Daniel Alves chega ao São Paulo como uma contratação histórica, não há dúvidas. A mobilização dos tricolores ao redor do veterano diz muito sobre a sua representatividade. Centenas de torcedores se dirigiram ao aeroporto de Congonhas na tarde desta segunda, para recepcionar o lateral, e sua apresentação na noite desta terça encheu o Morumbi. Existe, de certa maneira, uma expectativa de que a vinda do craque represente também um ponto de virada à equipe. Algo que só o tempo responderá.

Fato é que, ao longo de sua história, o São Paulo sempre investiu em medalhões para trazer novas perspectivas ao clube. A prática se repetiu inúmeras vezes com o passar das décadas. Nos últimos anos, podem ser citados os retornos de antigos ídolos, como Kaká e Raí, ou mesmo apostas como Adriano. Além do mais, a construção de alguns dos maiores times tricolores teve como ponto nevrálgico a adição de um astro da Seleção. Nesta lista podem ser incluídas lendas do porte de Zizinho, Gérson e Toninho Cerezo – mesmo que nem todas as tentativas tenham dado certo, com menções principais a Didi e Paulo Roberto Falcão, duas estrelas de trajetórias fugazes pelos são-paulinos.

E se há uma pedra fundamental neste passado, ela atende pelo nome de Leônidas da Silva. O Diamante Negro é considerado não apenas o homem que engrandeceu o São Paulo a partir da década de 1940, mas também o “pai das transações galáticas do futebol brasileiro”. O que se nota com Daniel Alves, o velho artilheiro já tinha proporcionado de maneira bem mais espantosa em 1942. Primeiro, abarrotou a Estação do Norte (a atual estação do Brás), quando desembarcou de trem do Rio de Janeiro. Já nas semanas seguintes, causou tantas expectativas sobre sua estreia que o Pacaembu registrou aquele que permanece como recorde de público do estádio. Oficialmente, 70.218 pessoas estiveram no local para ver o São Paulo 3×3 Corinthians, o primeiro jogo do centroavante com sua nova camisa.

Aproveitando a apresentação de Daniel Alves, vamos relembrar um pouco do que aconteceu na chegada de Leônidas da Silva ao São Paulo. Além da contextualização, traremos recortes dos jornais da época. Que o lateral seja um negócio estratosférico para os dias atuais, ainda não supera o impacto causado pelo Diamante Negro. E, considerando a maneira como os tricolores se transformaram a partir do craque, é difícil imaginar outra contratação que supere o veterano em importância.

Sobre os reforços midiáticos feitos pelo São Paulo ao longo de sua história, vale conferir também a lista preparada pelo historiador Alexandre Giesbrecht, que reconta esses investimentos recorrentes dos tricolores. O material está disponível na página ‘Jogos do São Paulo’.

Leônidas, do cárcere aos braços do povo

A popularidade de Leônidas da Silva já era imensa ao longo da década de 1930. O atacante que estourou no Bonsucesso e buscou o profissionalismo fora do país já tinha sido uma contratação bombástica em 1936, quando o Flamengo o tirou do Botafogo. O Diamante Negro era o principal craque de um time fortíssimo formado pelos rubro-negros. E sua grandeza atingiu patamares inéditos no país a partir da Copa do Mundo de 1938, a primeira transmitida pelas rádios brasileiras. O sucesso no Mundial da França espalhou a fama do artilheiro pelo resto do planeta e o trouxe de volta com status de herói. Impulsionaria sua fama, mas não evitaria problemas ao atacante de gênio forte.

Leônidas levou multidões aos jogos do Flamengo e conquistou o Campeonato Carioca de 1939, mas deixou o clube em litígio. A gota d’água aconteceu no início de 1941, quando se recusou a atuar durante uma excursão para a Argentina. Com uma séria lesão no joelho, o artilheiro era acusado de fazer “corpo mole”, assim como sua participação constante em peças publicitárias também incomodava. Em meio à queda de braço com os dirigentes, o Diamante Negro teve sua prisão decretada. Por conta de um atestado de reservista falsificado para arranjar um emprego público, o craque foi preso pelo exército, após ser processado pelo Fla. Passou oito meses no xadrez, em detenção que tinha um regime um tanto quanto simbólico ao astro.

Leônidas acionou a justiça, tentando se desvincular do Flamengo, mas seu passe permaneceu com os cariocas. Somente em abril de 1942 é que o imbróglio chegou ao final. Outros clubes manifestaram interesse pelo craque, mas o São Paulo levou a melhor. Pagou 200 contos de réis, um valor recorde para o futebol brasileiro na época. Não à toa, a transferência foi tratada como um marco. Muitos duvidavam da forma como o Diamante Negro chegaria à capital paulista, após ficar mais de um ano sem atuar em partidas oficiais e já às vésperas de completar 29 anos. As lesões no joelho também aumentavam a desconfiança.

