*Por Charley Moreira

O impasse entre o Grupo Globo e o Palmeiras pelos direitos de transmissão do Brasileirão promete deixar muitos torcedores na mão. O alviverde é o único clube da Série A que ainda não assinou com a principal emissora do país para a exibição de seus jogos na TV aberta e, ao lado do Athletico Paranaense, também não possui um acerto para o pay-per-view. Assim, 26 partidas do time paulista, contra as 13 equipes que fecharam com o Grupo Globo, não serão televisionadas – segundo a Lei Pelé, um jogo só pode ser transmitido se houver a anuência de ambas as agremiações. Quem ganha com isso são as rádios e os sites.

Sem a TV e com o acesso limitado aos ingressos, o rádio se torna uma das melhores opções para o torcedor acompanhar o jogo de seu time de coração. Segundo levantamento da Kantar Ibope Media, realizado entre abril e junho de 2018, o meio de comunicação alcança 86% da população brasileira nas 13 regiões metropolitanas onde há aferição. Isto é, três a cada cinco ouvintes escutam rádio todos os dias. Belo Horizonte é a capital que mais ouve rádio (94%), seguida por Fortaleza (90%) e Porto Alegre (90%).

BH, aliás, receberá o jogo mais comentado fora de campo nos últimos dias: Atlético Mineiro x Palmeiras. Alvinegros e alviverdes se enfrentam neste domingo (12), às 16h, no Mineirão, pela quarta rodada do Brasileirão. O jogo não terá transmissão de TV, uma vez que (até a produção desta matéria) o clube paulista não havia chegado a um acordo com a Globo e os mineiros não possuem acerto com o Esporte Interativo. Sendo assim, para o torcedor que não for ao Gigante da Pampulha, o rádio vira o meio mais viável para seguir os dois times. Vale lembrar que o duelo tem efeito direto ao topo da tabela, com o encontro de líder e vice-líder.

“Analisando friamente, o impacto é positivo sim. Afinal, o torcedor que não puder ir ao estádio só terá a transmissão via rádio para acompanhar o jogo”, afirma Ursula Nogueira, diretora de esportes da Rádio Itatiaia. Porém, ela ressalta que a ausência dos lances na TV também impacta na transmissão do rádio. “Nossos comentaristas muitas vezes precisam do recurso da imagem para fazer uma análise precisa da jogada, como, por exemplo, em um lance de impedimento ou pênalti. É preciso analisar o replay pra dar uma opinião precisa”, pondera.

A Kantar Ibope Media aponta, em levantamento realizado no primeiro trimestre deste ano, que a Itatiaia é ouvida por 2 milhões de pessoas em Belo Horizonte. Para Ursula, a tendência é que o rádio ganhe mais audiência com partidas sem transmissões televisivas – uma lacuna que não acontecia no Brasileirão há cerca de 22 anos, segundo a Folha de S. Paulo. Ela chama atenção também ao alto preço dos ingressos na principal competição do futebol nacional.

“O brasileiro é apaixonado por futebol, e os preços nos estádios não são tão acessíveis. O rádio é popular, está em todo lugar, de graça. Inclusive, em uma das vinhetas da Itatiaia, ressaltamos isso: ‘Aqui o futebol é de graça’. Não há quem não tenha acesso ao rádio. Seja pelo próprio aparelho, aplicativos ou portais”, enfatiza.

Para quem não é sócio-torcedor, o ingresso mais em conta para assistir a Galo x Porco sai a R$ 60,00 (Foto: Bruno Cantini/Atlético-MG)

O coordenador de esportes da Band News FM, Fábio França, vai na mesma onda de Ursula. Há 14 anos trabalhando no setor de radiodifusão, o jornalista afirma que o futebol sempre foi o carro-chefe do rádio no Brasil. “O torcedor sempre teve no rádio a certeza de que ele não estaria órfão. Esse negócio de a TV transmitir todos os jogos é recente. Lá nos anos 1990, começo dos anos 2000, eram pouquíssimos os jogos transmitidos na TV. Eu acho que é uma grande oportunidade para o rádio retomar a grandeza que sempre teve. Não vejo como complicação, vejo como oportunidade”, assegura.

