A Copa Africana de Nações é, muito provavelmente, o mais global dos torneios continentais de futebol. A competição cultiva as raízes do futebol africano, mas apresenta um contexto bem mais amplo através de seus jogadores. Se muitas seleções no planeta, sobretudo as europeias, se impulsionam através do talento de imigrantes e descendentes de imigrantes africanos que buscaram novos horizontes, a recíproca também é verdadeira. Entre os jogadores nascidos em outros continentes ou que deixaram a África durante a juventude, há cerca de 180 expatriados na CAN 2019.

Estes jogadores “estrangeiros” muitas vezes representam uma realidade que vai além do futebol. Seus pais e seus familiares se mudaram a outros países em busca de melhores condições de vida ou mesmo da sobrevivência, como refugiados de guerra. A oportunidade que os garotos recebem nas novas nações através do futebol tantas vezes é a maior chance de ascensão e a própria estrutura de desenvolvimento dos clubes locais os beneficia. Preparados ao futebol europeu, acabam recrutados de volta pelas seleções de suas terras ancestrais – e, alguns, também com bola para defender as equipes nacionais das novas terras.

Se o início da Copa Africana de Nações está diretamente ligado a um forte contexto geopolítico, de afirmação nacional em meio ao processo de descolonização, o torneio não deixou de refletir a atualidade do continente. As seleções africanas simbolizam a globalização. Muitos atletas não deixam de se sentir europeus, mas também sabem da importância de valorizar as origens africanas. O rompimento, que marcou tanto os primórdios da CAN diante das guerras de independência e é fundamental para se entender aquele panorama, foi perdendo sentido com o passar das décadas. Ainda que, hoje, a competição não deixe de ser uma maneira de botar em evidência a cultura africana. Uma cultura moldada pela imigração e pela integração.

Abaixo, a partir de um estudo amplo sobre as origens dos jogadores convocados à Copa Africana de Nações de 2019, indicamos alguns quadros interessantes que o torneio ajuda a revelar. Foram priorizados os exemplos de atletas que nasceram em outros países ou se mudaram durante a adolescência, com motivações não necessariamente atreladas ao futebol. Os casos de futebolistas que, em idade profissional ou próxima à profissionalização, se mudaram à Europa não interessam tanto – exatamente por serem ainda mais frequentes. A ideia é perceber os movimentos ligados também a condições políticas, econômicas e sociais. Os números foram baseados a partir de um levantamento próprio, posteriormente apoiado por artigo do site Les Remplaçants, com números gerais das origens da CAN. Confira:

A onipresença dos franceses

Dos 24 países que participam da Copa Africana de Nações, 11 eram possessões da França quando conquistaram as suas independências. As ligações permanecem mais de cinco décadas depois, algo refletido diretamente no futebol. Enquanto a seleção francesa se beneficiou de imigrantes e filhos de imigrantes para conquistar a Copa do Mundo, o processo na Copa Africana de Nações é mais amplo e difuso. Mais de 80 jogadores convocados à competição continental nasceram em território francês. Além disso, também há mais de uma dezena de africanos que se mudaram à França durante a infância ou a adolescência, não necessariamente para desenvolver a carreira no futebol, e acabaram se tornando jogadores, convocados à CAN.

A partir da década de 1980, os fluxos migratórios dos países africanos se intensificou rumo à França. A regularização massiva de estrangeiros promovida pelo governo francês contribuiu para tal movimento, assim como a busca por oportunidades e melhores condições de vida. A geração de franceses que disputa a Copa Africana de Nações, em sua maioria, é a de filhos desses imigrantes que rumaram à Europa. Os laços linguísticos e culturais se mantinham, impulsionando a população das antigas colônias à metrópole francesa.

