A Premier League e a English Football League (EFL) pediram que a Professional Footballers’ Association (FA), o sindicato dos jogadores, aceitasse que eles teriam que ter cortes nos salários, não apenas um adiamento dos pagamentos. É uma medida para amenizar os problemas causados pela pandemia do coronavírus, que são sem precedentes no esporte. Políticos têm dado declaraçÕes criticando os jogadores da liga mais rica do mundo que não aceitam redução salarial em meio à crise, enquanto seus clubes recorrem a programas de auxílio do governo para pagar os funcionários não ligados a futebol.

Em uma reunião por vídeo feita pelos executivos das ligas e a PFA, além do diretor executivo da Premier League, Bill Bush, reforçaram a importância dessa medida pelo impacto financeiro que os clubes enfrentam pela suspensão dos jogos. Há a expectativa que os jogos ainda sejam disputados para terminar a temporada, mas no momento as coisas são incertas nesse sentido.

Entre as perdas estimadas, estão £ 750 milhões em dinheiro da TV, que cobre o resto dos jogos das ligas, ingressos e outras receitas de dia de jogos (como lojas e alimentação), além de outras perdas como patrocínios dos clubes. Enquanto a Premier League tem um acordo gigante de £ 8 bilhões por três temporadas, a EFL tem uma receita bem menor para suas ligas (Championship, League One e League Two), que faz seus 71 clubes serem mais dependentes de receitas de bilheteria e do dia do jogo.

A posição da PFA, por enquanto, é que os adiamentos dos pagamentos dos jogadores serão levados em conta, mas a entidade não parece disposta a aceitar cortes salariais. O argumento da entidade sindical é que é uma questão sensível e que os salários atrasados que não possam ser pagos em função da crise podem ser negociados depois, caso a caso. A PFA esteve representada na reunião pelo seu executivo chefe, Gordon Taylor. Essa era a posição antes da reunião. Isso parece ter mudado.

Segundo informações do Guardian, os clubes e ligas conseguiram convencer Taylor que esta não é uma situação comum e que os jogadores precisarão, sim, entrar no bolo para arcar com uma parte das perdas que toda a indústria terá com a suspensão dos jogos, ainda mais sem saber como será feito daqui em diante. A situação é crítica e há o temor que alguns clubes não consigam nem sequer pagar seus funcionários que não tenham ligação com futebol.

Depois da reunião, os participantes divulgaram um comunicado que dizem que as conversas foram construtivas e que continuarão nas próximas 48 horas. Há uma nova reunião marcada para esta quinta. A Premier League irá se reunir com seus clubes, particularmente, na sexta.

Há uma pressão grande na Inglaterra para que os grandes clubes do país façam seus atletas aceitarem no mínimo adiamento dos pagamentos. O governo não tem gostado que clubes entraram com pedido de socorro financeiro do governo, que é aberto a todas as empresas, para poder pagar seus funcionários não ligados a futebol, mas suas estrelas continuam sendo pagas pelo clube normalmente.

O Bournemouth foi um dos clubes que recorreu ao auxílio governamental, assim como Tottenham, Norwich e Newcastle, mas também foi o primeiro a anunciar que o seu técnico, Eddie Howe, aceitou redução salarial. Além do técnico, o executivo chefe do clube, Neill Blake, o diretor técnico, Richard Hughes, e o assistente técnico, Jason Tindall, todos aceitaram cortes “significativos” nos seus salários, segundo informado pelo clube. O Brentford , clube da segunda divisão inglesa, está próximo de chegar a um acordo com os jogadores para redução salarial.

O programa de auxílio do governo paga até 80% do salário do funcionário, que pode ser no máximo £ 2,5 mil por mês. Os empregadores podem completar o total para, assim, manterem os salários integrais dos funcionários, algo que Norwich e Bournemouth disseram que iriam fazer. Clubes de divisões inferiores, como a League One (terceira divisão), League Two (quarta divisão) e National League (quinta divisão) irão usar o programa para pagar também jogadores. Forest Green e Portsmouth já fizeram isso.

Se de um lado os clubes sofrem com as perdas financeiras, as emissoras de TV têm um problema similar. As transmissoras da Premier League, Sky Sports e BT Sport, compraram os direitos de transmissões por valores astronômicos e se veem em uma situação complicada. Com muitos funcionários tendo corte de salários, há muitos cancelamentos do serviço, já que não há qualquer esporte ao vivo sendo transmitido. A perda de receitas, portanto, também é das emissoras. Até por isso se tornou comum que transmissoras de torneios ao vivo não paguem pelos jogos não transmitidos, ou ao menos essa ser a intenção.

O foco está inteiramente nos jogadores mais badalados e ricos da Premier League, que recebem altos salários e que, na visão popular, deveriam aceitar reduções. Isso se agravou quando foi divulgado que o Tottenham, que entrou no programa governamental, entrou em acordo com parte dos funcionários não ligados ao futebol para cortes de até 20% nos salários. Segundo uma pesquisa da YouGov, divulgada nesta quarta, 92% dos entrevistados acreditam que os jogadores da Premier League deveriam aceitar reduções salariais durante a crise. Outros 67% acreditam que a redução deveria ser de pelo menos metade dos salários.