Essa sensação, porém, não era compartilhada por boa parte dos torcedores paulistanos. Mais de 10 mil pessoas foram receber Leônidas na Estação do Norte. O craque foi carregado nos braços do povo e dava outra dimensão ao São Paulo, clube de fundação relativamente recente e distante da popularidade dos principais rivais da capital na época, o Corinthians e o então chamado Palestra Itália. “O São Paulo investiu pesado para montar um esquadrão. E isso foi importante, já que Leônidas não teve tanto peso por ser o grande nome. Eu considero a década de ouro para o clube, que garantiu o primeiro título e o tornou popular”, contou André Ribeiro, biógrafo de Leônidas, em entrevista à Trivela em setembro de 2013.

A apoteose no Pacaembu

A estreia de Leônidas demorou mais de um mês para acontecer, após ser homenageado em diversas festas de recepção. O veterano passava por um regime especial de preparação à nova etapa da carreira, que incluía um plano de condicionamento físico e uma dieta visando a sua melhor forma. No fim das contas, os meses na prisão também o beneficiaram, recuperando-se dos problemas no joelho. De início, era previsto que o astro disputasse um amistoso contra o Atlético Paranaense, do renomado goleiro Caju, como marco inicial de sua passagem pelo Tricolor. Todavia, o jogo acabou cancelado e guardou a estreia para o clássico.

Assim, o início da história de Leônidas com o novo clube acabou se concretizando justamente no tal São Paulo x Corinthians do Pacaembu. O jogo recebeu 70 mil pessoas e sua bilheteria rendeu 75 contos de réis aos são-paulinos, pagando mais de um terço do investimento inicial feito pela diretoria. Às 10 da manhã, o público começou a chegar; ao meio-dia, o estádio já estava lotado; e às 13 horas, os portões foram trancados. Tudo para ver o craque, que se não fez uma grande atuação no movimentado empate por 3 a 3, ao menos impulsionou uma ocasião histórica. Foi graças à manchete d’A Gazeta Esportiva do dia seguinte que surgiu o apelido de “Majestoso” ao duelo entre os novos rivais paulistanos.

“Não dava nem para dizer que contavam as pessoas a mais, porque não dava para entrar e sair. E, como não existia o tobogã, muitos viram o jogo nos morros do lado de fora”, narrou André Ribeiro, à Trivela. “É evidente que não existiam tantos são-paulinos. Foi a cidade que se mobilizou para receber Leônidas, ver o melhor jogador da época. Ele representou tudo para o São Paulo, não é à toa que o clube o reverencia até hoje. Leônidas abriu as portas para o São Paulo ser grande. A contratação foi o marco zero para o clube, levando-o aos títulos e garantindo uma grande massa de torcedores”. A contratação gerou mais de sete mil novos sócios ao clube até o início de maio, o que dimensiona esta comoção.

Chamado de “bonde de 200 contos” após a estreia sem impressionar a crônica esportiva, Leônidas não demorou a reverter essa noção. Seu primeiro gol aconteceu durante vitória por 4 a 2 sobre o Santos. E outro momento memorável no início de sua passagem ocorreu no mês seguinte, em junho, durante clássico contra o Palestra Itália. A vitória não veio. Entretanto, o Diamante Negro anotou uma de suas bicicletas mais célebres, descontando no revés por 2 a 1. O “bonde” era capaz de flutuar em campo, como tão bem eternizou o narrador José Geraldo de Almeida em um dos relatos mais clássicos sobre o velho artilheiro. Seria apenas o começo de uma passagem fantástica.

Leônidas liderou o São Paulo no título do Campeonato Paulista em 1943, rompendo uma hegemonia de Corinthians e Palmeiras que durava desde 1936. Seria o primeiro dos cinco troféus estaduais que faturaria pelos tricolores, firmando a agremiação como força na capital e transformando-a em clube de massa. O “bonde” jogaria oito anos pelo clube, aposentando-se apenas em 1950. A recepção massiva na Estação do Norte, no fim das contas, mais soou como um prenúncio de algo grandioso que realmente se concretizou aos são-paulinos.

Como a imprensa tratou a chegada de Leônidas

Abaixo, recortes e páginas de periódicos importantes da época, narrando a transferência de Leônidas da Silva, do Flamengo para o São Paulo, bem como os seus primeiros atos com a camisa tricolor. Para visualizar em tamanho original, clique com o botão direito do cursor e selecione em ‘abrir imagem em nova guia’. Por questões de limitações de arquivos, foram privilegiadas as revistas cariocas, com material mais rico sobre o assunto.

A negociação, segundo ‘O Globo Sportivo’ e o ‘Jornal dos Sports’

O emprego paralelo na Rádio Record, segundo o ‘Esporte Ilustrado’

A chegada apoteótica, segundo a ‘Folha da Noite’, ‘O Globo Sportivo’ e o ‘Jornal dos Sports’

A preparação, segundo ‘O Globo Sportivo’

A estreia contra o Corinthians, segundo o ‘Esporte Ilustrado’ e ‘O Globo Sportivo’

A bicicleta contra o Palestra, segundo o ‘Esporte Ilustrado’