O retorno de Vanderlei Luxemburgo ao Palmeiras foi recebido com compreensivas ressalvas pelo pouco que ele fez nos últimos anos. No entanto, sua história nunca deve ser apagada. Foi o maior treinador do Brasil durante um longo período, no qual comandou máquinas de conquistar títulos. A primeira delas, depois do trabalho que o impulsionou no Bragantino, foi o Palmeiras que, 25 anos atrás, confirmou que mandava no futebol nacional com o segundo título brasileiro consecutivo.

Difícil lembrar um clube que saiu da fila de uma maneira tão estrondosa quanto o Palmeiras. Para usar a mesma metáfora, enfileirou cinco títulos entre 1993 e 1994, todos sob o comando de Luxemburgo, feito que tem precedentes em sua história apenas com o esquadrão das Cinco Coroas (quando gritou campeão cinco vezes em um período de um ano). O poder de investimento fornecido pela Parmalat permitia a formação de elencos estelares e, mesmo quando grandes jogadores saíam, outros eram contratados, e foi isso que aconteceu naquela temporada.

O Palmeiras conquistou o Campeonato Paulista no primeiro semestre de 1994, antes de o futebol brasileiro ser paralisado para a Copa do Mundo dos Estados Unidos, na qual o Brasil seria tetracampeão. O retorno, uma semana depois da disputa de pênaltis contra a Itália, foi amargo. A partida de volta das oitavas de final contra o São Paulo, no Morumbi, teve Euller marcando duas vezes. Evair ainda descontou no fim, mas, como a ida no Pacaembu havia sido 0 a 0, o Palmeiras foi eliminado pelo time de Telê.

Foi uma decepção porque o Palmeiras não havia passado com folgas pela fase de grupos da Libertadores, mas tivera grandes atuações, como o 6 a 1 contra o Boca Juniors e 4 a 1 contra o Vélez Sarsfield. Mas aquele time sensacional de Luxemburgo nunca teria vida longa na Libertadores e, de qualquer jeito, havia perdido para o então bicampeão sul-americano e mundial, que chegaria até a decisão contra o Vélez antes de se desfazer.

O Palmeiras teria que encarar o Campeonato Brasileiro no segundo semestre sem Rincón (Napoli), Mazinho (Valencia) e Edílson (Benfica), negociados com a Europa. No entanto, foi buscar reposição: Rivaldo chegou do Mogi Mirim, por US$ 2,4 milhões, depois de passar um tempo atuando pelo Corinthians. A matéria da Folha de S. Paulo em 14 de agosto de 1994 falava da expectativa para a sua estreia contra o Paraná.

“Segundo Luxemburgo, Rivaldo, além de desempenhar função de atacante, também voltará para ajudar a marcação no meio-campo, revezando as descidas ao ataque com o meia Zinho. ‘O modo de jogar de Rivaldo é diferente ao do Edílson (emprestado ao Benfica de Portugal), a quem ele substitui’, afirmou Luxemburgo. ‘O Edílson não voltava tanto para marcar. O Rivaldo tem mais velocidade no retorno ao meio-campo’, explicou o técnico. O técnico disse que o novo time tinha que evoluir ao longo do Campeonato Brasileiro e os primeiros dez jogos seriam importantes.

A fórmula daquele campeonato era uma maluquice, para variar. A primeira fase teve clubes divididos em quatro grupos de seis. Os quatro primeiros passaram à segunda fase, com os primeiros colocados ganhando um ponto extra. Os oito restantes foram para a repescagem. Na segunda fase, os 16 classificados foram separados em duas chaves e todos se enfrentariam. No turno, dentro da própria chave. No returno, contra a outra chave. Ao fim dessa bagunça toda, o campeão de cada grupo em cada turno passaria às quartas de final, assim como os dois mais bem colocados, independentemente dos grupos, e dois vencedores da repescagem.

