Nós esperamos muito para que isso acontecesse, mas as eleições na Fifa se aproximam e dois candidatos parecem ter chance de vitória. Nenhum deles é Joseph Blatter, eleito em 1998 quatro vezes mais depois disso. O reinado de Blatter acabou, mas a sua obra, que foi uma continuidade do trabalho de João Havelange, de quem foi secretário-geral, ainda persiste. Aliás, mais do que isso: a eleição da Fifa nesta sexta-feira irá opor o resultado da política de expansão e descentralização do poder feita por décadas pela dupla Havelange e Blatter.

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São cinco os candidatos a presidente da Fifa:

Ali bin al-Hussein, presidente da Federação de Futebol da Jordânia, ex-membro do Comitê Executivo e que disputou o último pleito, em maio de 2015, justamente quando o FifaGate explodiu. Embora tenha conseguido alguns apoios, não foi páreo para Blatter na eleição e acabou derrotado em primeiro turno. Abriu mão de disputar o segundo, sabendo que perderia.

Jérôme Champagne, diplomata francês, que foi consultor internacional e depois secretário-geral da Fifa sob a gestão de Blatter. Trabalhou pela reeleição de Blatter na Fifa em 2002, pela escolha da África do Sul como sede da Copa em 2004, e na eleição de Michel Platini para a Uefa em 2007. Se desligou da Fifa em 2010, alegando divergências políticas. Em 2014, anunciou ser candidato à presidente na eleição da Fifa de 2015, mas retirou a candidatura em fevereiro depois de não conseguir apoio.

Tokyo Sexwale, empresário sul-africano, político e ativista anti-aparthaid. Foi prisioneiro político e trabalhou no governo sul-africano depois da redemocratização do país.

Salman bin Ibrahim al-Khalifa (na foto que ilustra este post), xeque do Bahrein, president da Confederação Asiática de Futebol (AFC) desde 2013. Antes, trabalhou na Federação de Futebol do Bahrein por alguns anos até se tornar presidente, em 2002. Participou de alguns comitês na Fifa. Quando anunciou que seria candidato a presidente da Fifa, diversas associações de direitos humanos, como a Human Rights Watch, mostraram preocupação por acusações contra ele por violação de direitos humanos no seu país. Ele sempre negou as acusações.

Gianni Infantino, secretário-geral da Uefa, se tornou o candidato da Europa na disputa. Ele entrou no páreo depois que Michel Platini foi impedido de participar por acusações de corrupção que o levaram a um banimento por oito anos do futebol.

Os cinco candidatos a presidente da Fifa (AP Photo/File)
Os cinco candidatos a presidente da Fifa (AP Photo/File)

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Disputa polarizada

Apesar de ter cinco candidatos, só dois são vistos com chances para vencer e acabam representando o que a política da Fifa fez nos últimos 40 anos. Salman bin Ibrahim al-Khalifa é o grande favorito na eleição. É quem tem feito mais campanha por uma coalisão e chegou a defender inclusive que deveria haver um candidato de consenso entre as 209 federações.

Além da campanha ampla, al-Khalifa tem dois grandes trunfos. O primeiro é o apoio da AFC, da qual é presidente, e que tem 47 seleções. A entidade, como era de se esperar, declarou apoio à sua candidatura. O outro trunfo é a África. A Confederação Africana de Futebol (CAF) também deu apoio ao xeque do Bahrein para a eleição da Fifa neste sexta-feira. A CAF é a maior confederação do mundo em número de seleções, com 56 seleções, mais até que a Uefa, que tem 54.

É verdade que tanto a AFC quanto a CAF não votam em bloco, não há garantia nenhuma disso, mas não dá para subestimar o apoio de duas confederações tão grandes. Os países não querem votar no perdedor e temem represálias. Salman diz ter votos suficientes para vencer.

