A cada quatro anos, um clima diferente se reflete no início da temporada europeia. Muitos podem questionar a valorização da Copa do Mundo, mas não se nega o peso enorme que ela possui dentro da elite do futebol internacional. E, de um jeito ou de outro, o que aconteceu naquele mês mágico na Rússia acaba realinhando os planetas, sob uma nova perspectiva quanto àquilo que se verá nos clubes – seja por novas contratações ou por jogadores que redefiniram suas imagens no Mundial. Assim, fazemos um breve apanhado dos efeitos da competição sobre os seis principais times da Premier League. Além do mercado, como é o impacto da Copa neste reinício de temporada. Confira:

Manchester City

Talvez fruto das grandes exigências físicas do trabalho de Pep Guardiola, a Copa do Mundo não refletiu quase nada do sucesso do Manchester City na temporada. Vários jogadores do elenco fizeram um Mundial de mediano para baixo, a exemplo de Kyle Walker, Gabriel Jesus, David Silva ou Fernandinho – e Danilo, especificamente, ainda voltou lesionado. O melhor foi mesmo Kevin de Bruyne. Não exibiu o mesmo nível visto no clube, ainda que seus lampejos tenham sido fundamentais à terceira colocação da Bélgica na competição. Com certas ressalvas, Vincent Kompany e John Stones podem integrar o grupo que merece menção honrosa. Retornam ao clube um pouco mais desgastados, pelas campanhas longas de suas equipes.

Ausências sentidas nas convocações ou reservas no Mundial podem dar um gás a mais ao City neste início de temporada. Neste ponto de vista, o que aconteceu com Leroy Sané e Aymeric Laporte, esquecidos por suas seleções, acaba sendo positivo. No mais, a comoção causada pelo torneio não gerou impactos no mercado dos Citizens. Candidato ao time titular, trouxeram apenas Riyad Mahrez, desejo antigo no Estádio Etihad. Já Daniel Arzani, mais jovem da Copa e que fez boas aparições com a Austrália, teve o negócio facilitado pela ligação com o Melbourne City e ainda deve passar por empréstimo nesta temporada. E o sinal primordial de que tudo continua estável no lado celeste de Manchester foi a atuação na Community Shield. Mesmo quem não se destacou na Rússia, como Sergio Agüero, demonstrou que o entrosamento continua afinado na equipe.

Manchester United

O grande reforço do Manchester United, de certa maneira, é Paul Pogba. O meio-campista sai muitíssimo fortalecido da Copa do Mundo por suas atuações em alto nível nos mata-matas, assim como pela liderança que demonstrou nos vestiários da França. Há a expectativa de que mantenha essa toada no clube. O que pode não ajudar muito são as cobranças de José Mourinho. Publicamente o treinador explicitou certas rusgas com o craque e precisa aproveitar melhor o seu potencial. O mesmo vale para Romelu Lukaku, outro que teve grandes exibições no Mundial. Apresentou um talento sub-aproveitado em Old Trafford, diante das insistências nas bolas longas, que não exploram sua mobilidade e sua potência nas arrancadas – algo de grande serventia à Bélgica. Já Victor Lindelöf se valorizou pela maneira como ajudou a Suécia até as quartas de final.

No mais, vários jogadores que não fizeram boa Copa ou que não geram grandes expectativas. A preocupação se concentra sobre David De Gea, péssimo com a Espanha na competição. Os Red Devils esperam que a crise de confiança com a Roja não afete sua ótima sequência. E, no mercado, um bocado de frustração. Fred chegou às vésperas do Mundial, mas sequer conseguiu se valorizar no torneio, afastado por lesão. Já o sonho de trazer algum reforço não se concretizou, sobretudo para a zaga. José Mourinho cresceu os olhos sobre alguns atletas que foram bem no torneio, como Harry Maguire e Yerry Mina, mas prevaleceu sua insatisfação por não conseguir nada.

Tottenham

No marasmo de mercado que viveu o Tottenham, o jeito é esperar um impacto positivo da Copa do Mundo. Afinal, são vários os jogadores que se saíram bem na campanha. Patacoada na final à parte, Hugo Lloris pegou muito ao longo do certame e foi o capitão da seleção campeã. Toby Alderweireld foi o melhor da defesa da Bélgica e, apesar de ofertas, permaneceu. Kieran Trippier se tornou protagonista da seleção inglesa como poucos imaginavam, especialmente por sua eficiência nas bolas paradas. Ainda ocorreram lampejos de Christian Eriksen e Heung-min Son, insuficientes às suas seleções, além do oportunismo de Harry Kane, que se desdobrou bastante, mas ficou devendo na hora de resolver os mata-matas.

