Durante os últimos dias, a imprensa brasileira trouxe vários relatos e reportagens sobre o Flamengo 3×0 Liverpool de 1981. A vitória incontestável dos rubro-negros em Tóquio foi tratada com enorme exaltação no país, sem que isso significasse necessariamente exageros. De fato, a equipe de Paulo César Carpegiani dominou a partida e fez valer a sua força. Mas como a imprensa inglesa reagiu ao resultado?

Para resgatar esta memória, traduzimos três textos: os relatos dos jornais The Guardian (de Manchester) e The Daily Post (de Liverpool), publicados no dia seguinte; e também a reportagem principal da edição de janeiro da revista World Soccer (britânica, mas com um olhar globalista), que tratava o que ocorreu em campo e também dos reflexos do placar. Vale para entender um pouco melhor as impressões de Tóquio.

The Guardian

Nunes gira a faca brasileira, por David Lacey

O Liverpool fez a longa e cansativa viagem a Tóquio para uma lição de finalização que, em seus melhores dias, eles não precisariam. O Flamengo, campeão sul-americano, venceu o Campeonato Mundial de Clubes patrocinado pela Toyota, diante de uma torcida de 62 mil no Estádio Nacional, com o jogo liquidado assim que os brasileiros estabeleceram sua vitória por 3 a 0 antes do intervalo. Ao dar todo o crédito da vitória ao Flamengo, o Liverpool foi o primeiro a admitir que eles próprios estavam muito abaixo de seu melhor.

Tanto Phil Thompson quanto Bob Paisley criticaram o gramado como duro e irregular, o que certamente era, mas esse fator apenas enfatizou a técnica superior dos jogadores do Flamengo. Thompson disse que os brasileiros estavam em vantagem porque eram acostumados a essas condições. Bem, alguns dos campos no Brasil podem ser irregulares, mas o gramado no Maracanã, exuberante e com grama alta, dificilmente se assemelha com o de Tóquio. A habilidade e a inteligência de Zico e as finalizações certeiras de Nunes têm mais a ver com a vitória do Flamengo que o campo; ambos receberam carros dos patrocinadores como prêmio pelo jogo.

Depois de 13 minutos, o lindo passe de Zico passou sobre a cabeça do infeliz Thompson e Nunes correu para chutar a bola limpamente na saída de Grobbelaar. Com meia hora de jogo, o Flamengo ganhou uma cobrança de falta próxima da área do Liverpool e fez uma manobra familiar dos brasileiros. Quando Zico correu para chutar, um jogador do Flamengo saiu da barreira, deixando uma grande lacuna. O chute de Zico passou aí, Grobbelaar não conseguiu segurar a bola e Adílio forçou o segundo gol.

O terceiro veio quatro minutos antes do intervalo, quando Zico acionou Nunes livre e desimpedido pelo lado direito. Nunes marcou com um chute preciso de um ângulo fechado e o resto foi formalidade, embora Grobbelaar tenha feito várias defesas no segundo tempo. Craig Johnston foi o atacante mais efetivo do Liverpool, mas essa era uma pequena consolação para o desempenho decepcionante no geral.

Bob Paisley, o técnico do Liverpool, comentou: “Nunca vi nosso time tão tedioso, sem ideias e agressividade. Eu simplesmente não consigo entender isso”.

Phil Thompson, o capitão, disse que lamentava não ter feito jus ao futebol inglês hoje: “Deixamos que eles ditassem o ritmo do jogo. Deveríamos ter tentado acelerar, em vez de buscar um ritmo mais lento. Não jogamos como poderíamos, e todos sabem o que podemos”

Ray Kennedy disse: “Só espero que nós não encaremos esse destino de novo se conquistarmos a Champions. Eles foram brilhantes e, neste gramado, tinham todas as cartas”.

O técnico do Flamengo, Paulo César, disse: “Nós fomos magníficos no primeiro tempo, quando achei o Liverpool muito decepcionante. Jogamos com Zico mais recuado que o normal e, embora ele não tenha marcado gols, foi quem mais fez estragos”.

The Liverpool Daily Post

Reds desmoronam e deixam lição rumo à Espanha, por Ian Hargreaves

As esperanças do Liverpool em se tornar o primeiro clube britânico a conquistar o Campeonato Mundial de Clubes foram frustradas de uma maneira certeira, quando eles foram amplamente superados por um time brilhante do Flamengo no Estádio Nacional. E a maneira como a derrota aconteceu soou como um aviso ameaçador para os torcedores de Inglaterra, Escócia e Irlanda do Norte, que irão disputar a Copa do Mundo em circunstâncias bem semelhantes na Espanha. Em um campo duro, que fez a bola saltar alturas pouco costumeiras, os campeões europeus não foram páreos aos oponentes, consagrados pelo controle de bola e pelas qualidades técnicas.

