de um elenco essencialmente jovem, recheado por jogadores moldados nas categorias de base e outros tantos trazidos de mercados alternativos. Entre os reforços daquela temporada estavam Zlatan Ibrahimovic, contratado a peso de ouro após estourar no Malmö; Mido, egípcio de 18 anos que deslanchava com o Gent; Hatem Trabelsi, destaque da seleção tunisiana que estava no Sfaxien; Steven Pienaar, pinçado na filial sul-africana do Ajax Cape Town; e Maxwell, que começava a se firmar como profissional no Cruzeiro.

A chave ao Ajax rumo a 2002/03 esteve justamente na manutenção. Ronald Koeman poderia realizar sua primeira campanha completa à frente da equipe, conduzindo o trabalho de preparação. Além disso, os destaques do time permaneceram em Amsterdã. Apesar das dificuldades financeiras encaradas pelos Godenzonen, após diminuírem seus lucros com as vendas de jogadores, a continuidade valeu demais aos resultados esportivos. Não apenas Ibra, Mido, Maxwell e Trabelsi puderam ganhar sequência na equipe. Outros jogadores atravessavam um bom momento, crias da casa ou não. A lista de talentos incluía ainda Cristian Chivu, Bodgan Lobont, Tomás Galásek, Andy van der Meyde e Marteen Stekelenburg. Rafael van der Vaart, aos 19 anos, se projetava como um dos melhores jovens do futebol europeu. E entre os acréscimos do elenco naquela temporada, além do retorno do ídolo Jari Litmanen, Koeman promoveu aos profissionais Wesley Sneijder.

Emendando bons resultados no primeiro turno do Campeonato Holandês, o Ajax encarou pedreiras desde a primeira fase de grupos da Champions 2002/03. Os Ajacieden foram sorteados em uma chave que contava com a Internazionale, em tempos de entressafra, mas de grande investimento; o Lyon, iniciando sua hegemonia na França; e o Rosenborg, que batia cartão nas competições continentais, também sustentando uma grande sequência de títulos na Noruega. Embora os holandeses tivessem a camisa mais pesada, não existiriam compromissos fáceis. E a classificação seria mesmo apertada.

O passo fundamental ao Ajax veio diante do Lyon. Os Godenzonen venceram os dois duelos contra os franceses e, por isso, avançaram na segunda colocação do Grupo D. A estreia em Amsterdã contou com um show de Ibra. O centroavante abriu o placar com uma pintura, entortando Edmílson antes de bater cruzado, e também anotou o segundo gol. Sonny Anderson até descontou com um golaço na etapa complementar, mas a vitória por 2 a 1 premiou os anfitriões. Depois, o time de Koeman perdeu para a Internazionale na visita a Milão, gol de Hernán Crespo no triunfo por 1 a 0, e empatou os dois compromissos seguintes contra o Rosenborg – 0 a 0 em Trondheim, antes do 1 a 1 na Holanda, com mais um tento de Ibra. A recuperação aconteceria em Gerland, de novo contra os Gones. Os Ajacieden venceram por 2 a 0, gols de Pienaar e Van der Vaart. Por fim, na rodada final, a derrota para a Inter por 2 a 1 não foi suficiente para derrubá-los na Johan Cruijff Arena. O Lyon só empatou com Rosenborg na Noruega e, com os mesmos oito pontos do Ajax, perdeu a vaga pela desvantagem no confronto direto.

A badalação em Amsterdã era grande naquele momento. O Ajax perdeu a invencibilidade e a liderança da Eredivisie com mais uma derrota para o PSV em casa, durante o final do primeiro turno, mas isso não abalava sua reputação. O futebol ofensivo e a habilidade de seus novos astros serviam de elo com as glórias da década de 1990. Além disso, o próprio Koeman era cotado a voos mais altos. Em janeiro, o Barcelona demitiu Louis van Gaal e tentou contratar justamente o antigo ídolo. Pois ele recusou a proposta, preferindo continuar sua jornada à frente dos Ajacieden. O bicampeonato holandês não aconteceu. Mesmo sofrendo apenas três derrotas ao longo da campanha, o time não conseguiu alcançar o PSV, que fechou a caminhada um ponto à frente. Ficaria marcado o papel digno na Champions, apesar de certas limitações.