As rádios Band News FM e Bandeirantes, ambas pertencentes ao mesmo grupo, conversam e avaliam em conjunto quais partidas irão transmitir na rodada. Na maioria das vezes em que haverá dois jogos grandes no mesmo horário envolvendo times paulistas, os veículos entram em acordo para definir qual jogo será irradiado. Será assim com Atlético x Palmeiras e Santos x Vasco, que ocorrem neste fim de semana, no mesmo dia e horário.

“Acho que a audiência vai crescer. Sem dúvida. O torcedor só vai ter no rádio essa alternativa para ouvir o time dele. A gente tem que enxergar isso com uma possibilidade real de crescimento, não como empecilho. O rádio só tem a ganhar com isso”, pontua França.

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o rádio é o meio de comunicação mais adaptado ao consumo de mídia. Quem garante é a Revenue Analytics, empresa de consultoria dos Estados Unidos. Apesar do crescimento um pouco lento, “o rádio conseguiu segurar seus públicos e anunciantes, em contraste com outros setores da mídia, como os jornais, que demoraram a se adaptar aos tempos de mudança”, diz o levantamento.

A pesquisa também aponta que as rádios que souberem trabalhar no mundo digital deverão receber cada vez mais investimento publicitário. “A transmissão de áudio em ambientes digitais teve um aumento de 600% nos últimos oito anos. Esse resultado prevê que a maior parte de investimentos será feita em mídias digitais”, revela.

Outros meios de assistir aos jogos

Àquelas pessoas que não têm condições de ir ao estádio e rechaçam o rádio, há algumas alternativas a serem consideradas. Uma delas é acompanhar a transmissão dos jogos do Palmeiras pelo YouTube. A TV Palmeiras narrou a partida contra o CSA, em Maceió, válida pela segunda rodada do Brasileirão, na plataforma de vídeos. Com pouco mais de 278 mil visualizações – até a produção deste texto –, é o terceiro conteúdo que mais gerou views este ano na conta palmeirense no YouTube. A equipe de comunicação do clube também fará a narração de Galo x Verdão pelo YouTube.

Outra possibilidade é ler a descrição do jogo através de sites. A reportagem apurou que a equipe de São Paulo do GloboEsporte.com fará o tempo real através das imagens do VAR que chegam ao ingest (inserção de material audiovisual nas ilhas de edição não-linear) de São Paulo. Como Minas Gerais não recebe esse sinal do VAR, os dois setoristas do Galo pelo veículo, Guilherme Frossard e Rafael Araújo, irão para o Mineirão. De lá, eles vão abastecer, com fotos e detalhes do embate, a pessoa que estará incumbida de assumir a descrição da partida.

A reportagem também constatou que o jornalista Thiago Fernandes, setorista da equipe alvinegra pelo UOL Esporte, será o encarregado de realizar o tempo real do jogo ao portal. Ele irá ao Mineirão, como ocorre em todos os jogos do Galo, postará no Twitter o que estiver acontecendo dentro de campo e seus tuítes serão incorporados no site. Além disso, o repórter também passará informações sobre o jogo a um redator responsável pela crônica da peleja.

A ESPN, por sua vez, colocou dois dos melhores comentaristas da casa, Gian Oddi e Leonardo Bertozzi, para participarem da transmissão no site junto com o narrador Cledi Oliveira. O anúncio aconteceu na manhã desta sexta-feira (10), no Twitter. Apuramos que o trio receberá as imagens do jogo pela internet.

Com todas essas ferramentas à disposição, o que não vai faltar é oportunidade para o torcedor acompanhar o confronto entre atleticanos e palmeirenses – mas sem imagens. O Galo é o primeiro colocado, com nove pontos, 100% de aproveitamento. Os palestrinos vêm logo atrás, na segunda colocação, com dois pontos a menos. Jogo que vale liderança, mas ninguém verá pela TV. Enquanto Palmeiras e Globo não dão o braço a torcer, quem sorri são as rádios e os sites.

* Charley Moreira é formado em Jornalismo pela Centro Universitário Estácio de Belo Horizonte, ex-coordenador de futebol internacional da VAVEL Brasil, administrador da AC Milan Brasil e colaborador da Calciopédia.