O ano de 2016 marcou o reconhecimento que se esperava há tempos. Desde o início da década, o Atlético Nacional se colocou como um dos melhores clubes da América do Sul. Os verdolagas conquistaram cinco títulos do Campeonato Colombiano e três da Copa da Colômbia a partir de 2011, um sucesso que não viveram nem nos fartos anos 1990, e que os transformou nos maiores campeões nacionais. Faltava apenas uma taça internacional para ratificar tamanha dominância. A Copa Libertadores estava presa na garganta, depois de três eliminações, enquanto o vice da Copa Sul-Americana em 2014 também deixou um gosto amargo. Até que a glória do time de Reinaldo Rueda se tornasse inquestionável, com o seu segundo título da Libertadores em 2016, além da campanha até a final da Sul-Americana.

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A presença no Mundial de Clubes é apenas a cereja do bolo, de todo um processo de reformulação do Atlético Nacional. Uma longa caminhada que foi colhendo frutos até chegar o topo. E os méritos dos paisas abrangem diferentes aspectos. Vão desde a montagem do elenco à escolha de seus treinadores, passando também por aquilo que se faz nos bastidores, com uma gestão altamente competente.

Acusado de se beneficiar do Cartel de Medellín, o Atlético Nacional se desvencilhou desta imagem a partir dos anos 1990. A modernização do clube começa em 1996, quando foi adquirido pela Organização Ardila Lülle, de Carlos Ardila Lülle, um dos homens mais ricos da Colômbia e dono de um conglomerado que inclui a marca de refrigerantes Postobón. Neste sentido, os verdolagas deram passos a frente de seus concorrentes em termos de gestão profissional. A estabilidade financeira, entretanto, não necessariamente era garantia de títulos. E um homem fundamental nesta nova fase é Juan Carlos de la Cuesta, escolhido presidente pelo conselho executivo depois que Victor Marulanda renunciou ao cargo.

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De la Cuesta assumiu o comando sem necessariamente possuir grande experiência no futebol. Então com 36 anos, o executivo era empregado da Postobón, antes de se tornar gerente administrativo e financeiro do Atlético Nacional no início de 2010. Em março, a presidência lhe caiu no colo. E a visão trazida pelo novo mandatário foi importante para a ascensão dos verdolagas. Um dos pilares do trabalho veio com a aproximação aos torcedores e a busca por possibilidades comerciais. As receitas cresceram de US$ 8 milhões para US$ 25 milhões anuais desde então. Já esportivamente, os paisas passaram a investir mais na observação de jogadores, buscando também técnicos com perfis específicos, voltados a uma filosofia de jogo mais dinâmica.

sachi

A primeira grande aposta do presidente foi Santiago Escobar. Depois que o clube fez apenas figuração no Campeonato Colombiano em 2010, o treinador chegou para o ano seguinte. Um personagem identificadíssimo com a história e a identidade verdolaga. Irmão de Andrés Escobar, Sachi foi meio-campista do clube durante os anos 1980. Começou a carreira como técnico logo após pendurar as chuteiras e já tinha uma passagem vitoriosa pelo Atlético Nacional em 2005, conquistando o Apertura. Voltou para ser campeão mais uma vez.

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O aporte financeiro durante a segunda passagem de Escobar pelo banco de reservas era grande. Segundo o presidente De la Cuesta, aquele ano de 2011 foi o último que a Organização Ardila Lülle injetou seu próprio dinheiro no Atlético Nacional. Resultou na conquista do Apertura em 2011, valendo vaga na Copa Libertadores do ano seguinte. Entretanto, o time de Sachi caiu de rendimento. Fez campanhas medíocres no Clausura 2011 e no Apertura 2012. A ponto de causar a demissão do técnico, mesmo depois de classificar os verdolagas às oitavas de final da Libertadores, com grandes atuações na fase de grupos. A saída afetou o time, eliminado pelo Vélez. Em compensação, o erro pela turbulência desnecessária naquele momento permitiu também um acerto ao futuro.

