Nos últimos dias, um imbróglio diplomático se desdobrou pela Europa. Um ex-espião russo e sua filha foram envenenados durante um almoço no sudeste da Inglaterra, onde o antigo agente morava. Ex-militar e ex-funcionário da inteligência russa, Sergei Skripal havia sido condenado em 2006 por seu país, ao passar informações confidenciais à inteligência britânica. Quatro anos depois, ele foi enviado ao Reino Unido, em troca de espiões entre as nações. Agora, o ataque ao homem de 66 anos (internado em estado grave) gerou uma retaliação imediata do governo britânico. Ao todo, 23 diplomatas russos foram expulsos do território britânico e a primeira-ministra Theresa May afirmou que é “altamente provável” o envolvimento do Kremlin no envenenamento. Já em Moscou, o porta-voz do governo de Vladimir Putin diz que as acusações “chocantes e imperdoáveis”, indicando retaliações. Em meio ao fogo cruzado, entra o futebol.

Alguns políticos britânicos passaram a considerar a possibilidade de um boicote à Copa do Mundo de 2018. “A participação da Inglaterra na Copa do Mundo deveria estar em discussão. Esse é um passo a se dar com cuidado”, declarou John Woodcock, parlamentar e membro do comitê de relações exteriores do Partido Trabalhista, à BBC. Em compensação, o secretário de relações exteriores do governo, Boris Johnson, garantiu que o boicote é improvável. “No momento, o plano é que a Inglaterra vá à Copa. A Rússia é um grande país, não quero ver um surto de ‘russofobia’. Nossa querela é com Kremlin e Putin”, declarou. Ainda assim, o governo lançou um aviso aos turistas em viagem à Rússia, recomendando que “evitem comentar publicamente os desenvolvimentos políticos”, diante de um possível sentimento “anti-britânico”.

A Football Association não se manifestou sobre o caso. Já o técnico Gareth Southgate afastou qualquer alarmismo: “Não estou particularmente preocupado. Estou ciente da dinâmica do que está acontecendo, mas estive em países nos quais fui avisado sobre onde andar e, dois dias depois, acabei transitando pelas ruas. Ou você vive com medo ou lida com as coisas. Todos os países têm áreas difíceis e lugares onde você se sente muito livre. É um assunto sério e está evoluindo rápido, mas meu papel como técnico é me concentrar no futebol. Em última instância, a decisão será tomada pela FA em conjunto com o governo. A única coisa de maior importância neste momento é a segurança de nossos jogadores e dos torcedores, o que está fora do meu alcance. Estamos ansiosos para ir à Copa”.

Os outros riscos de boicote no Reino Unido

Não seria a primeira vez que a Inglaterra consideraria um boicote à Copa do Mundo. Em 1982, a possibilidade foi levantada internamente pelo governo britânico. O Reino Unido era representando no Mundial por Inglaterra, Escócia e Irlanda do Norte. Para evitar um possível encontro com a Argentina, em meio à Guerra das Malvinas, o debate se estendeu nos corredores do governo. Membros do gabinete de Margaret Thatcher temiam que o duelo de uma das seleções com os argentinos descambasse à pancadaria entre torcedores. O Ministro dos Esportes da época, contudo, decidiu que o governo “não tinha poderes para impedir contatos esportivos”, mas afirmou que as autoridades esportivas indicaram que seguiriam um boicote ordenado pelo governo. Ao final, a guerra acabou justo no dia da abertura do Mundial e a Albiceleste não enfrentou qualquer britânico.

Já em 1990, por outros motivos, a pauta voltou à mesa. A desistência não seria exatamente um boicote, mas um temor pelas consequências do hooliganismo. Meses depois do Desastre de Hillsborough, o então vice-primeiro-ministro britânico, Geoffrey Howe, discutiu a possibilidade com o comitê de governo. “A Copa do Mundo promove um foco natural para a atividade dos hooligans e cada partida tem potencial para confrontos”, apontou, em carta enviada à primeira-ministra Margaret Thatcher. A tragédia levou o cancelamento de amistosos contra Escócia e Holanda. Ainda assim, os ingleses viajaram ao Mundial da Itália, juntamente com os escoceses.

O caso sombrio de Arsenal x CSKA Moscou

E enquanto há muita água para rolar sob a ponte até a Copa do Mundo, existe uma preocupação anterior. Arsenal e CSKA Moscou foram sorteados nas quartas de final da Liga Europa. Sem dúvidas, um jogo para se prestar atenção no comportamento dos ultras, diante do histórico de embates entre ingleses e russos – sobretudo após o que aconteceu na Euro 2016, com diversos enfrentamentos. O pano de fundo político pode aumentar ainda mais as tensões. De certa forma, servirá de “prévia” aos riscos de junho.

Curiosamente, no único encontro de Arsenal e CSKA Moscou por competições europeias, existiu um enredo muitíssimo parecido com o atual – de espionagem e envenenamento. Ex-espião russo, Alexander Litvinenko fugiu ao Reino Unido e se tornou um forte crítico do Kremlin, com uma série de acusações sobre crimes cometidos pelo governo. Em 3 novembro de 2006, Litvinenko deu entrada em um hospital londrino por envenenamento e faleceu 20 dias depois. Autoridades britânicas encontraram traços da substância usada para matá-lo, o polônio-210, inclusive no Estádio Emirates. Em 1° de novembro, aconteceu o jogo entre Arsenal e CSKA pela fase de grupos da Champions.

Os rastros do isótopo indicariam a presença do assassino no estádio. Principal suspeito, o ex-agente Andrey Lugovoy esteve nas arquibancadas com sua família, poucas horas depois de se encontrar com Litvinenko em um hotel. Durante as investigações, em 2007, o governo britânico solicitou a extradição de Lugovoy, não atendida pelo Kremlin. O relatório do inquérito, publicado apenas em 2016, concluiu que dois agentes russos (entre eles Lugovoy) mataram Litvinenko envenenado, “com uma forte probabilidade” de estarem agindo a mando do serviço secreto russo. O então premier David Cameron condenou publicamente Vladimir Putin por ter “patrocinado o assassinato”. Por outro lado, o presidente russo tratou o caso como uma “piada”.

Nos últimos dias, a esposa de Litvinenko voltou a público, afirmando que a inteligência britânica “não aprendeu a lição” após a morte de seu marido, diante do que aconteceu com Sergey Skripal. E justamente quando o episódio é lembrado, Arsenal e CSKA se reencontram nas quatro linhas. Sem dúvidas, será um jogo marcante, independentemente do futebol.