Especialmente a partir da década de 1980, o Suriname virou uma das maiores fontes de talento do futebol holandês. Não foi a independência do território sul-americano em 1975 que cessou a ligação entre os países. Pelo contrário, a migração seguiu por questões econômicas / políticas e muitos filhos de imigrantes também nasciam no país. Os principais reflexos disso estão na seleção laranja. Frank Rijkaard e Ruud Gullit integram uma geração de filhos dos imigrantes. Clarence Seedorf e Edgar Davids embarcaram de Paramaribo na infância. E assim tantos outros nomes que continuam compondo a Oranje, a exemplo de Georginio Wijnaldum e Virgil van Dijk. No entanto, há também um novo caminho. E o próprio Suriname viveu o ápice de sua seleção nesta segunda. Após 36 anos, em 2021, o país disputará uma competição continental da Concacaf – sua primeira aparição desde a criação da Copa Ouro em 1991.

A seleção do Suriname é uma das mais antigas da América do Sul. A equipe disputou seu primeiro amistoso em 1915 – um ano depois do Brasil. No entanto, por questões geográficas, políticas e esportivas, a então colônia holandesa se filiou à Concacaf em 1961. Desde então, a equipe começou a disputar as Eliminatórias da Copa e outras competições da região. A perda de talentos para a Holanda, inclusive de jogadores que imigraram em busca do profissionalismo, limitava as opções. Mas os surinameses também possuíam relevância naquelas primeiras décadas.

Campeão da Copa do Caribe em 1978, o Suriname garantiu suas primeiras participações no Campeonato da Concacaf na mesma época. O torneio precursor da Copa Ouro servia de qualificatório à Copa do Mundo. Em 1977, os surinameses ficaram na sexta colocação. Pintaram ainda na fase de grupos em 1985. Já entre os clubes, Transvaal e Robin Hood eram potências na Concachampions. O primeiro conquistou dois títulos, em 1973 e 1981, além de terminar com três vices. Já o Robin Hood estabeleceu a nada honrosa marca de cinco vices entre 1972 e 1983. Na época, a competição era regionalizada, o que facilitava o acesso.

Desde os anos 1990, porém, a diáspora de jogadores e as limitações na legislação de naturalização atrapalharam o Suriname. Os principais talentos ficaram no futebol europeu, também por precisarem renunciar sua nacionalidade holandesa para atuar na seleção surinamesa. O Suriname nunca disputou a Copa Ouro desde a mudança do formato em 1991 e também nunca alcançou a fase final das Eliminatórias da Copa nas últimas três décadas. Isso até que as perspectivas começassem a mudar recentemente. Primeiro, pela nova possibilidade de classificação à Copa Ouro, através da Liga das Nações. Depois, pelo próprio crescimento da equipe. Por último, pelas adições possíveis, com uma abertura aos descendentes.

Neste ano, o Suriname sofreu apenas uma derrota nas partidas internacionais que disputou. Ganhou de outras seleções médias e pequenas da Concacaf – com direito a uma histórica goleada por 6 a 0 sobre a Nicarágua. Desta forma, os surinameses sobraram em seu grupo na segunda divisão da Liga das Nações. A equipe somou 13 pontos em 18 possíveis, liderando a chave que também contava com São Vicente e Granadinas, Nicarágua e Dominica. Valeu a classificação à Copa Ouro de 2021.

Um dos heróis na vitória por 2 a 1 sobre a Nicarágua, que carimbou o passaporte nesta segunda, tem um sobrenome conhecido: Nigel Hasselbaink. O atacante de 28 anos é sobrinho de Jimmy Floyd Hasselbaink, antigo ídolo do Chelsea. Diferentemente de seu tio, Nigel não teve as mesmas possibilidades como profissional e rodou por clubes pequenos da Europa. Atualmente, defende o Hapoel Be’er Sheva, em Israel. Destaque do time na temporada, o rapaz nascido em Amsterdã aceitou a convocação à seleção do Suriname nesta Data Fifa. Em sua estreia, ajudou com duas assistências. Já o primeiro gol assinala um momento histórico à seleção local.

Nigel Hasselbaink, além do mais, representa exatamente o início de um movimento que pode se tornar bem mais amplo até a Copa Ouro. Nas últimas semanas, a federação surinamesa anunciou que os jogadores convocados pelo país não precisam mais renunciar a nacionalidade holandesa – algo que impedia o fluxo de atletas. A entidade bancou uma investigação jurídica nas novas leis de naturalização do país, antes de chegar ao bem-vindo veredito. Assim, abriu de vez suas portas aos descendentes nascidos na Holanda.

“Quando comecei a jogar na base de Ajax e PSV, logicamente meu objetivo era a seleção holandesa. Mas, nos últimos anos, o futebol cresceu no Suriname. Tive que esperar um pouco, mas este é o momento. Já ouvi de familiares que o povo no Suriname está bastante envolvido com a seleção. Minha família está muito feliz. Essa conquista é importante e o país pode usá-la bem. Sei como eles vivem o futebol. As pessoas já estão falando sobre as Eliminatórias da Copa, mas vamos passo a passo”, analisou o atacante, em entrevista ao site AD.

O próprio técnico da seleção, Dean Gorré, foi um nome importante para a mudança. Antigo meio-campista do Feyenoord e do Ajax nos anos 1990, ele participou do lobby que ocasionou a confirmação da abertura. “Esses rapazes dificilmente precisam ser convencidos para jogar por nossa seleção. A princípio, todos querem isso. A única questão necessária é um pouco de burocracia. Mas seremos mais atrativos agora, especialmente agora que conseguimos a classificação à Copa Ouro”, comentou Gorré, também ao site AD.

Assim, a presença de descendentes deve se tornar mais recorrente. Nomes como Stefano Denswil (Bologna) e Rajiv van La Parra (Estrela Vermelha) são convocáveis, podendo elevar o nível de um time limitado basicamente à liga local. O próximo da lista é Kelvin Leerdam, lateral campeão da MLS com o Seattle Sounders. O leque se abre e deve aumentar o horizonte até a Copa Ouro de 2021.

Curaçao serve de exemplo aos surinameses. Nos últimos anos, a seleção adotou o mesmo expediente e, com descendentes nascidos na Holanda, viu seus resultados evoluírem. Patrick Kluivert foi um dos cabeças neste processo, que rendeu um título na Copa do Caribe e a campanha até as quartas de final da Copa Ouro 2019. Suriname possui um potencial parecido de se colocar ao menos como uma seleção competitiva e repetir suas aparições contra as forças locais. A própria Holanda é ciente deste talento.