Frenkie de Jong se tornou um dos nomes mais cobiçados do mercado de transferências nos últimos meses. E nem dava para ser diferente, diante do talento exibido pelo polivalente prodígio do Ajax. Aos 21 anos, em sua segunda temporada completa na equipe principal dos Godenzonen, o holandês se transformou em objeto de desejo aos clubes mais endinheirados da Europa. Embora o Paris Saint-Germain tenha sido apontado muitas vezes como seu provável destino, o camisa 21 desembarcará no Camp Nou. Nesta quarta-feira, o Barcelona confirmou a contratação do jovem para a próxima temporada. Chegará em julho, com vínculo firmado por cinco anos. Os blaugranas pagarão €75 milhões pelo atleta, com mais €11 milhões possíveis em variáveis.

Apesar da pouca experiência, De Jong pode ser apontado como uma realidade no Ajax. Não demorou para que o volante conquistasse o seu espaço como titular e se tornasse um dos melhores jogadores da equipe. As qualidades do holandês permitem que ele atue em diferentes posições. Geralmente aparece como meio-campista, embora tenha passado boa parte da temporada passada como zagueiro. É ver como o Barcelona poderá usá-lo, considerando as carências e a idade de alguns medalhões. De qualquer maneira, seria alguém determinante para se casar ao estilo de jogo do clube na faixa central, mais recuado ou fazendo o papel na organização.

De Jong é daqueles jogadores que fazem de tudo um pouco, e fazem tudo muitíssimo bem. Ele marca, passa, dribla e preenche os espaços, dominando o seu setor do campo. Gosta de tomar riscos para limpar a marcação com seus dribles e facilitar a construção das jogadas. Não seria uma mera peça adaptável à posse de bola, mas também capaz de trazer acréscimos ao quebrar as linhas. A isso, une uma leitura de jogo privilegiada, de quem age com a intuição ao mesmo tempo que analisa o posicionamento dos outros homens em campo. A inteligência talvez seja realmente a maior virtude do garoto, aliada à sua maturidade para reconhecer o próprio papel em campo e sua representatividade como jogador de futebol.

As boas campanhas do Ajax nesta temporada, sobretudo na Liga dos Campeões, tornaram a permanência de De Jong mais difícil. Os Godenzonen sabiam que muito provavelmente não segurariam o talento por tanto tempo, da mesma forma que o meio-campista abria a possibilidade de sair, apesar de garantir sua continuidade até julho. Assim, ante a intensa corrida pela contratação (que também incluía Juventus e Manchester City), o papel dos holandeses seria o de segurar o jogador até o final deste semestre e conseguir uma quantia que cobrisse as expectativas. Por um momento, até pareceu que o negócio se arrastaria além desta janela de transferências. O Barcelona, contudo, tratou de aumentar a sua investida, em transação anteriormente alinhada com o PSG.

De Jong até possuía um acordo verbal com o Barcelona, mas resolveu voltar atrás em sua ideia e namorar com o Paris Saint-Germain. Achava que teria mais espaço entre os titulares no Parc des Princes. Todavia, aceitou ouvir os representantes do Barcelona e foi convencido pelos argumentos do projeto apresentado pelos blaugranas. O próprio Arthur serviu de argumento ao holandês, justificando que sua ascensão não demoraria a acontecer. Além disso, o atrativo de atuar em um campeonato mais competitivo que a Ligue 1 também pesou. Desta maneira, o interesse do jogador prevaleceu, fazendo jus a declarações anteriores em que manifestava sua admiração pela filosofia do Barça. Ficou mais fácil para os catalães negociarem com o Ajax e cobrirem os valores.

Ante aquilo que parecia inescapável, é um bom acordo ao Ajax. Obviamente, o clube e sua torcida preferiam desfrutar De Jong por mais tempo. Mas, na realidade sufocante do futebol atual, em que uma agremiação de liga média precisa fazer malabarismos financeiros para segurar os seus destaques, era impossível resistir às sondagens pelo jovem. O próprio jogador se mostrava propenso a aceitar ofertas de ligas maiores. Restará aos Godenzonen aplaudirem sua qualidade na Johan Cruijff Arena enquanto for possível, quem sabe com uns passos a mais na Champions, talvez com a conquista da Eredivisie. No anúncio oficial da despedida, os Ajacieden foram bastante carinhosos ao se referirem ao prodígio. Sabem o que ele representa e o que ele poderá representar.

Quem também se dá bem com a transação são os dois clubes que participaram da formação de De Jong, RKC Waalwijk e Willem II. Responsáveis pelo aprimoramento do meio-campista antes de sua chegada ao sub-21 do Ajax, em 2015, eles ganharão cerca de €10 milhões com a transferências – dos quais, €6 milhões irão para o Willem II, que o vendera por €300 mil aos Godenzonen há quatro anos. Excelência no trabalho que rende lucros consideráveis aos responsáveis por lapidar o talento.

Por fim, cabe ressaltar o projeto de renovação que o Barcelona intensifica neste momento. Ousmane Dembélé, Arthur e Clément Lenglet – todos abaixo dos 23 anos – foram reforços interessantes neste sentido. Se La Masía não apresenta uma escala industrial na produção de talentos, como outrora alguns intuíam, o poderio econômico dos blaugranas serve para moldar a equipe e tornar os pratas de casa adições pontuais – como Carles Aleñá e Riqui Puig, os mais cortejados da atual geração. Assim, a espinha dorsal do clube se formará principalmente com apostas no mercado. Pela bola que já apresentou e pela capacidade de evoluir, De Jong possui o horizonte aberto para se transformar em peça primordial. É por isso que sua transferência custou tanto aos cofres culés e se faz tão bem-vinda pelos torcedores.

Há chances de que a aposta do Barcelona em De Jong se frustre, é claro. Nada garante que o holandês virará este grande protagonista blaugrana, apesar dos muitos indícios. Mesmo assim, a confiança é alta no novo contratado. O passado no Ajax, a similaridade nas escolas de jogo e o próprio estilo em campo reafirmam o seu potencial para estourar no Camp Nou. Mas é a personalidade e a bola nos pés que realmente tendem a transmutar a promessa em realidade durante as próximas temporadas. A empolgação de ambas as partes são compreensíveis. É um grande acerto ao futuro do Barça.