Como o técnico do Liverpool, Bob Paisley, admitiu depois: “O Flamengo foi um time muito melhor hoje. A técnica deles era melhor que a nossa neste gramado, mas acho que nós poderíamos ter feito um jogo bem mais duro. O primeiro tempo foi terrivelmente decepcionante, porque deixamos eles baixarem o ritmo do jogo e nunca colocamos qualquer pressão real. Não sei o que deu errado. Os rapazes foram instruídos a não se envolver em qualquer incidente por causa da importância da ocasião e, possivelmente, isso pode ter impedido o jogo natural. Nós demos dois gols tolos no início e o terceiro estava em impedimento, então realmente a partida estava acabada no intervalo”.

De fato, apenas 12 minutos se passaram quando o primeiro grande erro do Liverpool foi punido de uma maneira cruelmente precisa. Zico, jogando mais recuado do que o esperado e mostrando uma rara delicadeza em seus toques, lançou a bola sobre Thompson e, quando Hansen e Grobbelaar esperavam o salto, o centroavante Nunes desviou para as redes. Foi um golpe devastador, do qual o Liverpool nunca se recuperou, embora tivesse mais domínio territorial. Enquanto Zico, Adílio e Nunes nunca precisavam de mais de um toque na bola, os movimentos do Liverpool pareciam lentos e previsíveis, raramente levando perigo.

Os brasileiros, jogando seu 77° jogo na temporada, tratavam a bola com carinho e sempre tinham tempo de sobra. O domínio era instantâneo, os passes cirúrgicos eram um deleite de se assistir e, mais importante de tudo, suas finalizações tinham um padrão profissional. O lateral Júnior deu um aviso estrondoso quando acertou um voleio após o escanteio cobrado por Tita e, logo depois, Zico mostrou sua experiência. Depois que um frustrado McDermott derrubou Tita perto da área, Zico acertou uma bomba em cobrança de falta, que quicou desajeitadamente, antes de bater no peito de Grobbelaar e permitir Adílio marcar.

Nunes fez o terceiro com um chute bem colocado e Andrade poderia ter anotado o quarto com uma tentativa cheia de curva, que foi maravilhosamente defendida pelo goleiro do Liverpool. Entretanto, felizmente para o Liverpool, o Flamengo estava contente em começar as suas férias no Havaí 45 minutos mais cedo e jogou um futebol de posse de bola com ritmo um pouco maior que o de uma caminhada no segundo tempo. O Liverpool pressionou continuamente, mas pouco impressionou, mesmo depois da substituição de McDermott por David Johnson. Houve momentos em que Júnior e companhia pareciam quase entendiados pela falta de ação.

Craig Johnston, jogando sua primeira partida completa pelo Liverpool, foi facilmente o melhor da equipe e acertou dois chutes no gol. Não há dúvidas de que o Flamengo é um time excepcional ou que as seleções europeias encontrarão o Brasil com um raro talento na Espanha. Três das estrelas do Flamengo – Zico, Júnior e Leandro – certamente participarão da Copa do Mundo e, se o Brasil tem jogadores melhores que o artista do meio-campo Adílio e que o centroavante de passadas largas Nunes, eles devem estar melhores que a Inglaterra.

Em um cenário espetacular adornado por garotas, bandas com uniformes coloridos, centenas de bexigas e todo o glamour que é associado aos Jogos Olímpicos, o Flamengo realmente parecia fazer parte disso. Infelizmente, não pode se dizer o mesmo do Liverpool, cujos esforços desesperados apenas sublinharam a loucura de tentar essa grande missão sem a adequada preparação. Inglaterra, você está avisada!

World Soccer

Flamengo varre o tabuleiro mundial, por Keir Radnedge

Duas taças, dois carros e a glória… O Flamengo dominou o campo, enquanto explosivamente subjugava o desafio do Liverpool na Copa do Mundo de Clubes aqui no Japão. A Toyota, patrocinadora japonesa cujos carros foram entregues a Zico (o gênio criativo do Flamengo) e Nunes (autor de dois gols da vitória), dificilmente poderia esperar tal aceleração dos brasileiros. Eles chegaram um dia depois que os campeões do Liverpool e pareciam ainda mais desgastados pelo longo voo. Mas qualquer sinal de cansaço desapareceu no momento em que eles sentiram o sol do meio-dia no rosto para o pontapé inicial de um evento que está agora mais estabelecido no calendário do futebol.

Um evento que também parece certo de continuar em seu modelo de jogo único em Tóquio, enquanto a Toyota providenciar seu apoio. Certamente a organização, realizada a primeira vez na última primavera para a vitória do Nacional sobre o Nottingham Forest, mais uma vez correu sem problemas. E com mais de 50 países transmitindo o jogo, ao vivo ou em tape, haverá incentivos suficientes para persuadir os clubes envolvidos a continuarem jogando, seja lá quais forem os compromissos domésticos que puderem ter pelo caminho.

Ninguém pode questionar o direito do Flamengo à taça mundial e à taça da Toyota, que também foi apresentada. Eles eram cheios de habilidade, bem compostos e confiantes. Não havia mais sinal do lado sombrio da vida, que amedrontou a campanha na Libertadores, primeiro contra o Atlético Mineiro, depois contra o Cobreloa. Zico foi fora de série. Ele não teve pressa para se forçar no jogo: ele não precisava disso. Quando a chance surgiu, ele estava com a bola, no lugar certo e no momento certo, para dar seus chutes e passes com perfeição.