O Atlético Nacional contratou Juan Carlos Osório para substituir Sachi Escobar. O “professor” já era sonho antigo dos verdolagas, sondado quando o ex-jogador acabou escolhido como novo treinador. Veio endossado pela diretoria. “Ele foi contratado pela experiência esportiva que tem, sua parte humana e, obviamente, a sua formação. Ele trabalhou com equipes de alto desempenho e, por isso, nos pode dar uma mão aqui. Antes de ganhar títulos, que é o importante, o objetivo é recuperar um estilo futebolístico atraente, que você goste de ver e seja eficaz”, comentou De la Cuesta, na época da apresentação do técnico, em maio de 2012.

ATLÉTICO NACIONAL VS DEPORTIVO CALI.

A verdadeira revolução do Atlético Nacional em campo começou a partir daquele momento. Osório possuía experiência nos Estados Unidos e em alguns clubes colombianos, como Once Caldas e Millonarios. Por quatro anos, atuou como assistente do Manchester City, mas distante dos períodos endinheirados. O Atanásio Girardot era uma porta que se abria ao comandante. E com as melhores condições possíveis, diante da estabilidade econômica e da estrutura oferecida. Em junho de 2010, os verdolagas inauguraram o moderno CT de Guarne, um dos melhores do país. O profe usufruía de relativa paciência para executar suas ideias.

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Em pouco tempo, o Nacional se transformou em uma máquina ofensiva. Osório tinha total respaldo do clube para montar um elenco amplo, que permitisse as suas rotações. E implantava a sua filosofia de troca de passes e verticalidade. Em 2013, o primeiro ano de comemorações como o novo treinador, os paisas conquistaram tanto o Apertura quanto o Clausura. Exibiam um futebol vistoso e imparável. As fronteiras da Colômbia já se sugeriam como insuficientes para a grandeza daquele time.

Quando teve a oportunidade de se mostrar às Américas na Libertadores, todavia, o Atlético Nacional sucumbiu. Avançou em um grupo duríssimo, que tinha Grêmio, Newell’s Old Boys e Nacional de Montevidéu. Nas oitavas de final, conseguiu derrubar o atual campeão Atlético Mineiro. Mas terminou eliminado nas oitavas de final, em um duelo inacreditável contra o Defensor. Os colombianos massacraram durante boa parte dos 180 minutos. A bola custou a entrar, tanto pela competência defensiva dos oponentes quanto pela falta de sorte. Uma queda bastante dolorida, por tudo aquilo que a equipe jogava.

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Não foi a eliminação, ao menos, que esmoreceu o Atlético Nacional. Seis dias depois, o time se tornou tricampeão nacional, faturando o Apertura nos pênaltis contra o Junior de Barranquilla. Não conseguiu emendar mais uma taça, no Finalización, mas ao menos chegou à decisão da Copa Sul-Americana. Eliminou o São Paulo nas semifinais, derrotado na final pelo River Plate. Após o empate por 1 a 1 em Medellín, a vitória dos Millonarios no Monumental acabou sendo fatal. Neste momento, Osório já enfrentava seus atritos. E o momento de renovar o banco de reservas chegou após mais uma queda na Libertadores. Líderes de um grupo com Estudiantes, Libertad e Barcelona, os verdolagas derraparam outra vez nas oitavas, para o Emelec.

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A saída de Osório, no fim das contas, representou mais um aperfeiçoamento do Atlético Nacional. Reinaldo Rueda parecia mesmo uma contratação certeira. Tinha a experiência em seleções nacionais e uma visão que complementaria o que já estava sendo feito. Outro “professor”, estudioso e cuja rodagem só se complementou com as especializações que seguiu fazendo. O time não perdeu a ofensividade de Osório. E, mais do que isso, ele conseguiu oferecer uma consistência defensiva bem maior à equipe, assim como uma sequência maior aos jogadores. Se o sistema defensivo passou a contar com uma base mais definida, a linha de frente se adaptava ao adversário.