Lembra aqueles dez primeiros jogos? O Palmeiras conseguiu nove vitórias e um empate. Passou do primeiro grupo, que compôs ao lado de Fluminense, Paraná, Internacional, União São João e Náutico, com louvor. Na fase seguinte, venceu o seu grupo (Sport, São Paulo, Bahia, Santos, Botafogo, Flamengo e Paraná) no primeiro turno, com quatro vitórias, dois empates e uma derrota. No segundo turno, já garantindo nas quartas de final, levou na maciota (duas vitórias, dois empates e quatro derrotas).

No mata-mata, o negócio pegou para valer. O Palmeiras começou a campanha contra o Bahia, na Fonte Nova. Vitória por 2 a 1, com gols de Roberto Carlos e Maurílio para os paulistas. Na volta, o Pacaembu recebeu 23 mil pessoas para ver César Sampaio e Evair construir outro triunfo pelo mesmo placar. A semifinal foi contra o Guarani, com 3 a 1 na ida na capital e 2 a 1 no Brinco de Ouro da Princesa.

E chegou a vez da final. O adversário era o Corinthians, o que passava sentimentos traiçoeiros. Ganhar do maior rival em uma decisão, a terceira dessa sequência de cinco títulos em dois anos seria especial. Mas também permitia ao adversário a chance de se vingar das derrotas nas decisões do Paulista e do Rio-São Paulo do ano anterior. Deu a primeira hipótese.

No primeiro jogo, Edmundo disparou em contra-ataque e acertou a trave. O Corinthians reagiu com duas boas chegadas, com Velloso defendendo bem uma cobrança de falta. E aos 44 minutos do primeiro tempo, outra bola lançada nas costas da defesa alvinegra encontrou Rivaldo, que driblou o goleiro e empurrou a bola ao gol vazio. Evair quase ampliou no começo do segundo tempo, e Luizinho teve uma chance de ouro, com a bola pingando na marca do pênalti, mas isolou.

Velloso continuava segurando as pontas debaixo das traves, e o Palmeiras era quase letal no contra-ataque. Edmundo puxou um e deixou Rivaldo livre com um lindo toque por cima. A bola bateu na trave. Aos 18 minutos, Rivaldo bateu a carteira de Branco pela direita, entrou na área e fez 2 a 0 com um biquinho. Roberto Carlos, suspenso para o jogo de volta por três cartões amarelos, acionou o pivô de Evair, que rolou para Edmundo fazer o terceiro, dois minutos depois. O Corinthians diminuiu com Marques.

O Palmeiras quase abriu o placar logo no começo da segunda partida, quando Zinho bateu a carteira de Luizinho e bateu para defesa de Ronaldo. Edmundo emendou o rebote para fora. E no terceiro minuto, o Corinthians fez 1 a 0. Marcelinho Carioca bateu falta na trave, e Marques pegou o rebote. Mas não conseguiu ir além. Aos 36 minutos do segundo tempo, o gol do título foi marcado por Rivaldo, completando o passe de Edmundo, justamente o craque que havia acabado de chegar e fora decisivo nas duas partidas da final.

E o Palmeiras da Parmalat, como na época da Academia, era bicampeão brasileiro.

Data: 18/12/1994
Estádio: Pacaembu, em São Paulo (SP)
Público: 35.217
Árbitro: Márcio Rezende de Freitas (MG)
Gols: Marques, aos 3’/1T; Rivaldo, aos 36’/2T
Cartões amarelos: César Sampaio, Antônio Carlos (Palmeiras); Ronaldo, Branco, Gralak e Marcelinho Carioca (Corinthians)
Cartões vermelhos: Zinho (Palmeiras); Branco e Luizinho (Corinthians)

Palmeiras: Velloso, Cláudio, Antônio Carlos, Cléber e Wágner; César Sampaio, Flávio Conceição (Amaral), Zinho e Rivaldo; Edmundo (Tonhão) e Evair. Técnico: Vanderlei Luxemburgo

Corinthians: Ronaldo, Paulo Roberto Costa, Henrique, Gralak e Branco; Luizinho, Marcelinho Paulista e Souza (Tupãzinho); Marcelinho Carioca, Viola e Marques. Técnico: Jair Pereira