Na semana passada, Aritz Aduriz anunciou que esta será a temporada final de sua carreira. O basco iniciou sua trajetória como um empenhado centroavante no Athletic Bilbao B, mas transformou sua imagem no clube ao retornar em 2012, após defender Mallorca e Valencia. Já trintão, o veterano se consagrou como um dos maiores artilheiros da história dos leones. Quando esperava-se o seu declínio, passou justamente a viver o auge. Já aos 35 anos, anotou o primeiro gol pela seleção e superou pela primeira vez a marca dos 30 tentos em uma mesma temporada. E, apesar de diminuir o ritmo mais recentemente, o começo do fim, nesta sexta, seria digno de uma lenda: Aduriz saiu do banco e, um minuto depois, anotou um golaço de voleio. Aos 44 do segundo tempo, garantiu a vitória por 1 a 0 sobre o Barcelona, na abertura de La Liga. Fez a torcida em San Mamés entrar em erupção, numa pintura que define a grandeza de sua carreira.

Antes que a bola começasse a rolar em Bilbao, os holofotes do jogo estavam voltados a outros nomes. Aduriz, afinal, sequer era titular no ataque do Athletic. A referência é Iñaki Williams, o futuro do clube, que renovou nesta semana o seu vínculo com os leones. Do outro lado, o Barcelona tentaria enfatizar o seu favoritismo a mais um título no Campeonato Espanhol. Não tinha Lionel Messi, recuperando-se de uma lesão, e outros tantos reservas compunham o 11 inicial de Ernesto Valverde. Em compensação, o duelo marcou a estreia oficial de Frenkie de Jong e Antoine Griezmann com a camisa blaugrana.

O Athletic se mostrou disposto a garantir a vantagem desde os primeiros minutos. Iñaki Williams travou um duelo particular com Marc-André ter Stegen, mas o goleiro levou a melhor e realizou boas defesas. O Barcelona tinha dificuldades na criação, com Sergi Roberto e Carles Aleñá na faixa central. Além do mais, a pressão alta dos bascos funcionava a dificultava a vida dos visitantes. Demorou mais de meia hora para o Barça efetuar a sua primeira finalização, mas, quando conseguiu, Luis Suárez carimbou a trave.

Suárez, aliás, não permaneceria em campo durante tanto tempo. Sentiu dores logo após o chute, substituído por Rafinha na sequência. O Athletic permaneceu mais efetivo no ataque, sem passar por Stegen. Enquanto isso, quando conseguiu chegar, outra vez o Barcelona esbarrou no poste. Rafinha tentou de longe, mas o goleiro Unai Simón desviou seu chute com a ponta dos dedos e terminou salvo pelo travessão. Apesar das duas oportunidades, era uma atuação pobre dos blaugranas, distantes da agressividade que se espera.

Diante dos problemas no primeiro tempo, Valverde queimou sua segunda alteração na volta do intervalo e botou Ivan Rakitic em campo. O time correspondeu, avançou em campo e começou a finalizar mais, mas sem precisão. Rafinha permaneceu bastante ativo, arriscando mais que seus companheiros. Outra vez triscou a trave, em bola desviada, e chegou próximo a anotar um golaço, após passar no meio de dois e ver seu tiro seguir para fora. O Athletic, embora mais acuado pela posse de bola dos catalães, não estava morto. E o sinal disso veio justamente com Aduriz.

O centroavante entrou em campo apenas aos 43 minutos. Parecia uma alteração somente para tentar aquela bola errante levantada na área. O veterano aguardaria a sua chance. E ela demorou um minuto para acontecer. Após a cobrança de lateral, Ander Capa passou nas costas da marcação. Livre, o lateral cruzou de primeira e mandou um balão na área. A bola perfeita para o instinto de Aduriz. O matador até esboçou um avanço à pequena área, mas percebeu rápido a direção e aguardou na entrada da área. Nelson Semedo não fez o mesmo e deixou o adversário solitário. Desimpedido para executar o movimento preciso: à meia altura, desferiu sua pedalada. A bola quicou e, desta vez, não deu vez a Stegen.

Tão bonito quanto o gol foi o que se sentiu em San Mamés logo depois. O estádio desabou na comemoração. Não era apenas a vitória sobre o Barcelona arrancada nos últimos minutos. Era também uma ode a Aduriz e tudo o que representa. Na temporada passada, já frequentando o banco e sofrendo com as lesões, anotou míseros dois gols em La Liga. Agora, no ano de despedida, precisou de um minuto para criar um dos gols mais marcantes de sua carreira.

O destino não poderia ser cruel para estragar a noite de Aduriz. E não conseguiu. O Barcelona chegou a ameaçar durante os acréscimos, mas não arrancou o empate. Na melhor oportunidade, Clément Lenglet recebeu dentro da área uma cobrança de falta e desviou de cabeça. Unai Simón salvou, confirmando o papel de herói ao seu companheiro. Os louros pelos três pontos memoráveis acabavam com Aduriz. Os atuais campeões se curvavam ao dono da festa neste início de campeonato.

Na saída de campo, Aduriz dedicou o seu tento à esposa e às suas filhas, que estavam presentes nas arquibancadas. “O apoio de San Mamés é incrível. É muito emocionante que a torcida nos apoie desta maneira. O futebol é tão bonito por este tipo de momento”. Prestes a completar 39 anos, o centroavante mostra que terá fome de marcar um pouco mais sua história nesta turnê de adeus com os leones.

O Barcelona, se já atravessa uma fase pouco confiável, sofre uma derrota que piora este cenário. Os desfalques pesam, óbvio. Mas os astros presentes entregaram pouco. A partida, de qualquer maneira, merece a exaltação ao Athletic Bilbao. Após uma campanha morna na temporada passada, a vitória em San Mamés lava a alma. Fica para a história, por aquilo que representa a Aduriz. Dentre os 172 gols que soma com a camisa alvirrubra, poucos se comparam em significado e emoção à flor da pele.