A América do Sul promove um rodízio de países-sede da Copa América desde 1987. A última, em 2011, foi na Argentina, e o próximo da lista seria o Brasil, que não a recebe desde 1989. Mas há seis anos há conversas, idas e vindas, para que haja uma troca com o Chile. Embora os motivos tenham sido dados mais pelo lado brasileiro, foram os chilenos que quiseram realmente ter a maior competição de seleções da América do Sul, por motivos que vão muito além das quatro linhas.

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Lula e Ricardo Teixeira tiveram uma relação bastante amistosa enquanto ambos estiveram na presidência do Brasil e da CBF, respectivamente. Aliás, como sempre desde que assumiu a CBF, Ricardo Teixeira sempre teve boa relação com os governos. Hábil, ele sempre conseguiu ter força e independência, graças à sua negativa em receber dinheiro público de incentivos fiscais, como acontece em outras federações. Mas quando se fala em Copa América 2015, Lula e Ricardo Teixeira puxaram para lados diferentes.

Em 22 de fevereiro de 2011, o coordenador de operações do comitê organizador da Copa do Mundo, Ricardo Trade, confirmou em entrevista que a Copa América de 2015 seria no Brasil. “O calendário de competições é grande no país. Após a Copa do Mundo, nós teremos a Copa América e as Olimpíadas no Brasil. E todos os estádios podem ser utilizados”, declarou durante o Seminário Geral das Cidades-Sede da Copa de 2014. Mas a conversa sobre a troca com o Chile vem de bem antes disso.

Em 2 de novembro de 2009, Luís Inácio Lula da Silva cogitou a troca com a presidente Michelle Bachelet. Na época, ela conversou sobre o assunto com o presidente brasileiro em um encontro em São Paulo. “Espero que a Conmebol tome logo a decisão sobre a Copa América de 2015. Já demonstramos ter a infraestrutura e a organização necessárias”, disse, na época, a presidente Bachelet a uma TV estatal chilena. Lula tinha Bachelet como aliada política e concordou em fazer o favor ao país vizinho. Só faltava combinar com a CBF. E este foi um problema um pouco mais difícil de contornar.

Estádio Nacional do Chile, em Santiago (Foto: AP)
Estádio Nacional do Chile, em Santiago (Foto: AP)

Pelo lado brasileiro, dizia-se, a preocupação era o excesso de competições no país. Além da Copa das Confederações em 2013 e da Copa do Mundo em 2014, o Brasil ainda recebe a Olimpíada em 2016. Havia a preocupação que a CBF tivesse que paralisar o Campeonato Brasileiro por quatro anos consecutivos – sim, como se os dirigentes da CBF realmente estivessem sem dormir por causa do calendário do futebol brasileiro, que é uma piada há anos por culpa exatamente destes mesmos dirigentes.

A articulação começou no primeiro mandato de Bachelet, mas a mudança de sede do Brasil para o Chile foi anunciada no dia 24 de março de 2012, quando o chefe de estado chileno já era Sebastián Piñera. O presidente da federação de futebol do país, ANFP, Sergio Jadue comemorou. “Com emoção e alegria, tenho orgulho de anunciar que o Chile receberá a 44ª Copa América. Em 2015 será no nosso país e em 2019 será no Brasil. Organizaremos uma Copa América muito boa e esperamos deixá-la em casa, vencê-la”, afirmou o dirigente na época.

A troca foi articulada por muito tempo antes com Ricardo Teixeira, mas foi efetivada já sob a presidência de José Maria Marin, na época. “Os clubes ficariam prejudicados, pois certamente o Brasileiro teria de ser paralisado, justamente em um ano que tem tudo para levar multidões aos jogos, pois será realizado logo após a Copa do Mundo, com toda a estrutura que a maior competição de futebol do planeta deixará, com estádios modernos e todo um ambiente positivo que poderá se instalar no país”, disse Marin, na época, ao Globoesporte.com. Quase como se realmente se preocupassem com isso.