O outro candidato que é visto com alguma chance é Gianni Infantino. O suíço é o candidato da Uefa, apoiado pela entidade e por muitos dos países mais importantes. Também recebeu o apoio da Conmebol, que, porém, significa mais politicamente do que em termos numéricos, uma vez que tem apenas 10 membros.

Ásia/África x Europa/América do Sul

O desenho da disputa é justamente o resultado da política expansionista iniciada por João Havelange e continuada por Joseph Blatter. Ásia e África ganharam voz, ganharam força e se tornaram confederações mais relevantes para o futebol mundial. Mais do que isso, ganharam votos. Com o sistema atual, os 209 associados da Fifa têm o mesmo peso. Portanto, a Europa e a América do Sul, os dois continentes mais fortes no futebol, não têm mais peso que Ásia e África que são, pelo panorama atual, opositores.

A chave da disputa é que Infantino considera possível quebrar os votos tanto da AFC quanto da CAF, ganhando algumas das federações para si e desmembrando o apoio que Salman recebe. Ele, claro, conta com toda, ou quase toda, Europa e espera também ter votos da Concacaf, que tem 41 países. A Confederação da América do Norte e Central é uma incógnita. Salman, por sua vez, espera quebrar o apoio de Infantino especialmente na América do Sul, de forma a se tornar forte, politicamente, e angariar votos.

O pleito, então, se traduz no candidato que é padrão na Fifa desde a sua criação, um europeu, com apoio das forças tradicionais tanto da Europa quanto da América do Sul. São os únicos continentes que tiveram presidentes da Fifa, na curta lista de mandatários da entidade, marcada por dirigentes que se eternizam no poder.

Desta vez, porém, há uma grande chance de termos um asiático dirigindo a Fifa, o que só se tornou possível justamente pelo trabalho que fizeram Havelange e Blatter. O criador perdeu o controle da criatura. Agora, Ásia e África surgem como forças que podem comandar a entidade do futebol. E o europeu, Infantino, terá trabalho para quebrar esse apoio.

Como funciona a disputa
Congresso da Fifa, em Zurique, em 2007 (KEYSTONE/Eddy Risch)
Congresso da Fifa, em Zurique, em 2007 (KEYSTONE/Eddy Risch)

Para ganhar em primeiro turno, um dos candidatos precisa ter dois terços dos votos, ou seja, 157 votos. Dificilmente isso deve acontecer. Nem Blatter se elegeu assim em 2015. Então, é bem possível que seja necessário uma segunda rodada de votos, o segundo turno. Se mesmo assim não for suficiente, o candidato com menos votos siará da disputa para um terceiro turno. Se a disputa já for entre dois, então será preciso apenas ter o maior número de votos, em maioria simples.

Eis, então, o papel preponderante que os demais candidatos podem ter, além de Salman e Infantino, especialmente o príncipe Ali bin Al-Hussein. Se ele abdicar da eleição em um segundo turno, como fez na sua eleição passada, pode indicar em quem seus eleitores votam e esse pode ser um ponto decisivo.

Curiosidades da eleição

Foram mais de 400 jornalistas credenciados para o Congresso da Fifa, um recorde. Nunca antes a Fifa precisou negar credenciais de imprensa, simplesmente porque não há lugares suficientes. Cerca de 50 emissoras de TV diferentes ao redor do mundo estão credenciadas. O evento será transmitido ao vivo pelo site Fifa.com e também por diversas emissoras.

O congresso também votará o processo de reforma da Fifa. Aliás, na agenda oficial do evento, este assunto vem antes da eleição, que é apenas o 11º de 12 tópicos tratados para todo o encontro. As reformas são tão importantes quanto a eleição, porque é o começo de uma nova Fifa, ou, ao menos, a tentativa que se apresenta para isso.

O congresso será na sexta-feira, às 4h da manhã de sexta (pelo horário de Brasília). Considerando a agenda, devemos ter uma definição sobre o novo presidente da Fifa cerca de 14h30, novamente no horário de Brasília.