Sem qualquer coincidência, um número considerável desses atletas nasceu em Paris e seus subúrbios. São pelo menos 11 jogadores da capital, assim como ao menos 27 nasceram nas demais cidades da região metropolitana. Segundo o censo de 2006, cerca de 40% dos imigrantes vivendo na França se concentravam na chamada Île-de-France, a zona administrativa parisiense. Além disso, 33% da população local abaixo dos 18 anos em 2018 era composta por filhos de imigrantes. Alguns deles optaram por defender os Bleus, com o exemplo de Kylian Mbappé, filho de uma argelina e de um camaronês. Uma legião, todavia, preferiu resgatar suas origens. Seja por questão de espaço ou de orgulho nacional, decidiram vestir a camisa do país de seus pais.

A estrutura dos clubes franceses, naturalmente, contribui para que esses filhos de imigrantes se desenvolvam mais no futebol do que os jogadores lapidados pelos clubes africanos. Não à toa, muitos se mudam da África para a França no final da adolescência. Além disso, a própria estrutura dos Bleus contribui para esta parcela de franceses na Copa Africana de Nações. Desde 1988, a academia de Clairefontaine capta prodígios ao redor do país e os submete a períodos de treinamentos qualificados a partir dos 13 anos. Muitos deles saem dos clubes menores do país às agremiações profissionais. Todos os anos, uma fornada de talentos conclui sua jornada no sistema de ensino. Nem todos são absorvidos pelas seleções francesas de base e ainda menor é o número daqueles que chegam ao nível principal. Assim, também há um material humano considerável que pode seguir às seleções africanas. Yacine Brahimi, Mehdi Benatia e Marcel Tisserand são exemplos nesta CAN.

O assunto já gerou discussões amplas e preconceituosas. Em 2011, a federação francesa chegou a cogitar uma “cota” a futebolistas africanos e árabes em seus centros de formação. A intenção era justamente limitar os “reforços” às antigas colônias. Eles teriam apenas 30% das vagas disponíveis em Clairefontaine. O esquema foi denunciado e barrado. Além de ser discriminatório, ele poderia ser um limitador ao próprio aprimoramento dos prodígios aos Bleus. O destino, de qualquer maneira, fica nas mãos do jogador. Cabe a ele escolher se quer tentar progredir nas equipes francesas ou mudar de rumo às terras ancestrais.

Muitas federações adotaram uma política aberta de recrutar os filhos de imigrantes para as suas seleções principais. O processo é mais notável na Argélia, que possui clubes menos expressivos em relação a outros vizinhos do norte da África, enquanto conta com um enorme contingente populacional na França. Dos 23 convocados, 14 são franceses de nascimento. A lista inclui alguns protagonistas das Raposas do Deserto, com menção principal a Riyad Mahrez. O ponta nasceu na Ilê-de-France, de pai argelino, e não chegou a passar pelas seleções de base francesas quando recebeu o chamado da Argélia. É diferente de Sofiane Feghouli, que vestiu a camisa dos Bleus no sub-21.

Outra ex-colônia francesa no norte da África a participar da CAN 2019, o Marrocos possui oito convocados que nasceram na França. Já na Tunísia, são seis franceses. A proximidade geográfica pode ser apontada como um facilitador ao trânsito, embora essa visão vá além do futebol. Os três países do Magrebe são os africanos que mais possuem imigrantes no território francês. Uma estimativa realizada pela demógrafa Michèle Tribalat apontou que, em 2011, cerca de 4,6 milhões de pessoas com origem magrebina vivia na França, considerando também os filhos e os netos daqueles que imigraram.

Ainda assim, há seleções expressivas na África Subsaariana que igualmente tiram proveito dessa possibilidade. Em Senegal, são nove jogadores franceses. Kalidou Koulibaly é o principal nome. O zagueiro é filho de senegaleses e chegou a disputar o Mundial Sub-20 com os Bleus. Contudo, quando já era cogitado por Didier Deschamps para a equipe principal, assumiu sua preferência pelos Leões de Teranga. Se nem todos são percebidos pelas seleções africanas de base, as facilidades aumentam no nível principal. É por isso que, muitas vezes, a escolha pelo país africano não é imediata. Guiné (7 jogadores), Benin (6) e Camarões (6) são outros subsaarianos bastante representados.

