“Com Scolari, teria brilhado mais”

Ele foi um dos expoentes de uma geração que alavancou o futebol português. Jorge Cadete, ex-Sporting, Benfica e Celtic Glasgow, bateu um papo conosco para falar da evolução do futebol luso, da escassez de um ‘9 puro’ de área no país e claro, também fala de Bobby Robson, Mourinho, Queiroz, seu sucesso estrondoso na Escócia e da ambição de ser treinador.

“Aguardo ser chamado por alguma equipa, por enquanto trabalho como presidente do clube que fundei, o Cadete Sport Academia”.

Portugal tem incontáveis talentos na atualidade como Ronaldo, Quaresma, Nani, Moutinho, etc. Acha que sua geração foi quem inspirou e colocou o futebol português em patamares mais elevados? Antes só se falava de Eusébio…
A minha geração contribuiu para que se olhasse para o futebol português de outra forma e também conseguimos finalmente honrar a nossa pátria com a presença no Euro 96 e Mundial 2002.

Existe a carência de um '9 puro' e de qualidade no ataque da seleção de Portugal. Como um dos últimos jogadores portugueses que jogaram com sucesso nessa posição, como avalia os atuais avançados do time de Felipão para essa posição?
Realmente existe essa carência em Portugal, mas também é um pouco por culpa dos treinadores que treinam aqui, com excesso de preocupação em defender para não perder, enquanto a filosofia devia ser atacar para ganhar. Tambem existe a falta de interesse dos clubes e suas direções e também dos treinadores principais em formar jogadores com essas características, pois tem a preocupação em ter treinadores de guarda-redes e não tem a preocupação de ter treinador para pontas de lança.

Alguns futebolistas brasileiros reclamam de uma certa discriminação quando chegam aos clubes de Portugal. Acha que a presença maciça de brasileiros é ruim para o futebol português e atrapalha o surgimento de jovens valores? O que pensa a respeito?
A vinda de jogadores seja de que país for é sempre bem vinda desde que sejam uma mais valia para o clube e também para a equipa. Mas quando isso não acontece a culpa não é dos jogadores, mas sim de quem contrata ou aconselha a contratação desses jogadores, e quando isso acontece não deveria existir essa discriminação. Mas realmente às vezes acontece, nunca tive como jogador e procurarei nunca ter como treinador essa atitude de discriminação.

O que anda fazendo atualmente?
Enquanto não recebo nenhum convite para treinar uma equipa, sou presidente e treinador do clube que fundei em 2005, o Cadete Sport Academia.

Ainda mantém contato com ex-companheiros como Oceano, João Pinto e Figo?
Sim, mantenho algum contato com o Oceano, com Figo há muito tempo que não nos cruzamos e o mesmo acontece com João Pinto.

Como aconteceu sua transição para jogar de ponta-de-lança? Qual foi o treinador que te convenceu a essa mudança?
A minha transição aconteceu com o treinador Marinho Peres, que admiro muito e tenho um carinho especial. Em 1991/2 quando o avançado Fernando Gomes (ex-FC Porto) abandonou a carreira e o Sporting apenas tinha contratado um avançado centro e aí eu fui jogar nessa posição e nesse ano fui bota de prata em Portugal (2º artilheiro) e no ano seguinte 1992/3 fui o goleador, ganhando a bota de ouro.

Porque seu rendimento caiu depois da saída de Bobby Robson e a entrada de Carlos Queiroz? Acha que o fato de Sir Bobby ter sido atacante também, ele sabia como fazer você render ao máximo?
Com Bobby Robson eu jogava de titular e era capitão da equipa e com Carlos Queiroz isso deixou de acontecer, mas isso já foi no passado e agora é presente e nada mais importa.

Esse rancor entre você e o técnico Carlos Queiroz surgiu, anos antes disso, na seleção sub-21 de Portugal?
Nunca tive rancor por Carlos Queiroz e nem por ninguém, não sou de ter rancor.

Quais lembranças você tem de José Mourinho no Sporting? Como ele era?
As melhores! Falávamos muito, pois vivíamos em Setúbal e Mourinho sempre foi assim…

Você vê algo do Bobby Robson na forma de Mourinho armar suas equipes?
Mourinho poderá dizer que não, mas está lá os ensinamentos e a maneira do Bobby Robson.

Muitos dizem que o treinador Graeme Souness é um tipo muito difícil para se trabalhar, pouco aberto ao diálogo. Ele foi o seu problema no Benfica?
Não tive problemas com ele, simplesmente a opção dele era um jogador que ele tinha trazido para o Benfica e que pertencia ao empresário dele.

Quem boicotou sua ida para o Benfica, anos antes do acordo definitivo?
Gaspar Ramos e Manuel Damasio. Havia um acordo verbal no qual eles não cumpriram.

Quando esteve no Brescia, o clube já não contava mais com o ótimo romeno Hagi, faltou um meia de qualidade para ajudá-lo a triunfar na Itália? Nessa época, você já conhecia Pirlo e Baronio, que estavam nos juvenis do Brescia?
È verdade, Hagi era fantástico, pena o clube não ter contado com ele, e Pirlo e Baronio já tinham qualidade mas muita imaturidade para superar a pressão de jogar num clube especial como o Brescia.

Quais foram suas dificuldades para se habituar ao calcio?
Principalmente o trabalho excessivo do técnico Mircea Luscescu.

O motivo da sua saída do Celtic Glasgow foi o fato do presidente do clube ter dito que Portugal é uma 'República de Bananas'?
Sim, e ter me dado a palavra se eu fizesse uma boa época ele devolvia o valor que eu paguei pela minha transferência ao Sporting. Se marcar 33 golos em 41 jogos, sem pênaltis, não é uma boa época…

Há 10 anos, quando saiu do Celtic, você se recordou de Glasgow se referindo aos torcedores gritando seu nome enquanto você estava dentro de casa depois dos jogos. Ainda se recorda desses momentos?
(Emocionado) Jamais esquecerei esses momentos, estou arrepiado…

Acha que se tivesse continuado e cumprido o contrato com o Celtic, estaria na Euro-2000 dada suas fantásticas performances na Escócia?
Sem dúvida, não menosprezando ninguém , se no meu tempo de seleção fosse Scolari o treinador teria marcado muitos golos e jogado mais jogos.

Porque deixou o Celta? Era difícil arranjar espaço entre Salinas, Revivo, Mostovoi e Penev?
Estava com 30 anos e existiu a possibilidade de regressar a Portugal e também o fato do Celta poder receber algum retorno do investimento feito em mim. Apenas isso, pois estava a jogar quase todos os jogos de 30 a 40 minutos e em qualquer jogo iria recuperar a titularidade.

Se tornou amigo do brasileiro Mazinho?
Excelente companheiro, amigo, profissional e homem.

Com Paulo Bento, Domingos Paciência e outros ex-jogadores portugueses se tornando técnicos, acha que sua hora irá chegar?
Claro, ao contrario deles eu quis começar a minha carreira de treinador igual que comecei a minha de jogador, subindo de escalão em escalão, aprendendo com os erros e crescendo. A carreira de treinador é bem longa e acredito que dentro em breve o meu nome ira figurar entre os melhores treinadores de Portugal, basta só aparecer a oportunidade na hora certa e eu estarei preparado. Quem sabe se não irei treinar um time aí no Brasil?