Muito mais do que a preocupação dos dirigentes brasileiros com um calendário, a questão era realmente mais política para o Chile. Lula, enquanto presidente, sempre foi favorável à troca com o Chile para sediar a Copa América apenas em 2019. O político brasileiro já tinha combinado com o então presidente da ANFP, Harold Mayne-Nicholl. Tudo estava acertado, mas Ricardo Teixeira não parecia disposto a trocar. Pelo contrário, fazia questão que a Copa América de 2015. A razão era simples: o dirigente já tinha prometido a algumas cidades que ficaram fora da Copa do Mundo de 2014, como Goiânia e Belém, que as incluiria como sedes do torneio continental. Era preciso manter a articulação.

Só que Ricardo Teixeira não durou muito mais. Renunciou à presidência da CBF e ao cargo no Comitê Executivo da Fifa após denúncias de corrupção em um processo na justiça suíça, no qual acabou tendo que assumir a culpa e devolver o dinheiro, antes de se isolar nos Estados Unidos. Com isso, o principal adversário do Chile para sediar o evento caiu. Se em 2011 a CBF anunciava que a competição seria no Brasil, em 2012 já foi diferente. Com a troca de comando na entidade que dirige o futebol brasileiro, a negociação ficou mais fácil. Marin abriu mão da competição e fez a troca com a federação chilena.

Com emoção e alegria, tenho orgulho de anunciar que o Chile receberá a 44ª Copa América. Sergio Jadue, presidente da Federação Chilena

A presidente Michelle Bachellet, no cargo desde o ano passado, sofre com a menor aprovação de toda sua passagem pelo Palácio de La Moneda. A presidente sofreu com o escândalo Caval, envolvendo o seu filho e sua nora recebendo propina de milhões de dólares em forma de empréstimo do vice-presidente do Banco do Chile, Andrónico Luksic Craig. Com o dinheiro, compraram terrenos e venderam com lucro de US$ 5 milhões, depois de pagarem o empréstimo. Um esquema de corrupção que abalou a confiança na presidente. Mas este foi apenas um dos escândalos.

Investigações mostraram financiamento político irregular, o que afetou partidos políticos e membros do Congresso e do poder executivo. Em pesquisa de opinião no Chile divulgada no dia 8 de junho, só 25% da população aprova o governo de Bachelet, eleita pela segunda vez em 2014, assim como Dilma Rousseff no Brasil. Mais do que isso, a desaprovação chegou a 62%. O país vive uma grave crise política e em maio a presidente pediu que todos os seus ministros renunciassem.

Em meio a tudo isso, há muitos protestos nas ruas, inclusive de estudantes, que pressionam o governo. Assim como aconteceu no Brasil, protestos tomam as ruas chilenas às vésperas de uma importante competição de futebol. A expectativa do governo é que a Copa América traga um pouco de paz em meio ao turbilhão. Ainda mais porque o Chile tem um time considerado forte, que tem capacidade para ser campeão. Na Copa do Mundo de 2014, ficou a um chute na trave de eliminar o anfitrião Brasil nas oitavas de final – aquele famoso chute de Pinilla. Uma pesquisa realizada pelo Centro de Estudos da Universidade San Sebastián mostrou que 61% dos chilenos acreditam que a seleção do país pode chegar à final. Com o técnico Jorge Sampaoli no banco e bons jogadores como Alexis Sánchez e Arturo Vidal, o time espera fazer bonito jogando em casa.

O otimismo pode ser bom também para o governo. Bachelet se diz empenhada em fazer reformas importantes, como do sistema tributário e educação, incluindo a universidade gratuita, um dos motivos de protesto dos universitários nas ruas. E, assim como no Brasil, a empolgação com o sucesso de uma competição pode trazer alívio em outras áreas. A Copa do Mundo de 2014 foi um sucesso em campo e no ambiente, nas cidades, mesmo com todos os problemas previstos. O Chile espera que o futebol sirva para trazer paz ao ambiente conturbado do país. Ao menos neste mês de disputa. Mais do que seus ministros, Bachelet torcerá por Bravo, Vidal e Alexis Sánchez como nunca.

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