Ao todo, 14 seleções possuem ao menos um francês de nascimento em seu elenco. Todas as 11 colônias têm pelo menos um representante. E, como potência econômica, a França vira destino de imigrantes de outros países africanos que não foram suas posses. A República Democrática do Congo possui uma comunidade significativa, também por proximidade da língua. São seis jogadores franceses em seu elenco. Já em Guiné-Bissau, um território lusófono cercado por francófonos, tem dois atletas franceses – Frédéric Mendy e Joseph Mendes.

O peso dos outros países europeus

A presença de outras nacionalidades europeias na Copa Africana de Nações é menos numerosa. No entanto, é possível notar uma relação que tem menos a ver com o histórico colonial. Há uma representatividade de outros fluxos migratórios, seja pela proximidade geográfica, seja pelas perspectivas econômicas. E que se percebem não apenas pelo local de nascimento dos atletas, mas também no país onde cresceram.

São apenas cinco ingleses de nascimento na CAN 2019. Quatro deles defendem antigas possessões do Império Britânico na África: Uganda, Zimbábue, Nigéria e Gana. Em compensação, pelo menos nove atletas se mudaram ao Reino Unido durante a infância ou no início da adolescência, sem motivações necessariamente ligadas ao futebol. São os garotos que, ao lado de suas famílias, buscaram um novo país para condições melhores de vida. E um dado significativo é que sete destes futebolistas nasceram em nações africanas que não foram colonizadas pelos britânicos. Há um fator econômico bem mais claro que influenciou os rumos, assim como motivações causadas por guerras e perseguições políticas.

Três destes jogadores são da República Democrática do Congo. Yannick Bolasie tem pais congoleses, mas nasceu na França, antes que a família fosse para a região de Londres quando o menino tinha sete meses. Já Britt Assombalonga também se mudou à capital, deixando Kinshasa aos oito meses. Há o caso do marfinense Wilfried Zaha, que saiu de Abidjan quando tinha quatro anos, ao lado dos pais e dos outros irmãos, se estabelecendo nos subúrbios londrinos. Ou ainda de Evandro Brandão, angolano de Luanda que passou alguns anos em Portugal, até desembarcar na Inglaterra aos nove anos.

Proporcionalmente, o número de imigrantes destes países africanos no Reino Unido é bem menos significativo se comparado com o das antigas colônias britânicas. Ainda assim, o surgimento destes exemplos no futebol está ligado principalmente ao crescimento dos fluxos durante a década de 1990. A quantidade de imigrantes da África Sub-Saariana ao Reino Unido quadruplicou neste período, chegando a 20 mil por ano durante o final do século. Os congoleses representam o terceiro país com mais pedidos de asilo político, fugindo dos últimos anos de uma sangrenta ditadura, antes que a Primeira Guerra do Congo estourasse em 1996.

É bem possível que o número de jogadores que nasceram ou cresceram na Inglaterra aumente nas próximas edições da Copa Africana de Nações. Na última década, a média de imigrantes da África Sub-Saariana rumo ao Reino Unido atingiu a média de 30 mil por ano e estudos recentes indicam que esta curva se acentuou mais desde 2010, em toda a Europa, com a força econômica dos britânicos tornando o país um destino visado. E, considerando a própria estrutura do futebol inglês, sobretudo em Londres, o esporte se transforma em oportunidade.

A Holanda possui uma realidade mais consolidada nestes fluxos migratórios que não estão diretamente ligados à colonização. Oito jogadores convocados à Copa Africana nasceram em seu território. Nada menos que seis deles são marroquinos. A imigração do Magrebe aos Países Baixos se fortaleceu principalmente na década de 1970, após um tratado de cooperação entre os países para admitir trabalhadores. São estimados quase 400 mil pessoas de origem marroquina na Holanda, incluindo os descendentes que já nasceram por lá.

