Como a Bíblia explica a volta de Fernando Torres ao Atlético de Madrid

A volta de Fernando Torres ao Atlético de Madrid é como a história do filho pródigo. Esqueça tudo que deu errado: é hora de abraçar o ídolo

Uma das histórias mais famosas da Bíblia é a parábola do filho pródigo. Ouvimos muito, ainda mais em uma época de festas e muitas reuniões familiares, como essa. Quando surge uma transferência como a confirmada nesta segunda pelo clube, do retorno de Fernando Torres ao Atlético de Madrid, seu time de formação, depois de tudo que viveu no exterior, é fácil relacionar com a famosa história contada por Jesus. O contrato de Torres com o Chelsea foi encerrado e ele assinou com o Milan, que o emprestará ao Atlético de Madrid até o final da próxima temporada, 2015/16. Como a história do filho pródigo é muito falada, vamos lembrar como ela é contada na Bíblia antes de falarmos mais sobre Torres:

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Continuou: Certo homem tinha dois filhos; o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me cabe. E ele lhes repartiu os haveres. Passados não muitos dias, o filho mais moço, ajuntando tudo o que era seu, partiu para uma terra distante e lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente. Depois de ter consumido tudo, sobreveio àquele país uma grande fome, e ele começou a passar necessidade.  Então, ele foi e se agregou a um dos cidadãos daquela terra, e este o mandou para os seus campos a guardar porcos. Ali, desejava ele fartar-se das alfarrobas que os porcos comiam; mas ninguém lhe dava nada. Então, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores.

E, levantando-se, foi para seu pai. Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou. E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho.

O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, vesti-o, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; Trazei também e matai o novilho cevado. Comamos e regozijemo-nos,  porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar-se.

Ora, o filho mais velho estivera no campo; e, quando voltava, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos criados e perguntou-lhe que era aquilo. E ele informou: Veio teu irmão, e teu pai mandou matar o novilho cevado, porque o recuperou com saúde. Ele se indignou e não queria entrar; saindo, porém, o pai, procurava conciliá-lo.

Mas ele respondeu a seu pai: Há tantos anos que te sirvo sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito sequer para alegrar-me com os meus amigos;  vindo, porém, esse teu filho, que desperdiçou os teus bens com meretrizes, tu mandaste matar para ele o novilho cevado.

Então, lhe respondeu o pai: Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que é meu é teu. Entretanto, era preciso que nos regozijássemos e nos alegrássemos, porque esse teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado.

(Lucas, capítulo 15, versículos 11 a 32)

Fernando Torres tem 30 anos e viveu grandes momentos na carreira. Subiu ao profissional do Atlético de Madrid aos 17 anos, em 2001, quando o time estava na segunda divisão. Se tornou artilheiro, ídolo e referência de um time. Quando deixou a equipe, em 2007, era o principal jogador do Atléti e o capitão do time, mesmo tendo só 23 anos. Rapidamente, “El Niño” se tornou também ídolo em Anfield Road, vestindo a camisa do Liverpool. O sucesso do tamanho que despertou os olhos gulosos do bilionário Chelsea. Os Blues pagaram £ 50 milhões (algo em torno de € 58 milhões) para tirar o jogador espanhol do nordeste inglês e levá-lo à capital.

Em sua chegada ao time azul, Torres acabou sendo herege. Disse, em entrevista ao canal de TV do Chelsea, em sua primeira entrevista como jogador do clube, que estava feliz por finalmente jogar em um time grande. Alguém mais supersticioso (ou mais religioso, vai saber) talvez achasse que essa combinação de ganância, inveja e heresia não daria certo.

Bom, pode não ter sido por isso, mas o fato é que Torres se tornou uma piada no Chelsea. Demorou uma infinidade de jogos para conseguir marcar o seu primeiro gol pelo clube – foram 10, na verdade, sendo preciso. Sua transferência se consolidou no último dia do mercado de inverno europeu de 2011, no dia 31 de janeiro. Seu primeiro jogo foi justamente contra o ex-clube, seis dias depois, no dia 6 de fevereiro. Não marcou. Demoraria outros nove jogos até balançar as redes contra o West Ham, no dia 23 de abril. Foram 77 dias. Seria só o começo do calvário do atacante.

Foram 172 jogos pelo Chelsea, com 45 gols marcados. Uma média muito abaixo do que conseguiu nos seus dois clubes anteriores. Desses 45 gols, só 20 foram na Premier League, onde mais se esperava dele. Apesar dos títulos da Copa da Inglaterra, Liga Europa e Champions League, a decepção foi grande, especialmente por sua comparação com os tempos de Liverpool. Pelos Reds, foram 65 gols só na Premier League. A ida para o Milan, no começo desta temporada, não teve nada de surpreendente. O seu desempenho nada empolgante no time italiano também não surpreendeu. As especulações sobre a sua saída logo surgiram e o Atlético, que já tinha especulado a sua contratação no começo da temporada, acabou acertando a volta do jogador à capital espanhola.

O Fernando Torres que volta aos Colchoneros não é motivo para grandes comemorações por parte dos torcedores. Mas o futebol, assim como as relações familiares, não são regidas pela racionalidade, por dados estatísticos e por boas ações. Futebol, assim como o amor, leva em conta muito, muito mais do que isso. A relação do torcedor com o clube não é de cliente e fornecedor. É de amor. Paixão. Não importa o quanto o time esteja mal, o quanto o atacante perca gols, o quanto o técnico insista naquele pereba que a gente sabe que nunca dará em nada, ou aquele dirigente que insiste em corrupção e esquemas que te envergonham como torcedor. O torcedor é amor e amor é maior do que tudo isso. É por esse prisma que temos que olhar a volta de Torres.

Em 244 jogos, foram 91 gols. Esses são os números de Fernando Torres pelo Atlético de Madrid. Outro número que deve gerar curiosidade é o da camisa. Torres se acostumou a ser o camisa 9. Era o 9 quando surgiu no Atlético, foi o 9 do Liverpool, do Chelsea, do Milan. Só que o 9 do Atlético, atualmente, é Mario Manduzkic, contratado justamente para essa posição, centroavante, e que tem correspondido.

O croata custou € 22 milhões, veio do Bayern de Munique e assinou contrato até 2018. É dois anos mais novo que Torres, com 28 anos, e marcou 14 gols em 22 jogos. Uma ótima média. Ele é o dono da camisa 9 e não é possível mudar a numeração do time no meio da temporada. Isso tudo tem ainda um fator simbólico: não dá para tirar a camisa 9 de Mandzukic, como não parece possível tirá-lo do time para a volta do ídolo, que deve voltar no banco. Qual será a camisa que Torres vestirá?

Na Espanha, os clubes são obrigados a inscrever os jogadores em números sequenciais de 1 a 25 para o elenco principal. Números acima de 25 só para os jogadores das canteras, as categorias de base. Dos números do elenco principal, o 12 e o 25 estão livres. É possível que Torres vista um desses. Ao menos até maio, quando esta temporada termina. Depois, pode ser que Mandzukic ceda a camisa 9 para o Niño e vista o 17, seu número preferido quando ele atua na seleção croata. Por que não?

Torres volta ao Atlético em busca da felicidade perdida no caminho. Como o filho pródigo, volta com a humildade de querer ser apenas um dos trabalhadores. Há mais do que uma história, há uma relação pessoal. Diego Simeone, o técnico que vem fazendo um trabalho fantástico, conhece bem Torres. Jogou com ele, em sua segunda passagem pelo clube espanhol, já no fim de carreira. Queria a contratação de Torres antes. Com um técnico tão acostumado a tirar o máximo dos jogadores, que tem o sangue quente correndo nas veias, não será de se estranhar se o Torres que virmos no Atlético for mais próximo daquele do começo de carreira do que daquele que vimos nos quatro anos de Chelsea e nos seis meses de Milan.

Como o amor de quem vive futebol é muito maior que qualquer estatística e supera todos os retrospectos, essa é a esperança dos torcedores. Torcedores, aliás, que devem ter paciência e carinho de sobra para Torres. É de casa. É da família. E o filho pródigo se recebe com festa, não com desconfiança. No dia 5 de janeiro, Fernando Torres será apresentado no estádio Vicente Calderón, diante de uma torcida apaixonada. Esqueça a piada: para os Colchoneros, Torres é El Niño, o filho pródigo.

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