A segunda fase de grupos proporcionou uma chave ainda mais difícil ao Ajax. Até pela falta de rodagem de sua equipe, os Godenzonen pareciam a quarta força naquele quadrangular. O Valencia vinha de duas finais continentais recentes, em trabalho espetacular de Rafa Benítez. A Roma não ficava atrás, comandada por Fabio Capello, duas temporadas após conquistar o Scudetto. E o Arsenal tinha levado a edição anterior da Premier League, com os Invincibles de Arsène Wenger tomando forma. Olhando apenas para os resultados, os oito pontos conquistados pelos holandeses naqueles seis jogos parecem uma marca ruim. Cabe dizer que eles foram os únicos a manter a invencibilidade, segurando cinco empates, para despachar ingleses e italianos. Neste momento, o trabalho defensivo seria mais importante que a qualidade do ataque.

A campanha naquela fase começou no Mestalla, diante do Valencia de Albelda, Baraja, Vicente e grande elenco. Empate por 1 a 1, definido apenas no apagar das luzes. O Ajax abriu o placar aos 44 do segundo tempo. Passe primoroso de Van der Vaart para Ibrahimovic, que fintou Cañizares e bateu ao gol aberto. Mas em um final do jogo corrido, lá e cá, Angulo conseguiu igualar aos Ches. Ainda em dezembro, aconteceu a única vitória. Os Godenzonen bateram a Roma por 2 a 1, em Amsterdã. Capello apostou em uma formação mais defensiva, mesmo com Cassano e Totti no comando de seu ataque. Com os anfitriões impulsionados pela atmosfera fantástica de sua torcida, Ibra inaugurou o marcador aos 11 minutos, aproveitando um rebote bobo do goleiro Antonioli. No segundo tempo, Litmanen ampliou com um lindo tiro colocado de fora da área. Os romanistas tentaram partir para cima, com as entradas de Montella e Batistuta. Stekelenburg conteria a pressão e Batigol só descontou nos minutos finais.

Em fevereiro, o Ajax viajou até Londres e encarou o Arsenal em Highbury. Um reencontro especial com o antigo ídolo Dennis Bergkamp, encabeçando o esquadrão de Henry, Vieira, Pirès e outros craques. O veterano parecia pronto a cometer o crime, dando o passe para Sylvain Wiltord abrir o placar logo aos cinco minutos. Contudo, aos 17, o empate saiu graças a Nigel de Jong – outro promovido da base por Koeman. O volante se aproveitou do vacilo de Ashley Cole para arrematar na saída de Seaman. Em Amsterdã, holandeses e ingleses não saíram do 0 a 0, antes de novo empate por 1 a 1 contra o Valencia. Kily González abriu o placar cobrando pênalti, até que o finlandês Petri Pasanen aproveitasse o cruzamento de Maxwell para empatar.

Por fim, o reencontro do Ajax com a Roma na Itália. Os Godenzonen entravam na última rodada dependendo apenas de si, dividindo a zona de classificação com o Arsenal, ambos com sete pontos. Independentemente do que acontecesse no Mestalla, onde o Valencia recebia os ingleses, um empate no Estádio Olímpico bastava aos holandeses. O que ocorreu, em outro 1 a 1. Van der Meyde acertou um chutaço para abrir o placar logo no primeiro minuto e, sem Totti ou Batistuta, os romanistas igualaram com Cassano. Somando oito pontos, os Ajacieden passaram com a segunda colocação, ultrapassados na tabela pelos Ches – que se garantiram com o triunfo por 2 a 1 sobre os Gunners. Mas em tempos nos quais qualquer cruzamento nos mata-matas representava uma pedreira, encerar o Milan de Carlo Ancelotti era um dos maiores desafios possíveis.

O Ajax tinha alguns desfalques sentidos para aquela primeira partida. Van der Meyde estava suspenso, enquanto Mido havia deixado o clube semanas antes por entrar em rota de colisão com Koeman. Ainda assim, um time interessante foi escalado, com: Lobont, Trabelsi, Chivu, Pasanen, Maxwell; Galásek, O’Brien, Van der Vaart; Abubakari Yakubu, Ibrahimovic e Pienaar. O problema era medir forças com um Milan recheado de lendas, de Dida a Shevchenko, passando por Nesta, Maldini, Costacurta, Rui Costa, Gattuso, Seedorf e Inzaghi. E o timaço rossonero poderia ter saído com o saldo melhor já em Amsterdã. O empate por 0 a 0 prevaleceu na Johan Cruijff Arena, com os italianos forçando boas defesas de Lobont. Apesar do toque de bola e do domínio durante a maior parte do tempo, os Godenzonen não conseguiram criar grandes perigos para romper a linha de zaga milanista.

