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Durante a rodada passada da Bundesliga, poupando parte de seus titulares por causa da Champions, Hansi Flick testou um novo esquema tático no Bayern de Munique. O treinador usou um sistema com três zagueiros, dando liberdade aos seus laterais e apostando na tática para abrir a defesa do Paderborn. A inovação não deu tão certo assim, diante da maneira como a linha de zaga sofreu com os contragolpes. Porém, o comandante apostou em algo que se torna costumeiro na Alemanha: um modo de jogo que confere mais protagonismo aos alas.

Dentre os 18 participantes da Bundesliga 2019/20, o Bayern se tornou o 16° clube a recorrer ao uso dos três zagueiros em pelo menos uma de suas escalações iniciais – segundo dados do site WhoScored. Schalke 04 e Paderborn são as únicas exceções. O sistema é o preferido de diversas equipes que ocupam o pelotão intermediário da tabela. É o esquema mais usual de cinco times: Wolfsburg, Hoffenheim, Freiburg, Union Berlim e Eintracht Frankfurt. Além disso, se tornou uma solução bem mais frequente nos últimos compromissos de Borussia Dortmund, RB Leipzig e Bayer Leverkusen.

Tais números não se colocam apenas como uma coincidência, embora também não possuam uma explicação única. As circunstâncias foram determinantes a Dortmund e Leipzig, por exemplo. Aos aurinegros, foi o caminho encontrado por Lucien Favre para proteger melhor a sua exposta defesa – mesmo que a melhora só tenha ocorrido de maneira efetiva com a contratação de Emre Can, prontamente encaixado na cabeça de área. Já os Touros Vermelhos lidam com desfalques no miolo de zaga, após as lesões de Willy Orban e Ibrahima Konaté, bem como a venda do improvisado Stefan Ilsanker. Julian Nagelsmann apelou ao sistema, frequente em seus tempos de Hoffenheim, utilizando os laterais titulares (Marcel Halstenberg e Lukas Klostermann) abertos na defesa com três homens. Para tanto, adiciona outros dois alas mais avançados.

Já dentre os mais fiéis ao esquema com três zagueiros, Eintracht Frankfurt e Hoffenheim merecem destaque por recorrer à alternativa há mais tempo. O Hoffe já tinha a tática entre as suas preferidas, pelas próprias variações promovidas por Julian Nagelsmann. O Frankfurt, por sua vez, se valeu da composição durante os tempos com Niko Kovac e a retomou sob as ordens de Adi Hütter, por mais que o novo comandante tenha tentado reconfigurar a zaga com quatro homens durante suas primeiras partidas na temporada passada. A ideia de jogo, no fim das contas, se tornou essencial à campanha histórica experimentada pelas Águias na Liga Europa.

O Eintracht Frankfurt talvez seja o melhor exemplo daquilo que a linha de três zagueiros pode oferecer. Embora muitas vezes tachada de “defensivista”, a tática também pode potencializar o ataque, a partir de conceitos mais amplos. No caso de Adi Hütter, ela permite que o treinador escale uma defesa com maior mobilidade, embora recuada, além de soltar bastante os seus alas aos contragolpes. Não à toa, alguns jogadores do setor se colocam entre os melhores do elenco nos últimos meses. Pelo lado esquerdo, Filip Kostic se responsabiliza pela armação e contribui demais ao número de gols, sobretudo em velocidade. Está entre os principais jogadores da própria Bundesliga, no geral. Danny da Costa perdeu espaço mais recentemente, mas da mesma forma brilhava pela direita.

Tal protagonismo dado aos alas / laterais tem a ver com o próprio momento do futebol. Diante do caráter cada vez mais físico do jogo, o espaço pela faixa central diminui. O uso dos homens de lado contribui para “alargar” os sistemas defensivos adversários, da mesma maneira como pode providenciar um elemento a mais no apoio. Com três zagueiros, crescem as possibilidades dos alas subirem ao mesmo tempo ao ataque, enquanto preenchem um espaço mais amplo na proteção defensiva. Podem agregar uma arma extra para decidir partidas. O peso dos atletas da posição, visto em times como o Liverpool e a Atalanta, se reflete na leitura dos treinadores da Bundesliga.

O Dortmund é quem está melhor servido de alas como elementos ofensivos. Não à toa, a escolha de Favre também se deve muito a isso. Achraf Hakimi é um dos melhores atletas da posição na temporada europeia, muito incisivo e frequente na criação das jogadas dos aurinegros. Acumula dez assistências na campanha. De maneira similar, Raphaël Guerreiro ganha carta branca para subir, ainda que possua características diferentes. Ocupa melhor a diagonal e também bate bem na bola. Anotou cinco gols até o momento, mais que Julian Brandt ou Thorgan Hazard.

A escolha do Bayern em apostar nos três zagueiros contra o Paderborn fazia sentido pelo lado esquerdo. Alphonso Davies cumpre uma temporada dos sonhos para um garoto com parca experiência na Europa. O canadense chegou à Baviera, em teoria, para se somar como uma alternativa à ponta. Por conta das circunstâncias, vem jogando como lateral e sua fase sai muito melhor do que a encomenda. Segura a bronca na marcação, com bom número de desarmes, e vai ainda melhor nas investidas contra os marcadores adversários. Nesta terça-feira de Champions, o jovem terminou como um dos melhores em campo contra o Chelsea, atormentando a zaga azul pelo lado direito.

Em vários clubes, os laterais / alas estão entre os melhores do elenco na Bundesliga. Marcel Halstenberg fez um ótimo primeiro turno pelo RB Leipzig e agora se vê realocado à linha de três zagueiros, porque Angeliño chegou fazendo barulho ao ser emprestado pelo Manchester City. Christopher Trimmel e Christopher Lenz são os líderes em assistências no surpreendente Union Berlim, um dos times mais fortes do campeonato no jogo aéreo, que também possui uma aproximação mais defensiva e reativa.

Artilheiro do último Campeonato Dinamarquês, Robert Skov passou a jogar mais na construção com o Hoffenheim, se adaptando à função aberto na ala esquerda. Jonathan Schmid é uma das principais peças do Freiburg e ainda assim anda sendo eclipsado por Christian Günter do outro lado do campo. E mesmo o Borussia Mönchengladbach, que prefere jogar com quatro atrás, ataca o corredor através de pontas que centralizam. Com isso, Stefan Lainer e Oscar Wendt aparecem bastante. