A primeira seleção estreante da Copa do Mundo de 2014 foi definida. E não haveria prêmio maior para a Bósnia-Hezergovina.  A torcida do país já esperava o feito há tempos, tanto pelas vezes em que bateu na trave nos anos anteriores quanto pela campanha fantástica que a equipe fazia nas Eliminatórias. A classificação foi sofrida, com a vitória por 1 a 0 sobre a Lituânia. Ainda assim, o suficiente para provocar uma comemoração enorme nos Bálcãs.

A seleção bósnia usufrui da melhor geração de seus 20 anos de história. O time treinado por Safet Susic venceu oito e só perdeu uma partida na competição. O ataque comandado por Edin Dzeko e Vedad Ibisevic marcou impressionantes 30 gols no qualificatório. Além disso, a defesa é uma das mais sólidas do torneio, com apenas seis gols sofridos. Uma união de virtudes essencial para a classificação, em um país que tem sua história marcada pela divisão.

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– Veja transmissão da TV bósnia após a classificação do país

Assim como o governo, a Federação Bósnia possuiu durante anos um sistema de tripartite. Até dezembro, eram três presidentes da entidade – um bosníaco (bósnio-muçulmano), um bósnio-croata e um bósnio-sérvio. A questão vai muito além da mera divisão de poder: é a solução encontrada para abrandar a divisão étnica que marca o país desde a Guerra de Independência. A mudança só aconteceu após pressão da Fifa e da Uefa. De qualquer maneira, a gestão segue dividida entre as etnias.

O próprio Campeonato Bósnio sofria com a cisão do país durante sua criação. Até 2000, o campeão nacional era definido a partir de um confronto entre o vencedor da liga bosníaca e o vencedor de outra bósnio-croata. Já em 2002, a competição unificada também passou a contar com os clubes bósnio-sérvios, que também mantinham um torneio independente. A partir de então, o título já passou pelas mãos das três etnias, em um campeonato fortalecido.

Várias etnias, uma seleção

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E a força da seleção se concentra justamente na junção dos diferentes grupos. Assim como acontece entre a população do país, a maior parte do elenco é composta por bosníacos. Muitos deles refugiados em outros países durante a guerra, mas que mantiveram o sentimento nacionalista mesmo longe dos Bálcãs – por exemplo, Asmir Begovic cresceu no Canadá, Miralem Pjanic foi a Luxemburgo.

Mas, apesar da maioria, a diversidade étnica é marcante no resto do grupo. O capitão Emir Spahic é filho de um montenegrino e de uma bosníaca, nascido em futuro território croata. Zvjezdan Misimovic é bósnio-sérvio que emigrou da Alemanha. Até mesmo no comando técnico a multiplicidade é clara, já que o técnico Safet Susic é bosníaco e tem como assistentes outro bosníaco e um bósnio-sérvio.

A integração que se repercute diretamente na população. “O país está arrasado por problemas políticos e econômicos. É lógico que isso reflete em nosso futebol, mas ir ao Brasil ajudará nas duas direções. Esse time une as pessoas. Há alguns anos, você não poderia imaginar bosníacos, sérvios e croatas torcendo pelo time, o que mudou agora”, analisa Susic. Não à toa, a celebração nas ruas do país foi efusiva (veja o vídeo abaixo).

Duas décadas atrás, a Bósnia chorava as dezenas de milhares de civis exterminados no massacre étnico – a estimativa é de 100 mil vítimas. Via a destruição nas ruas de suas cidades. Tentava se refazer após a conquista da independência. A passos lentos, os bósnios se firmam como país, ainda que as cicatrizes da guerra sejam profundas. E a classificação à Copa é importante não apenas para reafirmar o nacionalismo. Também é vital para unir uma população historicamente cindida, mas com um orgulho comum graças à seleção.