O cenário permanecia aberto para o reencontro três semanas depois, no San Siro. Os dois gigantes proporcionaram um jogaço, decidido apenas no apagar das luzes, com a vitória dos anfitriões por 3 a 2. O Milan tinha seus entraves. Seedorf se lesionou em Amsterdã, enquanto Gattuso acabou suspenso pelo acúmulo de cartões amarelos. Deixavam um rombo no meio-campo, também sem Pirlo, outro contundido. E se o Ajax perdera a proteção de Galásek no meio, mais um no departamento médico, contou com a volta de Van der Meyde e também a incursão de Sneijder, ganhando uma chance como titular diante da ausência de Van der Vaart. Só que o primeiro tempo pendeu aos rossoneri, criando melhores ocasiões e abrindo o placar. Shevchenko arrancou pela direita e o cruzamento desviado sobrou para Inzaghi concluir de cabeça, sem dar qualquer chance de defesa para Lobont.

Na volta do intervalo, Koeman logo mandou o seu time para frente. Tirou Jelle van Damme da defesa e mandou Litmanen para o setor ofensivo. Uma aposta que logo se pagou. Aos 18 minutos, aconteceu o empate do Ajax. Van der Meyde deu o cruzamento açucarado e o finlandês precisou apenas escorar na pequena área. Dois minutos depois, o Milan respondeu e retomou a vantagem. Em lance brigado por Inzaghi, a bola sobrou para Sheva cumprimentar de cabeça. Mas não que os Godenzonen tenham se entregado. Aos 33, eles empataram novamente e iam ficando com a classificação. Mais um lance pela esquerda com Van der Meyde, que cruzou para Ibra ajeitar de cabeça. Na sequência, Pienaar teve que se enroscar com dois marcadores e, mesmo caído, superou Dida.

O desfecho da partida só se deu quando Ancelotti mandou seu time para frente. Trocou Kaladze por Rivaldo e incluiu mais um homem de área com Tomasson, substituindo Simic. Justamente o antigo ídolo do Feyenoord seria o carrasco dos Ajacieden. Em um chutão para frente, Brocchi deu a casquinha de cabeça. Inzaghi ficou de frente para Lobont e chutou por cima do goleiro. Então, Tomasson apareceu quase em cima da linha para concluir às redes. O relógio acabava de ultrapassar os 45 minutos e não daria mais tempo a outra reação dos holandeses. Teriam que aceitar a eliminação amarga, diante dos futuros campeões continentais naquela temporada. Apesar do excesso de empates e das míseras três vitórias naquela campanha, ainda assim o Ajax saiu com o moral alto por sua jornada europeia.

O desmanche seria significativo já na temporada seguinte. O capitão Chivu saiu para a Roma, enquanto Van der Meyde assinou com a Internazionale. Mido também não ficou após voltar de empréstimo ao Celta, assinando com o Olympique de Marseille. A espinha dorsal remanescente ainda levou o Ajax ao título da Eredivisie, apesar da eliminação logo na primeira fase da Champions. E o time continuou se desfazendo em 2004/05, não apenas com a venda de Ibrahimovic à Juventus, mas também com as despedidas de Litmanen e Koeman. Enquanto o veterano voltou para a Finlândia, pronto para pendurar as chuteiras, o treinador acumulou conflitos internos e saiu antes mesmo do final da temporada. A dignidade na Liga dos Campeões só seria recuperada em 2005/06, sob o comando de Danny Blind, promovido da base para o elenco principal. Aproveitando parte dos jovens lapidados por Koeman (como Sneijder, De Jong, Stekelenburg, Heitinga e Pienaar), conduziria os Ajacieden até as oitavas, caindo para a Internazionale. O último elo até que a história fosse reescrita por Erik ten Hag e seus garotos.