De Ademir da Guia a Zózimo, passando por Arturzinho, Cláudio Adão, Domingos da Guia, Fausto, Fidélis, Marinho, Mauro Galvão, Paulo Borges, Ubirajara e o mestre Zizinho. O Bangu por muito tempo foi casa de grandes jogadores, de grandes histórias. Sim, teve o dinheiro de Castor de Andrade para sonhar com a taça do Campeonato Brasileiro. Mas também contou com o pioneirismo de Thomas Donohoe para introduzir o futebol no Rio de Janeiro, com a ousadia na época para abrir as portas aos jogadores negros, com o senso de oportunidade para conquistar o primeiro título do profissionalismo em 1933, com o sucesso silencioso da campanha de 1966. O Bangu sempre terá seu lugar especial no passado do futebol brasileiro. E, de certa forma, também no folclore.

Nas últimas décadas, as glórias se tornaram apenas item de museu ao Bangu. Mas ainda é possível apostar na camisa, na tradição. E também no folclore. Assim, os alvirrubros voltaram ao noticiário nesta terça-feira: apresentaram Loco Abreu como principal reforço para o Campeonato Carioca. Falam em um projeto de “voltar a se grande”, quando todos sabem que uma campanha digna será mais que o suficiente para o orgulho. Pela nostalgia, a gente deixa se levar pela conversa. Pelo desejo de relembrar tantos outros capítulos verdadeiramente grandiosos vividos em Moça Bonita. Foi bem bacana ver a festa toda que a torcida fez no estádio e a emoção de alguns dos fanáticos mais antigos.

Loco Abreu no Bangu é o carisma unido ao carisma. E fica difícil de torcer contra, diante dos elementos que se apresentam. São as listras que trazem à mente as lembranças daquilo que os alvirrubros já foram. É um personagem que faz bem ao futebol, mesmo que os 40 anos nas costas pesem contra. Ainda assim, o centroavante continua aprontando das suas e está em forma. A ponto de ser o herói do título do Santa Tecla no Campeonato Salvadorenho, anotando dois gols nos minutos finais para concretizar a virada sobre o tradicional Alianza. O nível na América Central não é dos melhores, mas deve permitir seus lampejos no Cariocão.

Porém, acima daquilo que representa em campo, Abreu é um ótimo reforço para o lado de fora do Campeonato Carioca. Embora tenha uma forte história com o Botafogo, consegue ser querido pela maioria dos torcedores rivais. Ganha os outros pela paixão que demonstra pela camisa, independente de ser um “trotamundo”. E que possui uma inteligência acima da média para lidar com a imprensa. As mostras disso vieram logo em sua apresentação. Ao ser perguntado sobre ‘qual a sensação de chegar ao Bangu’, o artilheiro foi implacável: “De 50 graus”. Assim seguiu em boa parte de suas respostas, elogiando o futebol brasileiro, mas também o clima extracampo que se vive no futebol do Rio de Janeiro. Ele contribui mais para isso.

Se o nível técnico dos estaduais não significa muito aos principais clubes do país, resta olhar para as boas histórias que eles guardam. A representatividade que ainda têm aos pequenos. A chance que oferece para um lugar ao sol. Neste sentido, é que o Bangu espera voltar às manchetes. E, indo além do futebol que se joga em campo, o acréscimo de Loco Abreu é dos melhores que poderiam acontecer.