A presença desta população magrebina no próprio Campeonato Holandês é significativa. E, por mais que costumem passar pela Oranje na base, muitos acabam optando pela seleção marroquina no nível principal. É o caso de Hakim Ziyech e o de Nordin Amrabat. Há ainda um marroquino nascido na Bélgica, o polivalente Nabil Dirar. O país vizinho, aliás, têm dois jogadores nascidos em seu território na CAN e três crescidos por lá. As ligações também são fomentadas pelo colonialismo belga na República Democrática do Congo e no Burundi, com um representante em cada uma dessas seleções.

Menos numerosa que a comunidade marroquina na Holanda, mas significativa, a Alemanha possui um grupo de imigrantes tunisianos em seu país – estimulada por um acordo parecido entre os governos, assinado em 1965. Dois jogadores da seleção da Tunísia nasceram em território alemão. De maneira similar ao que ocorre no Reino Unido, a Alemanha também atrai populações da África Sub-Saariana por sua força econômica. O país possui atletas nos elencos de Nigéria, Benin e Camarões – este, o único com alguma ligação colonial com os germânicos, encerrada durante a Primeira Guerra Mundial.

A Espanha, com seis jogadores na Copa Africana, já apresenta um outro cenário. Dois destes atletas defendem a seleção de Marrocos – cuja proximidade geográfica e a história colonial explicam o fenômeno. O goleiro Munir Mohamedi, inclusive, nasceu em Melilla, cidade autônoma espanhola que fica no próprio norte da África. Os outros quatro espanhóis, todavia, defendem seleções da África Sub-Saariana: Senegal, Guiné, Guiné-Bissau e Quênia.

Todos eles nasceram nos anos 1990, justamente o período em que este fluxo rumo à Espanha se intensificou. A regularização dos imigrantes ofereceu reais dimensões sobre seu número na virada da década, quando a quantidade triplicou, passando dos 110 mil em 2003. A proximidade geográfica é um facilitador, não só pela proximidade do Estreito de Gibraltar, bem como por territórios como Melilla e Ilhas Canárias. Também não surpreende que três desses atletas subsaarianos sejam da Catalunha, onde vivem quase 28% destes imigrantes. Keita Baldé é o caso emblemático, também por representar a comunidade senegalesa, a maior sub-saariana no país.

A proximidade geográfica também pode gerar um efeito crescente parecido em relação à Itália, outro país de colonização limitada na África, mas que vira destino de imigrantes através do Mediterrâneo. As comunidades de países como Senegal e Nigéria duplicou durante esta década. E os primeiros nomes ascendem nesta Copa Africana, como se nota também na seleção italiana. Caleb Ekuban defende Gana, mas nasceu em Verona. Já o senegalês Alfred Gomis se mudou a Piemonte com a família quando tinha três anos. Chegou a ser convocado pela Azzurra na base.

Por fim, vale mencionar outros dois países que recebem intensos fluxos migratórios e possuem alto índice de desenvolvimento humano, igualmente presentes na Copa Africana de Nações. Dois jogadores que cresceram na Suíça compõem a equipe da República Democrática do Congo. Há também três convocados que nasceram na Suécia – dois no elenco de Guiné e um no elenco de Uganda. O caso mais notável, todavia, é de outro ugandense. Lumala Abdu nasceu em Kataba e, sem conhecer o pai, perdeu a mãe com meses de vida. Criado pela avó materna em condições de pobreza, ganhou uma passagem para a Suécia, onde tentaria uma nova vida. Desembarcou no país aos 16 anos e foi abandonado no aeroporto pelo homem que deveria acompanhá-lo. O adolescente acabou acolhido por um programa governamental e também ganhou uma oportunidade em um clube local. Mesmo sem nunca ter atuado por uma equipe em seu país, vingou como profissional. Agora, vira um símbolo na CAN 2019.

