João Havelange foi o dirigente mais poderoso do mundo do futebol por décadas. Mas nesta terça-feira, abriu mão do último elo com a Fifa. O brasileiro deixou seu cargo de presidente de honra da entidade, depois do comitê de ética criticar duramente o comportamento do dirigente por aceitar propinas.

O relatório do presidente do comitê, Hans-Joachim Eckbert, chama o ex-presidente de “moralmente e eticamente reprovável”. O texto ainda diz que Havelange, Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF, e Nicolaz Leoz, que renunciou à presidência da Conmebol, receberam propinas da ISL, empresa de marketing esportivo suíça. O curioso da história é que embora o relatório confirme as propinas, elas não são consideradas crimes. Na época, pela lei suíça, essas atitudes não eram consideradas criminosas. Os documentos que provavam a corrupção dos dirigentes neste caso foi mantido em sigilo até que a justiça suíça obrigou a Fifa a revelá-los.

“Certamente não foram quantias desconsideráveis que foram direcionadas ao ex-presidente da Fifa Havelange e seu [então] genro Ricardo Teixeira, assim como o Doutor Nicolas Leoz, embora não haja indicação que nenhuma forma de serviço foi dada por eles”, diz o relatório. “Esses pagamentos aparentemente feitos via empresas de fachada para encobrir os verdadeiros recebedores e são qualificadas como ‘comissões’, conhecidas hoje como ‘suborno’”.

O relatório diz que Havelange e Teixeira são “moralmente e eticamente reprováveis” por terem aceitado o dinheiro. Leoz disse aos investigadores que doou o dinheiro que recebeu a uma escola, em janeiro de 2008. O problema é que os pagamentos foram feitos entre 1992 e 2000.

Eleito presidente da Fifa em 1974, substituindo o inglês Stanley Ross. Ficou até 1998, quando o seu secretário-geral, Joseph Blatter, assumiu o cargo que ocupa até hoje. Mesmo fora da presidência, Havelange sempre recebeu muitas homenagens e continuou exercendo um papel nos bastidores do futebol. Mas as denúncias constantes em relação à corrupção, especialmente após o programa Panorama revelar que ele e Ricardo Teixeira receberam propina, fizeram com que o dirigente perdesse o que lhe restava de poder.

Mas e Blatter?

O relatório alivia a barra de Blatter, mas deixa um pequeno questionamento. “Não há indicações que forma alguma que o presidente Blatter foi responsável por pagamentos para Havelange, Teixeira ou Leoz, ou que ele mesmo recebeu quaisquer pagamentos do grupo ISL, mesmo como forma de suborno”, diz o relatório.

Não há qualquer prova de envolvimento de Blatter em recebimento de dinheiro da ISL, mas o relatório questiona se o dirigente não estava ciente do que acontecia. “Deve ser questionado, contudo, se o presidente Blatter sabia ou deveria saber ao longo dos anos antes da falência da ISL que a empresa fez pagamentos a dirigentes da Fifa”, afirma o texto.

Blatter tratou de emitir um comunicado puxando para si mesmo os méritos pela investigação. E ainda disse, cara de pau que é, que a nova governança que está liderando na Fifa irá prevenir que algo assim se repita.