Quatro gols em um jogo de Copa do Mundo. Um feito extraordinário, e um tanto quanto raro. Apenas sete vezes um jogador conseguiu balançar as redes quatro ou mais vezes em um jogo de Mundial, e a última foi há 22 anos. A primeira, por sua vez, ajudou a abrilhantar uma das partidas mais fantásticas já realizadas no torneio. Foi em 1938, quando Brasil e Polônia se digladiaram até a prorrogação em Estrasburgo. Ernest Willimowski anotou três tentos (um aos 44 do segundo tempo) e ainda sofreu um pênalti, convertido Friedrich Scherfke, durante o 4 a 4 do tempo regulamentar. Já na prorrogação, encerraria a sua conta, embora o esforço tenha sido em vão diante da genialidade de Leônidas. Contudo, aquele que deveria ser celebrado como um dos maiores artilheiros de todos os tempos, tem seu passado renegado. Lenda esquecida, que completaria 100 anos neste 23 de junho, se ainda estivesse vivo.

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Frio e dono de um oportunismo notável, habilidoso driblador, exímio finalizador, capaz de dominar a área apesar de seu 1,70 m: todos os predicados sobre Willimowski se confirmam através de seus números impressionantes. Levando em conta apenas os jogos oficiais, o atacante marcou 554 gols, que o colocam como 10° maior artilheiro da história segundo o RSSSF. Se forem somados os amistosos também, a marca chega aos 1.175 tentos – o que é relevante, considerando o período acidentado no qual atuou. E, pelas seleções nacionais, o desempenho segue notável. Defendendo a Polônia, balançou as redes 21 vezes em 22 partidas. Depois, se juntou à Alemanha, com 13 gols em oito aparições. Mas foi justamente a Segunda Guerra Mundial, responsável por mudar a sua representação, que o relegou ao esquecimento. Que o impediu de se tornar ainda maior.

Willimowski, pela seleção polonesa, em 1934. Ele é o penúltimo sentado, da esquerda para a direita.

Willimowski, pela seleção polonesa, em 1934. Ele é o penúltimo sentado, da esquerda para a direita.

É importante entender, antes de mais nada, o contexto sob o qual Willimowski estava inserido. O atacante nasceu na cidade de Kattowitz, ainda parte do Império Alemão em 1916 (e historicamente ocupada por povos germânicos), batizado como Ernst Otto Pradella. Seu pai, Ernst-Roman, morreu durante a Primeira Guerra Mundial e o garoto acabou criado pela mãe, Paulina Florentyna. Em 1922, parte da região da Silésia foi unificada à Segunda República da Polônia. Pouco depois, o adolescente adotou o sobrenome de seu padrasto quando completou 13 anos. Assim, assumia também a identidade polonesa como Willimowski – embora ele preferisse se referir como um silésio.

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Jogando nas categorias de base do FC Kattowitz, o jovem promissor se transferiu ao Ruch Wielkie Hajduki (atual Ruch Chorzów) quando tinha 17 anos. E, por lá, se transformou em uma das maiores estrelas do futebol polonês. Willimowski conquistou quatro vezes o campeonato nacional e por três vezes foi seu artilheiro. Autor de 10 gols em uma mesma partida, atribuía o talento ao “talismã” no pé direito, com seis dedos. Convocado para a seleção desde 1934, perdeu a chance de disputar as Olimpíadas de 1936 após ser suspenso por um ano, por conta de sua indisciplina (entenda-se: festas e bebedeiras) fora de campo. Quarta colocada, a Polônia poderia ter muito mais sucesso com o seu craque. Ao menos o atacante voltou a tempo de disputar a Copa do Mundo de 1938. E, mesmo com apenas uma partida, escreveu sua história nos Mundiais. Até hoje, é o único atleta a marcar quatro gols em um jogo contra a seleção brasileira. Deslumbrados, dirigentes brasileiros lhe ofereceram um contrato para vir jogar no país, o que lhe interessou, mas acabou impedido pela federação polonesa.