A seleção de refugiados

Ainda nesta perspectiva de imigração da África à Europa, esta Copa Africana de Nações guarda alguns casos de jogadores que foram refugiados de guerra durante a juventude, buscando outros países para sobreviver. A presença de Burundi, palco de um dos genocídios mais sangrentos do Século XX, escancara esta situação. São ao menos três jogadores que deixaram o território onde nasceram e estão agora no torneio continental.

Saido Berahino teve seu pai morto durante a Guerra Civil de Burundi, em 1997. Permaneceu no país até 2003. Tinha dez anos quando viajou sozinho para a Inglaterra, onde deveria se encontrar com seus irmãos e com sua mãe. Porém, foi parar em um abrigo e só reviu a família mediante uma comprovação de DNA. Cresceu na região de Birmingham e passou por todos os níveis de base da seleção inglesa. Sem que sua carreira progredisse como o esperado, terminou por optar por seu país-natal no nível principal.

A história de Gaël Bigirimana é parecida. O volante chegou a viver antes em Uganda, até se refugiar no Reino Unido quando tinha 11 anos, também ao lado da família. Já Elvis Kamsoba foi levado a um campo de refugiados na Tanzânia quando tinha quatro meses de idade. Morou no local até os 11 anos, antes de se mudar para a Austrália com a família. O futebol virou um caminho para se integrar ao novo país. Seu irmão mais novo também se profissionalizou no esporte, embora ainda não tenha recebido convocações da seleção burundiana.

O trabalho de formação dos portugueses

Portugal merece um tópico à parte em sua relação com a Copa Africana de Nações. Duas antigas colônias portuguesas participam do torneio em 2019 e, obviamente, há um número considerável de jogadores nascidos no território lusitano. Seis no total, dois defendendo Angola e outros quatro vestindo a camisa de Guiné-Bissau. Os angolanos Bruno Gaspar e Wilson Eduardo chegaram a atuar pela Seleção das Quinas na base, assim como o bissauense Pelé, vice-campeão mundial sub-20 em 2011. Contudo, a ligação é bem mais intensa do que isso.

Em ambos os elencos, são mais frequentes os casos de jogadores que deixaram a África rumo à Europa durante a infância. Angola possui pelo menos três jogadores que, antes da adolescência, se mudaram a Portugal. Em Guiné-Bissau, este número salta para sete atletas. Os fluxos migratórios entre os países se ampliaram principalmente entre os anos 1980 e 1990. E a própria perspectiva de tentar vingar como jogador profissional acaba determinando as migrações. Os clubes portugueses aproveitam amplamente o “pé-de-obra” que desembarca no país em suas categorias de base e possuem enorme influência formativa.

Conforme os dados do site Les Remplaçants, 26 jogadores fizeram sua transição aos profissionais em clubes de Portugal. Contam aqueles que se mudaram ainda crianças para a Europa ou nasceram por lá, mas considera também os jogadores captados em seu país de origem para evoluírem nas academias lusitanas. Apenas a França supera esta quantidade. Ela reflete um modelo antigo, praticado desde os tempos de colônia, em que filiais das principais agremiações portuguesas realizam a primeira peneira na África – Eusébio, o maior de todos, foi descoberto assim. Capitão da seleção de Guiné-Bissau, o meio-campista Zezinho começou no Sporting Bissau, antes de ser levado ao Sporting já no nível principal.

Em Angola, este cenário é um pouco mais restrito, considerando a importância de alguns clubes locais. Primeiro de Agosto e Petro Atlético são relevantes na formação. Já em Guiné-Bissau, o trânsito de adolescentes é bem maior. Somente dois jogadores da seleção na CAN 2019 fizeram esta transição na liga local. Enquanto isso, 16 atletas ascenderam nos clubes de Portugal – sete deles em Benfica ou Sporting, os dois principais captadores.

Antigo ídolo do Porto e diretor de observação do clube, Fernando Gomes afirmou em 2018 que diferentes motivos levavam o clube a trabalhar a prospecção na Guiné-Bissau: a velocidade, a agressividade, a qualidade técnica e o caráter dos jogadores locais. Em 2013, o veterano Paulo Torres afirmou que o país era uma “mina de ouro”, ao desembarcar no Sporting Bissau. Com a procura se tornando mais constante nos últimos anos, não apenas a seleção bissauense se fortaleceu, como também aumentou o número de jogadores nascidos no país defendendo Portugal. O atacante Bruma, que chegou a Portugal por intermédio do Sporting Bissau, é um desses exemplos. Isso sem falar em Éderzito, que migrou na infância.

E a influência dos clubes portugueses se estende além da África Lusófona. Os times lusitanos foram capazes de lapidar um jogador de Gana, um da Nigéria e um de Guiné. Que não possuam o dinheiro ou a influência de outras grandes ligas, o próprio trabalho com outras promessas referenda nestas contratações.

Migrações na própria África

As migrações internas na África são menos perceptíveis na CAN 2019, mas não inexistentes. Conflitos locais e guerras civis ajudam a explicar os movimentos internos, e não apenas isso. Em um continente no qual as fronteiras muitas vezes foram forjadas, há relações de pertencimento mais diluídas. O desenvolvimento interno também influencia. Existem migrantes procurando melhores condições de vida em nações vizinhas, seja por oportunidades de emprego ou até por condições de agricultura.

Abdoul Ba nasceu em Dacar, em 1994, e se mudou para a França durante a infância, mas é o capitão da Mauritânia. Entre 1989 e 1991, houve uma guerra entre mauritanos e senegaleses, com pano de fundo étnico. Como resultado, cerca de 70 mil mauritanos negros foram expatriados ao país vizinho durante os anos 1990. Saturnin Allagbé, por sua vez, nasceu em uma região fronteiriça da Mauritânia em 1993 e se mudou a Benin durante a infância. Já o marfinense Moussa Doumbia nasceu em Bamako, capital do Mali, que chegou a receber muitos refugiados da Costa do Marfim durante os períodos de conflitos civis.

Se estes são casos isolados e de difícil dimensão do impacto mais amplo, o mesmo não acontece em Madagascar. A seleção, novata na Copa Africana de Nações, recorreu bastante ao futebol francês para se fortalecer. Dos 23 convocados, nove deles nasceram na França. Mas cinco possuem ligação com as Ilhas Reunião, território ultramarino francês que fica a cerca de 700 km de distância de Madagascar no Oceano Pacífico. A ocupação do arquipélago foi realizada inicialmente por malgaxes, juntamente com franceses. E a comunidade de imigrantes do país vizinho também é considerável – segundo destino mais comum, atrás apenas da própria França.

O atacante William Gros nasceu em Reunião e ganhou sua convocação por Madagascar graças à ligação proporcionada por sua tataravó. Thomas Fontaine e Melvin Adrien também nasceram na ilha. Os dois últimos deslancharam no futebol após a mudança à França, mesmo caso de Romain Métanire, que nasceu em Metz, mas de relação familiar com ambas as ilhas. No entanto, vale pontuar que o desenvolvimento maior do futebol de Reunião em relação a Madagascar contribui a esta importância. Há jogadores malgaxes que estabelecem suas carreiras no território vizinho. Três atletas da CAN defendem o Saint-Pierroise, principal clube de Reunião – responsável por descobrir Dimitri Payet, principal nome surgido na liga local.

Os africanos de origem europeia

Quando se pensa na relação colonial do futebol africano, é natural relacionar com os grupos étnicos locais que migraram à Europa. Porém, também há exemplos do caminho contrário. Jogadores de origem europeia, mas ligações com países africanos, que optam por defender as seleções locais. É mais comum em nações do sul continente, que se integraram nas últimas décadas, após adotarem uma política de Apartheid. O futebol também se abre às antigas camadas privilegiadas compostas por colonizadores europeus.