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Em seu primeiro campeonato com Rueda, o Atlético Nacional devastou o Finalización. Liderou a temporada regular, antes de superar Deportivo Cali, Independiente Medellín e Junior de Barranquilla nos mata-matas. Embalo capaz de levá-lo a reconquistar também a Libertadores, depois de 27 anos. Que se questione a arbitragem envolvendo os verdolagas, sobretudo na classificação diante do Huracán, nas oitavas de final, não dá para negar que eles exibiram o melhor futebol do torneio continental. Fizeram a melhor campanha da fase de grupos, superaram o épico contra o Rosario Central, amassaram o São Paulo. Até o sonho se concretizar em Medellín, diante do Independiente del Valle.

Desde janeiro, o desempenho do Nacional beira a perfeição. No Apertura do Colombiano, caiu apenas nos pênaltis para o Junior. Conquistou a Copa da Colômbia e chegou até as semifinais do Finalización – quando, por conta do calendário encavalado com a viagem ao Mundial de Clubes, precisou escalar o sub-20. Avançou até a decisão da Copa Sul-Americana, para se engrandecer ao oferecer o troféu à Chapecoense. Somando as duas competições continentais, os verdolagas entraram em campo 24 vezes. Registraram 15 vitórias, 8 empates e somente uma derrota, na ida contra o Rosario Central. Marcaram 41 gols e tomaram apenas 11. Conquistaram 88,9% dos pontos em casa.

Retrospecto invejável, que endossa ainda mais a candidatura do Atlético Nacional no Mundial de Clubes. É verdade que alguns jogadores importantes se foram desde (e durante) a conquista da Libertadores. De qualquer maneira, o nível de desempenho se mantém, algo raro entre os últimos sul-americanos que disputaram a competição da Fifa. Deixam uma margem de esperança sobre aquilo que Reinaldo Rueda e seus comandados poderão realizar no Japão.

A montagem do elenco

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Durante o ciclo vitorioso, o Atlético Nacional se destacou também pelos excelentes elencos que formou. Perdeu muitos jogadores durante esses anos, mas também soube se reconstruir continuamente. E o trabalho de montagem do grupo partiu de três preceitos básicos: as categorias de base, as boas observações no mercado e as apostas em jovens jogadores ascendentes na Colômbia. Poucos foram os reforços estrangeiros dos verdolagas neste período – mais precisamente, apenas dez desde 2010, sendo que o goleiro argentino Franco Armani e o meia venezuelano Alejandro Guerra foram os únicos que realmente se firmaram. Os medalhões também rarearam. As exceções são Macnelly Torres, Víctor Ibarbo e Juan Pablo Ángel, levando em conta que os dois últimos ainda optaram por voltar ao clube no qual iniciaram as carreiras.

Olhando para os jogadores que já deixaram o Atanásio Girardot, o Atlético Nacional soube muito bem analisar o mercado interno. Assim, por exemplo, chegaram jogadores como Dorlan Pabón (Envigado), Alexander Mejía (Once Caldas), Edwin Cardona (Independiente Santa Fe), Sherman Cárdenas (Junior de Barranquilla), Jefferson Duque (Leones) e Jonathan Copete (Independiente Santa Fe). Alguns deles não vingaram depois que saíram de Medellín, mas deixaram frutos aos verdolagas em campo e nos cofres.

Ao mesmo tempo, as categorias de base não perderam espaço. O Atlético Nacional conseguiu lançar vários garotos de destaque durante a bonança dos últimos anos. Subiram aos profissionais, participaram dos títulos e deram sequência na carreira em outros países. Marlos Moreno, grande revelação da Libertadores e levado pelo Manchester City, é apenas o exemplo mais recente. A lista ampla inclui também o volante Sebastián Pérez, o zagueiro Davinson Sánchez, o lateral Stefan Medina e o atacante Victor Ibarbo. Todos eles com passagem pela seleção colombiana. A venda de jogadores, inclusive, representa a maior fatia da receita do clube atualmente: desde 2010, os verdolagas já geraram cerca de € 50 milhões em negociações.

E como o Atlético Nacional montou o grupo que viajou ao Mundial de Clubes? Na galeria abaixo, trazemos os detalhes sobre cada um dos 23 inscritos no torneio, além de Andrés Ibargüen, cortado de última hora por lesão: