Se dentro das quatro linhas o desempenho do Manchester United segue preocupante desde 2013, com a saída de Alex Ferguson, fora delas a situação financeira continua muito boa. O clube anunciou nesta terça-feira (24) recorde de receitas, de £ 627,1 milhões na temporada 2018/19. O relatório do ano anterior já havia sido um recorde em si, com £ 590 milhões. Ainda assim, ciente da angústia do torcedor com a falta de progresso em campo, o clube afirmou que, para eles, o sucesso estava à frente do dinheiro na lista de prioridades.

O comunicado do United, endereçado aos acionistas do clube, tocou em pontos-chave das críticas feitas por torcedores nos últimos tempos, respondendo a preocupações já bem conhecidas. A ótima saúde financeira contrastante com o desempenho decepcionante em campo, por exemplo, levantou a necessidade de se falar que o foco principal é em levar o sucesso dos cofres para o gramado.

“Todos no clube, dos donos pra baixo, estão focados em competir e vencer troféus no mais alto nível. Para isso, investimos pesado no elenco e continuaremos fazendo isso. Ao mesmo tempo, o empolgante conjunto de talentos vindo das nossas categorias de base é resultado de um investimento maior nessa área nos últimos cinco anos. É importante apontar que, embora nossa operação comercial de sucesso ajude a impulsionar esse investimento, a prioridade é o foco em conquistar sucesso no campo”, disse um porta-voz do clube.

Ao longo dos anos desde 2013, o United foi se distanciando do perfil de contratação de Alex Ferguson e apostando em jogadores de renome, uma tentativa de obter resultados sem o devido processo de reestruturação que a saída de um técnico tão longevo exigia. Especialmente após a contratação de Alexis Sánchez, fortaleceu-se uma narrativa entre crônica e torcida de que a política de transferências do clube era antes de tudo comercial.

A isso, o Manchester United respondeu que “não estamos analisando ou comprando jogadores com base em seu apelo comercial. Concordamos que o processo de recrutamento é crítico. Estamos empenhados em fazer isso bem, e tem havido um enorme investimento nesta área para colocar o nosso departamento de recrutamento numa posição em que seja capaz de entregar ao técnico os jogadores que ele quer. Este processo é significativamente mais eficaz do que há quatro ou cinco anos”.

A demissão de José Mourinho, a quarto entre técnicos efetivos e interino (Ryan Giggs) desde a aposentadoria de Ferguson, trouxe uma sensação de que não havia uma pessoa conduzindo a embarcação a lugar algum. A falta de direção levou a torcida a cobrar, desde então, a contratação de um diretor de futebol, posição presente em basicamente todo grande clube do futebol europeu, mas não no Manchester United.

Mais uma vez, o discurso oficial buscou minimizar essa necessidade, apontando novamente para o que julgam como um bom processo de recrutamento existente dentro do clube.

“Grande parte da especulação em torno deste tipo de função se concentra puramente no recrutamento. Nos últimos anos, expandimos materialmente nosso departamento de recrutamento e acreditamos que isso está funcionando de forma eficiente e produtiva. Muitos dos funcionários seniores dessas funções estão no clube há mais de dez anos. As recomendações e decisões de recrutamento são trabalhadas por este departamento e pelo gerente e sua equipe, não pela gerência sênior.”

Para o United, as contratações de Maguire, Wan-Bissaka e Daniel James na última janela de transferências, apesar da falta de nomes para o ataque, “demonstram que esta abordagem é a correta e que qualquer nomeação futura complementaria este processo”.

Posteriormente, Ed Woodward, diretor executivo do Manchester United, reforçou o apoio ao técnico Ole Gunnar Solskjaer e disse que o clube não será distraído por situações imediatas – embora valha a pena apontar que não seria algo inédito no futebol (ou para o United) endossar um treinador pouco antes de sua demissão por falta de resultados.

“É importante que sejamos pacientes enquanto o Ole e sua equipe constroem para o futuro. Continuaremos focando a estratégia de longo prazo e não seremos influenciados por distrações de curto prazo”, disse o dirigente.

“Muito do progresso feito em torno desse investimento – nas categorias de base, no departamento de recrutamento e nas instalações de treinamento – está nos bastidores e, portanto, não é imediatamente aparente para aqueles de fora. Esses investimentos, junto com o comprometimento que fizemos ao Ole e à sua comissão técnica em março, nos deram os alicerces para o sucesso”, completou Woodward.

A torcida não recebeu o posicionamento tão bem quanto o clube poderia ter esperado, com muitos acreditando se tratar apenas de uma jogada de relações públicas. Com o contexto apontado ao longo deste texto, é fácil entender a descrença. Para mostrar que fala sério, Woodward, Glazers e cia precisaram respaldar o discurso com a realidade. E Solskjaer, conseguir resultados neste meio tempo.