Na África do Sul, a presença de jogadores de origem holandesa e inglesa já foi mais numerosa, principalmente nos anos 1990 – logo após o fim do Apartheid. Nesta Copa Africana de Nações, o único a ter nascido fora do país é o atacante Lars Veldwijk. Proveniente da cidade de Uithoorn, ele é filho de um sul-africano de origem holandesa e ganhou sua primeira convocação em 2016. Outro caso é o de Dean Furman, de ascendência inglesa e judeu, que nasceu na Cidade do Cabo. Chegou a mudar-se para a Inglaterra na adolescência, retornando à África do Sul como profissional. E também há o exemplo de Daniel Cardoso, filho de um imigrante português que se estabeleceu em Joanesburgo ainda jovem.

Outra seleção a possuir um jogador africano de origem europeia é a Namíbia. Colônia alemã até 1915, tornou-se um território administrado pela África do Sul, aplicando igualmente um regime de Apartheid e só ganhou a independência em 1990. Manfred Starke nasceu na cidade de Windhoek, um ano depois da cisão. Sua mãe é holandesa e seu pai é teuto-namíbio, ex-jogador de futebol e também treinador. O prodígio logo seguiria à Alemanha para tentar a sorte e, quando tinha 13 anos, assinou com o Hansa Rostock. Apesar da carreira feita nas divisões de acesso da Bundesliga, sempre defendeu as seleções de base da Namíbia. Já a sua irmã mais nova, Sandra, atua no Freiburg e jogou pela Alemanha na base.

O bastião nacional

Diante de tamanha influência das migrações, o Egito surge como principal exceção. É a única seleção que têm todos os seus jogadores formados pelos clubes locais e uma das duas únicas, ao lado da Namíbia, em que todos nasceram no país. A realidade distinta engloba tanto fatores históricos quanto políticos. Afinal, os egípcios possuem uma história política mais sólida e relativa força continental. Além disso, o futebol local é mais estruturado e mais rico que o restante do continente. Com uma boa base local, a seleção fica menos dependente de talentos que tenham sido lapidados na Europa.

A África do Sul se aproxima, também pela força de sua liga local. São 20 atletas dos Bafana Bafana formados nos clubes do país. E essas agremiações ainda atraem futebolistas de diversos vizinhos, por seu estágio profissional. A ABSA Premiership é a segunda liga mais representada na CAN 2019, com 43 atletas, cinco a menos que a Ligue 1. No mais, esse fenômeno de formação concentrada nos torneios domésticos acaba restrito a outras seleções onde o futebol é incipiente, menos visadas para ceder seu talento à Europa.

Burundi, Uganda, Zimbábue, Namíbia, Quênia e Tanzânia são os outros países que possuem entre 19 e 22 jogadores formados pela liga local, conforme os números do Les Remplaçants. Quatro deles foram colônias do Império Britânico e possuem comunidades razoáveis de imigrantes no Reino Unido. Ainda assim, não têm um peso histórico tão notável no futebol. Namíbia e Zimbábue, em particular, ainda cedem seus jogadores ao Campeonato Sul-Africano após alcançarem o nível principal. São “satélites” da Premiership.

Os filhos e os irmãos de jogadores

É interessante perceber como o futebol representa uma oportunidade de vida e se reflete dentro destes fluxos migratórios. Afinal, muitos desses “estrangeiros” na CAN 2019 são a segunda linhagem de africanos que rumaram à Europa para ganhar sua vida através do futebol. Além dos genes privilegiados, os filhos ganham a vantagem de poder se desenvolver em um ambiente favorável. Mantêm no legado na competição continental.

