Quando a temporada começou, havia esperança no Goodison Park. O Everton havia terminado a Premier League com apenas duas derrotas em 11 rodadas. Apenas um jogador titular fora embora e o mercado trouxera boas reposições. Marco Silva, escolhido a dedo pela diretoria, mostrara capacidade para tirar o clube de situações difíceis e, com novos reforços para qualificar o elenco, se esperava uma evolução. Com os problemas dos adversários de elite, talvez introduzir-se entre os seis primeiros ou até mesmo, como em 2004/05, classificar-se à Champions League.

Dois meses depois, o Everton está na zona de rebaixamento, perdeu cinco jogos em oito rodadas – apenas o Norwich foi derrotado mais vezes -, sofreu 13 gols, marcou seis – apenas o Newcastle e o Watford fizeram menos – e chega à Data Fifa de outubro com quatro derrotas seguidas, após ser batido por 1 a 0 pelo Burnley, no último sábado.

Perder no Turf Moor não é um resultado desastroso, mas inserido no contexto e nas ambições para a temporada, passa a sensação terrível de que o Everton continua no mesmo lugar. Pode se recuperar, com Marco Silva ou com outro treinador, emendar uma boa sequência de vitórias, mas, com muitos pontos já deixados pelo caminho, precisaria de um desempenho formidável para terminar o Campeonato Inglês além do sétimo lugar que carinhosamente foi batizado de Everton Cup pela frequência com que o time azul de Liverpool o ocupa.

Parênteses: um pouco de exagero, aliás, porque o Everton foi sétimo colocado apenas três vezes nas últimas nove temporadas, mas é realmente um clube que há muito tempo tem lugar cativo no meio da tabela, muito longe da zona de rebaixamento e não tanto do grupo de elite, mas também poucas vezes dentro dele (um quinto lugar e um sexto no período).

E isso é o que acaba causando mais dores ao torcedor. Quando você é o Burnley ou o Bournemouth ou o Watford, esse patamar significa que o clube está em um ótimo momento da sua história. Quando é o Newcastle, com problemas em todos os setores, ou o Wolverhampton, recentemente de volta à elite, entende que, apesar de uma rica história, há algo de circunstancial na situação.

O Everton, com tanta tradição, ainda o quarto maior campeão da Inglaterra, e há tanto tempo preso nesse limbo, não pode usar nenhum dos atenuantes citados acima, nem o do dinheiro, porque a chegada de Farhad Moshiri deu ao clube um alto poder de investimento. Com o rosto encostado à janela da festa, sabe que precisa apenas de um pequeno impulso para ser convidado, o que passa esperança. E, como o convite nunca chega, o tamanho da esperança é proporcional ao tamanho da frustração.

Em outras palavras, o Burnley no Turf Moor é um jogo difícil fora de casa, e tudo bem perder os jogos difíceis fora de casa para os clubes de meio de tabela, exceto que, para fazer campanhas melhores do que as que vem fazendo, o Everton precisa fazer coisas que não vinha fazendo, como ganhar jogos difíceis fora de casa.

E isso seria uma visão mais precisa da derrota, caso ela fosse apenas um tropeço e não a sequência de um péssimo momento do Everton, com os mesmos erros sendo repetidos.

O principal deles é a bola parada. Jeffrey Hendrick apareceu livre na segunda trave, e o Everton sofreu o sexto gol na temporada neste tipo de jogada, mais do que qualquer outro time da liga inglesa e quase metade do total que sua defesa levou. Desde o começo da temporada passada, foram 22 gols sofridos de bola parada e 45 por todos os times treinados por Silva (Hull City e Watford) desde sua chegada à Inglaterra.

O fato de os times do português notoriamente sofrerem muitos gols de bola parada apenas aumenta o problema porque todo mundo sabe que esse é um ponto fraco do Everton e porque ele não parece capaz de resolvê-lo com algumas sessões de treinamento. Houve momentos de melhora, como na reta final da temporada passada, quando os Toffees sofreram apenas dois gols em sete jogos (do Fulham, ambos em contra-ataques) até levarem mais dois do Tottenham no último dia da campanha (um de escanteio, outro de cobrança de falta).

E não é que, se sofrer um gol, o Everton vai lá e faz dois. Desde que perdeu Romelu Lukaku, autor de 25 tentos em sua última temporada em Liverpool, nenhum atacante azul tem conseguido ser prolífico. Os melhores no período foram Wayne Rooney, com 11, e Richarlison e Sigurdsson, ambos com 14. Neste começo de temporada, quem tem liderado a tabela é Dominic Calvert-Lewin, com quatro, mas ele ainda está longe de passar confiança.

No mercado, o Everton fez uma aposta em Moise Kean para resolver esse problema, mas o jovem italiano ainda não fez o seu primeiro gol pelo clube inglês e ainda é uma promessa. Tem apenas 19 anos. Pode se tornar um grande artilheiro ou virar um craque de outra posição ou nem mesmo cumprir as expectativas. Impossível saber no momento. Apenas o tempo dirá.

E quando Hendrick marcou para o Burnley, o torcedor poderia ter desligado a televisão e ido fazer outra coisa porque, com Marco Silva, o Everton nunca virou uma partida de Premier League. A última reviravolta foi em dezembro de 2017, ainda com Sam Allardyce, quando o Swansea saiu na frente, mas o Everton conseguiu vencer por 3 a 1.

O paralelo com Ronald Koeman é inescapável. O holandês foi demitido em meados de outubro, mais ou menos no momento em que este Everton estará quando enfrentar o Brighton fora de casa, com apenas duas vitórias pela Premier League, exatamente o que o Everton tem no momento.

Por isso, a vitória na próxima rodada, contra o West Ham, tem sido tratada como obrigação por Marco Silva porque ele sabe que mais um tropeço testará o desejo por um trabalho de longo prazo dos seus chefes, e trocar rapidamente de treinador seria outro caso em que o Everton faria a mesma coisa que vem fazendo esperando resultados diferentes.