Elizabeth II virou sinônimo da realeza britânica. A rainha completa 90 anos nesta quinta-feira, 63 deles no trono do Reino Unido. Pois a história de sua coroação se mistura com um dos episódios mais célebres do futebol local. Não há decisão da Copa da Inglaterra mais celebrada do que a de 1953. A “Matthews Final”, que consagrou o mítico Stanley Matthews graças à vitória de seu Blackpool por 4 a 3 sobre o Bolton. Pé quente de Elizabeth, que pela primeira vez aparecia nas arquibancadas de Wembley e condecorou os campeões.

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A Grã-Bretanha vivia um momento especial. Elizabeth II passara a reinar em fevereiro de 1952, após a morte de seu pai. Contudo, para respeitar o falecimento, a coroação aconteceria mais de um ano depois. E, às vésperas do evento, a rainha compareceu à final da Copa da Inglaterra. Sua presença simbolizava uma nova era no país, deixando a austeridade adotada para a reconstrução após a Segunda Guerra Mundial e assumindo a prosperidade. “Foi uma partida que interveio com as ideias de modernidade e tradição que tomaram a cultura britânica nos anos 1950. A nova rainha representava o otimismo no futuro, ligado ao progresso tecnológico impulsionado pela televisão”, analisaram Martin Jones e Gavin Mellor no artigo ‘A final de 1953: modernidade e tradição na cultura britânica’.

Segundo o levantamento da época, a audiência daquela decisão girou em torno de 10 milhões de espectadores, com a popularização da televisão ajudando a elevar os números. Afinal, havia um grande enredo envolvendo aquela partida. Stanley Matthews já era um craque consagrado de 38 anos e, enfim, tinha a chance de conquistar o grande título de sua carreira. O lendário ponta havia sido vice-campeão em duas oportunidades recentes, em 1948 e 1951. Aquela partida poderia ser o seu passo para a eternidade. Além do mais, Matthews contava com grande apelo popular. Um mágico com a bola e identificado com a classe trabalhadora.

Wembley estava abarrotado para a partida decisiva. Mais de 100 mil pessoas encheram suas arquibancadas, inclusive Elizabeth II, estrategicamente colocada na tribuna de honra. Puderam ver um show de Stanley Matthews. O camisa 7 fez jus às expectativas, liderando a impressionante reação do Blackpool ao lado do artilheiro Stan Mortensen, autor de um hat-trick. Restando 22 minutos para o final, o Bolton vencia por 3 a 1. Todavia, os tangerinas buscaram a virada. Matthews deu duas assistências, incluindo a do tento decisivo, de Bill Perry aos 47 do segundo tempo.

Durante a cerimônia de premiação, Elizabeth II entregou medalhas e o troféu. Além disso, enquanto o Blackpool celebrava em campo, a torcida foi orientada a dar vivas à nova rainha. Já no dia seguinte, os jornais davam ênfase tanto à conquista quanto à presença da monarca. “Era mais que um mero simbolismo. A final de 1953 foi reportada e construída pela imprensa ao lado destes outros eventos culturais, como a coroação e a evolução tecnológica, ajudando a moldar o pensamento das pessoas sobre o país em que viviam”, complementam Jones e Mellor.

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Ainda naquele mês de maio, a Copa da Coroação foi organizada em Glasgow para festejar o momento. Quatro times ingleses e quatro escoceses participaram: Celtic, Arsenal, Manchester United, Rangers, Newcastle, Aberdeen, Hibernian e Tottenham. Na decisão, diante de 117 mil presentes no Hampden Park, o Celtic do capitão Jock Stein triunfou diante do Hibernian por 2 a 0.

Em junho, exato um mês depois da Matthews Final, Elizabeth II era coroada diante de uma audiência de 20,5 milhões de pessoas no Reino Unido. Nova era que também contou com um amistoso especial da seleção inglesa, empatando por 4 a 4 com o “Resto da Europa”. Contudo, se a renovação das esperanças na sociedade britânica se concretizava, o futebol viveu um dos momentos mais sombrios em novembro: a derrota por 6 a 3 para a Hungria em Wembley. Aquele baque serviria para uma renovação gradual do esporte no país, deixando de lado a autossuficiência e a arrogância. Ainda assim, Stanley Matthews ainda se manteria no trono dos Three Lions até 1957, um ano depois de faturar a primeira edição da Bola de Ouro.

Considerada torcedora do West Ham, Elizabeth II se acostumaria a aparecer em outras decisões da Copa da Inglaterra, para premiar os campeões. Nos últimos anos, entretanto, passou a missão ao seu neto, Príncipe William, presidente da Football Association.


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