O caso mais clássico é o dos irmãos André e Jordan Ayew. Os filhos de Abedi Pelé nasceram na França, durante os anos em que o pai conquistava a idolatria da torcida do Olympique de Marseille. O mesmo vale para o camaronês Jean-Armel Kana-Biyik, oriundo de Metz. Seu pai é André Kana-Biyik, referência da seleção camaronesa nas Copas de 1990 e 1994, que atuou na Ligue 1 durante boa parte de sua carreira. E, se estes são os principais nomes, há um número maior de filhos de jogadores de ligas menores e divisões de acesso que superaram a carreira de seus pais.

Além do mais, a escolha familiar não costuma ser unânime. Não são poucos os episódios em que irmãos jogam por seleções distintas. Um dos goleiros da República Democrática do Congo é Parfait Mandanda. Ele é irmão mais novo de Steve Mandanda. Enquanto o primogênito nasceu em Kinshasa, pouco antes que a família se mudasse a Évreux, o segundo filho já veio ao mundo na cidade francesa. Entretanto, as oportunidades com os Bleus só apareceram a Steve, levando Parfait a optar pelos Simbas.

Algo parecido ocorreu com Wilson Eduardo e João Mário. Os portugueses são filhos de angolanos, ambos com passagens pelas seleções de base. Mais velho, Wilson chegou a recusar o chamado dos Palancas Negras em 2013, mas sua carreira não deslanchou. Voltou atrás cinco anos depois e virou o herói da classificação à CAN. Enquanto isso, o caçula é campeão da Eurocopa com a Seleção das Quinas. A seleção angolana ainda tem Djalma Campos, filho de Abel Campos. Nascido em Luanda, mudou-se a Lisboa quando criança, depois que o pai assinou sua transferência ao Benfica.

A ascensão das academias

Por fim, há um fenômeno cada vez mais crescente no continente africano e que, se não transparece necessariamente na origem dos jogadores, têm suas explicações sócio-econômicas. Um caminho constante ao desenvolvimento de futebolistas é o surgimento das academias de futebol em diversos países africanos, sobretudo os subsaarianos mais tradicionais no esporte. Um investimento em base, que traz perspectivas aos garotos, ao mesmo tempo em que pinça talentos de maneira frequente. Se a contratação de jogadores em fim de formação é uma prática comum dos principais clubes da Europa há décadas, mais recentemente os investidores encontraram um caminho comum para o próprio preparo deste “pé-de-obra”.

A academia pioneira na África é a JMG, fundada por Jean-Marc Guillou, antigo jogador da seleção francesa. A parceria inicial foi firmada com o ASEC Mimosas, da Costa do Marfim, e contribuiu bastante aos Elefantes com sua fortíssima geração formada na década passada. Guillou ampliou os negócios para outros países e um jogador de sua filial malinesa estará na CAN, o meio-campista Amadou Haidara, que de lá seguiu ao Red Bull Salzburg.

A origem da academia pode ser a mais diversa. E são múltiplos os exemplos de jogadores que se beneficiaram destas estruturas. A Red Bull teve sua própria filial em Gana, que descobriu o goleiro Lawrence Ati-Zi antes de fechar as portas em 2014. Senegal possui uma filial da Academia Aspire, criada pelo Catar para projetar a seleção do país – e que, segundo as suspeitas iniciais, levaria jogadores africanos também à sua equipe nacional. De lá saíram o lateral senegalês Moussa Wagué e também o goleiro nigeriano Francis Uzoho. Em Senegal, o trabalho mais reconhecido é da Génération Foot, que possui uma parceria com o Metz. Foi o caminho realizado por Sadio Mané.

O caso mais bacana é o de Camarões. Samuel Eto’o criou sua própria academia em Douala e tem oferecido constantes jogadores à sua seleção. Três convocados pelos Leões Indomáveis saíram de lá, incluindo os goleiros Fabrice Ondoa e André Onana. A ligação do ex-atacante com o Barcelona ainda permite que esses prodígios terminem sua etapa formativa nas categorias de base blaugranas. Ainda na adolescência, encorpam a massa imigrante que está tão presente na CAN. Caminhos que devem seguir influenciando no caráter global do torneio continental.