Dificilmente poderia se imaginar um passe mais bem executado que aquele que serviu Nunes para o primeiro gol. Por mais que tenha tentado, o capitão Phil Thompson não conseguiu alcançar o lançamento e o centroavante esguio fez o resto. Então Zico apareceu de novo. Desta vez, sua falta venenosa rebateu nas mãos de Bruce Grobbelaar e, embora o goleiro tenha bloqueado o chute de Lico no rebote, Adílio não errou na segunda chance. Os passes de Zico criaram o gol de número três para Nunes antes do intervalo. Embora um Liverpool atordoado tenha se recuperado um pouco no segundo tempo, eles estavam fora dos eixos.

O técnico Bob Paisley criticou seus homens depois do jogo – mas, significativamente, sem tentar negar qualquer glória do Flamengo. Assim como o Brasil ganhou a Copa do Mundo três vezes, agora seus clubes venceram o Mundial três vezes, ainda que as duas vitórias prévias tenham sido construídas pelo Santos há quase 20 anos.

O Liverpool teve mais posse de bola ao longo dos 90 minutos, mas isso significou pouco. O que os times fizeram com a bola importou mais e, em Adílio, o Flamengo tinha o homem para manter seus padrões fluídos de rotação. A técnica brasileira é famosa há muito tempo. De novo, apesar das condições do gramado, os sul-americanos tiveram uma vantagem. Os domínios de primeira sempre foram uma arma que deram a eles muito mais tempo para pensar seus movimentos e aproveitar suas habilidades.

Na frente, eles tiveram a eletricidade que faltou ao Liverpool. Onde Nunes sempre corria aos espaços certos, onde Tita driblava e fintava e onde Zico sempre tinha um perigo à espreita, o Liverpool era lento e fastidioso em comparação. Kenny Dalglish pouco apareceu ao jogo; foi o jovem Craig Johnston, disputando seu primeiro jogo completo com as cores do Liverpool, que foi o jogador mais vívido. Johnston perseguia e corria, mas sem ajuda sempre perdia.

O Liverpool jogou em seu usual estilo paciente, empurrando a bola, mas desta vez a previsibilidade não funcionou. Os brasileiros tinham suas próprias ideias – ideias construídas em uma teia no meio-campo, no qual o técnico Paulo César tinha pensado antes ao usar a escolha surpreendente de Lico, nominalmente um ponta esquerda, para fazer a cobertura. Com a experiência de Junior atrás dele como lateral, e a influência ágil e calmante de Raul aos 37 anos no gol, o Flamengo raramente apareceu em perigo.

Para Adílio, foi uma semana memorável. No domingo prévio, o Flamengo derrotou o Vasco para conquistar seu 21° título no Campeonato Carioca; no dia seguinte, ele se casou; agora aqui ele estava, com sua noiva assistindo ao lado de outras sete esposas nas arquibancadas, se tornando campeão do mundo. Depois disso, com a temporada terminando da melhor maneira possível, o Flamengo festejará – a palavra apropriada! – voando para férias no Havaí. Poucos podem invejar tal comemoração.

O futebol brasileiro se restabeleceu como uma força internacional no último verão, quando a seleção ganhou três amistosos fora de casa contra Inglaterra, França e Alemanha Ocidental. Isso instantaneamente confirmou-os entre os favoritos à Copa do Mundo, uma posição que pode ser realçada pela vitória em Tóquio, já que o Flamengo possui vários jogadores na equipe, como Zico, Júnior, Leandro e Tita. Os brasileiros tem estilo e elegância. Mas muito pode acontecer nos próximos meses e, embora a Europa pareça ficar sempre atrás da América do Sul nos últimos 18 meses, a começar pelo Mundialito no Uruguai, não há razão ainda para pensar que o desafio da Europa na Copa do Mundo é um mero exercício acadêmico.

Como as experiências do Flamengo na Libertadores mostraram, o temperamento dos sul-americanos nem sempre é dos mais calmos – e isso não é apenas questão de sofrer faltas e pontapés em campo. Muito pode acontecer no segundo plano para atrapalhar o equilíbrio de um elenco e o espírito de equipe.

Tóquio foi realmente um indicador do que pode acontecer na Espanha, mas apenas um indicador, não um sinal decisivo. O sucesso do Flamengo demorou a acontecer depois de anos nos quais a América do Sul foi representada neste estágio pelo cinismo do Uruguai e da Argentina. Mas o perigo que agora eles enfrentarão pode bem estar em assumir desilusões de grandeza. Nenhum time ou seleção pode relaxar em suas conquistas. A ameaça ao Brasil agora vem de dentro – de sua autoconfiança elevada.

O Liverpool foi dividido ao meio pelo Flamengo. Foi apenas uma questão de pegar o Liverpool em um dia desligado? Eles realmente eram um novo supertime? Talvez a Copa do Mundo traga algumas respostas nesta direção também. Assim como Tóquio enviou alguns sinais de alerta para as equipes nacionais da Europa.