A Copa América é o torneio mais antigo de seleções do mundo e carrega uma história imensa. Tem algumas das camisas mais pesadas do planeta, com três campeões mundiais, Uruguai, Brasil e Argentina, que somam nove taças. É na América do Sul que é disputado um torneio com características únicas, a Copa Libertadores. É justamente neste torneio que começou uma integração que tem tudo a ver com a Copa América Centenário de 2016: a união com a Concacaf.

Os times mexicanos começaram a participar da Copa Libertadores em 1998. A ideia era trazer a força dos times mexicanos, economicamente poderosos, e o forte interesse de público e TV. O grupo Fox Sports, parceiro da Conmebol na transmissão do torneio, tinha muito interesse que os clubes mexicanos disputassem a principal competição de clubes das Américas. Sim, porque a Concacaf Champions League, a popular Concachampions, tornou-se uma disputa apenas entre os times mexicanos. Tem sido comum ter quatro times do país nas semifinais.

A Libertadores ainda não foi vencida por um mexicano, embora os clubes daquele país tenham chegado à final três vezes (2001, com o Cruz Azul; 2010, com o Chivas; e 2015, com o Tigres). A discussão que os mexicanos suscitam na Conmebol é porque os times são tratados como convidados, afinal, não pertencem à Conmebol.

Por exemplo, uma das regras da competição, de o time de melhor campanha decidir em casa, não vale caso um mexicano chegue à final. Isso porque a Conmebol não quer entregar a taça da sua principal competição fora do seu território. Por isso, há quem queira a exclusão dos mexicanos. Outros, que eles sejam incorporados de vez, disputem para valer a Libertadores, sem ser como convidados. Só que isso exigiria uma mudança enorme. Já pareceu impossível. Atualmente, não parece mais.

A questão dos direitos de TV

A criação da Copa América Centenário é o primeiro passo para uma fusão entre as duas confederações, como dissemos em 2014. É uma forma de testar a aceitação do público, das seleções, do mercado publicitário e das TVs sobre o assunto. As TVs, aliás, são um ponto crucial nisso. Os mexicanos, como dissemos, entraram na Copa Libertadores justamente por interesses da TV. É importante lembrarmos que os times mexicanos representam um mercado não só no seu próprio país, mas também nos mexicanos e seus descendentes que moram nos Estados Unidos, a maior economia do planeta. E isso não é pouca coisa.

Um dado que ajuda a entender isso é o valor pago pelos direitos de TV da Copa do Mundo. Os dois maiores contratos no planeta são de emissoras americanas. Isso porque por lá há dois acordos de TV: um em inglês e outro em espanhol. A Fox comprou os direitos de transmissão em inglês para as Copas do Mundo de 2018 e 2022 por US$ 425 milhões. Já a Telemundo, que é da Comcast/NBC, pagou US$ 600 milhões pelos direitos da transmissão em espanhol. São os dois maiores contratos de TV da Copa do Mundo.

Reparem que os direitos em espanhol são mais caros que os em inglês, ainda que a diferença em relação ao contrato anterior tenha diminuído. O público latino-americano nos Estados Unidos vale muita grana. Em 2015, ainda houve uma renovação dos direitos de transmissão nos Estados Unidos e Canadá para a Copa de 2026 também, mas isso é outra história.

A diferença atual nos valores dos direitos de transmissão entre as competições da Europa e da América do Sul são gigantescos também nos torneios de seleção. A Eurocopa 2016 pagará mais de 12 vezes a premiação da Copa América Centenário. Isso, em parte, acontece porque os direitos de TV das competições sul-americanas são uma caixa preta. Em 2015, mostramos que o Fifagate pode abrir a caixa preta da Libertadores. Isso pode valer para a Copa América também. E, mais, pode ser uma válvula econômica que incentive a união entre Concacaf e Conmebol.

A participação do Fifagate

Um dos motivos que sempre complicou a união de Conmebol e Concacaf para as competições é a burocracia. Se as duas se unem, individualmente perdem poder. Afinal, como confederações elas recebem muito mais dinheiro da Fifa. Recebem, aliás, dinheiro direto da fonte. É o mesmo princípio pelo qual se cria um município: ter mais acesso a recursos federais diretamente. Isso sempre complicou a ideia de uma fusão entre as duas confederações de futebol da América. Até agora.