Em 1939, porém, a Segunda Guerra Mundial estourou a partir da anexação da Polônia pelo Terceiro Reich. E, de ídolo nacional, herói na vitória sobre a Hungria apenas quatro dias antes do conflito, Willimowski foi considerado um traidor por recobrar sua cidadania germânica. Primeiro, ele voltou para Kattowitz, onde as autoridades nazistas formaram um esquadrão com jogadores locais para tentar insuflar sobre os silésios uma identidade alinhada com o novo poder central. Já em 1940, o atacante rompeu de vez os seus laços com a Polônia, ao se mudar para a Saxônia e se juntar ao PSV Chemnitz. Atuar em um clube alemão, no fim das contas, ajudou-o a não combater na guerra. Era o caminho para escapar dos riscos em uma Europa assolada. “Por que meu pai aceitou defender o Terceiro Reich? Porque ele não queria morrer”, declarou sua filha, Sylvia Haarke, em entrevista concedida em 2007. Em 1934, sua transferência ao Ruch já tinha desagradado um oficial que, posteriormente, ganhou alta patente entre os nazistas e tentou atrapalhar a carreira do jogador. O talento, todavia, preponderou.

Fritz Walter, August Klingler, Albert Sing, Ernst Willimowski e Karl Decker

Fritz Walter, August Klingler, Albert Sing, Ernst Willimowski e Karl Decker

Naquele momento, Willimowski se tornou um dos grandes craques do futebol no Terceiro Reich. Em 1941, passou a ser convocado por Sepp Herberger para a seleção alemã. Chegou a disputar um amistoso contra a Romênia em plena Silésia, aclamado na goleada por 7 a 0 dos germânicos. Além disso, formava uma parceria de ataque avassaladora com Fritz Walter. Contudo, em 1943, a equipe nacional interrompeu suas atividades diante dos desdobramentos da guerra. O artilheiro passou a se dedicar apenas à carreira nos clubes, transferido ao Munique 1860. Pior, ainda viu sua mãe ser levada ao campo de concentração de Auschwitz, após se envolver amorosamente com um judeu russo. A influência do filho a salvou da câmara de gás.

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Em 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, Willimowski ainda tentou retornar à Silésia. Foi impedido pelo novo regime que se instaurava, por ter “traído a pátria”. Então, o atacante permaneceu na Alemanha. Considerado pária, perambulou por pequenos clubes, até conseguir se estabelecer no VfR Kaiserslautern, o segundo time da cidade. Embora sua equipe não disputasse a taça, o artilheiro marcou 70 gols em 90 jogos no Campeonato Alemão entre 1951 e 1955. Aos 38 anos, tinha bola para estar na Copa do Mundo de 1954, mas acabou ignorado pelos germânicos, o que se transformou em uma grande decepção na sua vida. O Nationalelf, treinado novamente por Sepp Herberger, tinha como base justamente os rivais do 1. FC Kaiserslautern. “É provavelmente o único jogador no mundo que marcou mais gols do que teve chance de fazê-los. Para mim, foi o melhor atacante da história”, escreveu em sua biografia o ex-companheiro Fritz Walter, capitão na conquista em Berna.

Willimowski jogou até os 43 anos. Depois, seguiu com sua vida pacata na Alemanha Ocidental, se recusando a trabalhar para a federação. Em 1974, na época da Copa do Mundo, chegou a se encontrar com o técnico Kazimierz Górski, um antigo fã nos tempos de Ruch. Contudo, o pedido do veterano para visitar o elenco polonês acabou recusado pelo governo. O ex-atacante nunca mais voltaria à Polônia. Em 1995, até foi convidado para uma homenagem em campo pelo Ruch Chorzów, mas precisou declinar, com sua filha doente. O craque faleceu dois anos depois, em Karslruhe, onde estabeleceu residência e tocava um restaurante.

As memórias sobre Willimowski acabaram no limbo. Traidor para os poloneses e símbolo do Terceiro Reich para os alemães, costuma ser aclamado com mais frequência por aqueles que clamam o nacionalismo silésio. Pouco, para um craque reconhecidamente entre os melhores do mundo durante o seu auge, mas que viu a guerra transformar sua reputação. “Se a Copa do Mundo de 1942 tivesse acontecido, talvez não falássemos sobre Pelé, e sim sobre Willimowski”, afirma Andrzej Gowarzewski, um dos jornalistas esportivos mais condecorados da Polônia. A realidade, porém, foi bem mais cruel com o artilheiro, diante das decisões que precisou tomar.


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