A questão maior fica para a preparação dos Spurs. Como vários jogadores importantes compunham os elencos de França, Bélgica e Inglaterra, nada menos que nove titulares não fizeram a pré-temporada e só voltaram aos treinamentos nesta segunda, em cima da hora para o início da Premier League. A gestão de plantel será um fator fundamental para Mauricio Pochettino nas próximas semanas, evitando que os londrinos paguem por consequências mais custosas na sequência do campeonato.

Liverpool

Jürgen Klopp não pode reclamar muito das circunstâncias. Seu elenco sofreu pouco desgaste em relação à Copa do Mundo. Mohamed Salah mal conseguiu jogar com o Egito e voltou de lesão, assim como Sadio Mané não rendeu com Senegal. Tite preferiu deixar Roberto Firmino no banco e o centroavante chega preservado. As pressões maiores aconteceram mesmo sobre Dejan Lovren e Jordan Henderson, o que não foi completamente ruim. O zagueiro jogou pela Croácia o que quase nunca fez pelos Reds, repetindo a ótima forma vista na final da Champions. Neste sentido, a confiança pode ser muito importante. Além disso, Jordan Henderson também teve grande participação na longa campanha da Inglaterra e vem revigorado para reassumir a braçadeira em Anfield. Estão, além do mais, em setores agora mais bem servidos para as rotações.

As atenções se voltam agora a Alisson. Depois de todo o drama ocorrido com Loris Karius, inclusive com falhas na pré-temporada, a necessidade de um novo goleiro só se reforçou. Não fez o Mundial que se esperava, sem ajudar nas vezes em que acabou desafiado, mas não é isso que reduz seu moral. A temporada com a Roma serve de selo de qualidade, com a rápida adaptação nestas primeiras semanas contribuindo. Por fim, Xherdan Shaqiri desembarcou por um valor interessante após a queda do Stoke City. Teve o seu protagonismo na Copa, também pelos motivos políticos no duelo contra a Sérvia, e entrou com gás nos amistosos com o clube. Valoriza a noção de que os Reds voltam mais fortes.

Chelsea

A chegada de Maurizio Sarri deixa um cenário incerto em Stamford Bridge, principalmente pela mudança de conceito que acontecerá no Chelsea. Ainda assim, em nível de relevância, a Copa caiu bem aos Blues. Para muita gente, Eden Hazard merecia a Bola de Ouro do Mundial. Chamou a responsabilidade, partiu para cima dos defensores e teve um destaque em alto nível como se pedia em uma competição de mata-matas. O moral é inegável, principalmente se os londrinos conseguirem segurá-lo. No meio-campo, ainda há N’Golo Kanté, essencial na conquista da França com seu trabalho silencioso e eficaz. Ratificou seu posto como melhor volante do mundo. Chegam mais desgastados, mas também com patamares mais altos. Outro que poderia se juntar a esta prateleira era Thibaut Courtois, que preferiu assinar com o Real Madrid após receber a Luva de Ouro. Ao menos ajudou Roman Abramovich a receber um pouco mais, diante do fim do contrato.

De resto, uma porção de coadjuvantes que passou abaixo do radar ao longo do Mundial – ou não agradou, com o exemplo de Olivier Giroud, campeão e criticado, e ainda de Willy Caballero, ao menos reserva no clube. Dentre os contratados, Kepa Arrizabalaga passou incólume ao vexame da Espanha, até aclamado como um possível substituto de David de Gea, e Mateo Kovacic serviu apenas como peça na rotação da Croácia finalista. A ver ainda como será o rendimento de Willian, que fez apenas um bom jogo pela seleção brasileira, mas sai fortalecido da pré-temporada pela novela ao redor de sua permanência.

Arsenal

Dos candidatos às primeiras colocações, o Arsenal parece mesmo mais interessado em redefinir seus rumos do que pensar nos efeitos da Copa do Mundo. Até porque eles não são tão grandes assim. David Ospina foi bem pela seleção colombiana, mas é reserva no clube e pode até sair. Granit Xhaka teve alguns bons momentos, mas nada muito relevante. Já Mesut Özil chega desafiado a mostrar que sua carreira não está em declínio, depois das severas críticas pela falta de rendimento, que o levaram a abandonar a seleção alemã. O restante dos destaques do elenco, ou fazem parte de seleções ausentes (Aubameyang, Mkhitaryan, Ramsey, Cech) ou sequer ganhou a convocação (Mustafi, Lacazette, Leno).

Ao menos para o futuro, houve um bom indício que veio da Rússia. Enquanto a maioria absoluta dos reforços não disputou o Mundial, Lucas Torreira terminou como uma das grandes revelações. O volante ganhou uma oportunidade com Óscar Tabárez e a justificou, ajudando a arrumar o meio-campo do Uruguai. É o que se espera também no Emirates, com um nível de intensidade maior ao longo da temporada. Vem, aliás, por um preço justo em relação ao seu potencial e ao que poderá oferecer – €30 milhões. No mais, menção ainda a Stephan Lichtsteiner, um dos melhores da Suíça na competição e que veio sem custos aos Gunners.