Em maio de 2015, o Fifagate devastou uma leva grande de dirigentes, especialmente os da Concacaf e Conmebol. Nós explicamos por que os Estados Unidos foram responsáveis pelas prisões de dirigentes da Fifa e isso tem tudo a ver com por que os dirigentes dessas duas confederações foram os mais afetados. Concacaf e Conmebol sofreram uma verdadeira devassa e muitos dos seus dirigentes foram presos.

Para começar na Concacaf, o trinitino Jack Warner presidiu a entidade em brancas nuvens de 1990 a 2011. Foi quando surgiu o primeiro de uma série de escândalos que culminaria no Fifagate, anos depois. Ele suspenso e perdeu o cargo. Mais tarde, acabaria banido do futebol e indiciado pela justiça americana.

Depois dele veio Lisle Austin, de Barbados, que teve um mandato relâmpago. Entrou no dia 30 de maio de 2011, acabou suspenso pelo Comitê Executivo da Concacaf no dia 4 de junho do mesmo ano. Mais tarde, foi banido pelo Comitê Disciplinar da Fifa. Ele tentou remover Chuck Blazer, na época secretário-geral da Concacaf, da sua posição. Não conseguiu. Tentou forçar a barra e acabou perdendo a guerra. Blazer seria o principal delator do Fifagate e, já nessa época, era monitorado e gravado pela justiça americana para denunciar outros dirigentes.

Veio então Alfredo Hawitt, de Honduras, que ficou interinamente na presidência da Concacaf de junho de 2011 a maio de 2012, até que foi eleito Jeffrey Web. Ele entrou para limpar a entidade, mas acabou preso e condenado no Fifagate pela justiça americana por diversos crimes financeiros. Hawit voltou à presidência interina por um ano, de maio 2015 a maio de 2016, quando foi eleito Victor Montagliani, presidente da Federação de Futebol do Canadá. Este, espera-se, não será derrubado pelo Fifagate.

A Conmebol não viveu uma situação muito melhor. Nicolás Léoz, que presidiu a entidade de 1986 a 2013, saiu por estar envolvido em escândalos de corrupção. O destino dos seus sucessores seria o mesmo. O uruguaio Eugenio Figueredo, de 2013 a 2014 e o paraguaio Juan Ángel Napout de 2014 a 2015, acabariam indiciados pela justiça americana por escândalos de corrupção. O Fifagate derrubou todos eles. Wilmar Valdez foi o presidente interino, por dois meses, até que o paraguaio Alejandro Domínguez foi eleito presidente da entidade em janeiro de 2016.

Se Conmebol e Concacaf eram duas entidades fortes demais politicamente para se unirem e perderem seus privilégios, isso mudou com o Fifagate. As duas entidades vivem uma situação muito mais frágil e podem ver na união uma forma de se salvarem. Afinal, os escândalos tiveram a ver com vendas de direitos de TV que deixaram os dirigentes com os bolsos cheios, mas os valores das competições ficaram abaixo do que poderiam. Por isso, com uma venda de direitos de transmissão mais transparente e aberta, a tendência é que os valores cresçam. Se a Copa Libertadores tiver times da MLS e do México, a tendência é que os valores dos direitos de TV explodam.

A MLS já sinalizou que quer participar da Libertadores um dia e a Conmebol já deixou no ar a possibilidade disso acontecer. Mais do que isso, se as confederações se unem, podem ter Eliminatórias da Copa do Mundo ainda mais fortes, com México e Estados Unidos, especialmente, e com a possibilidade de faturar muito, como acontece na Europa. Talvez até mais, pensando no mercado das Américas como um todo.

Não por acaso, o empresário Riccardo Silva tinha a ideia de fazer uma Libertadores das Américas, trazendo para a competição muito do que se vê na Champions League.

Por tudo isso, a Copa América Centenário, com todos os problemas que tem, ainda pode ser muito importante. Será um desafio técnico para a Concacaf, um teste para patrocinadores e para a torcida. Pode ser o começo de uma longa parceria entre as duas entidades, que podem até continuar existindo nos moldes da Ásia, que tem uma federação de cada região. Olhando para o que temos hoje nas Américas, juntar todas as Américas em uma só confederação pode ser um ótimo negócio a longo prazo em todos os sentidos: técnico, de competição, de negócios e de torcida.

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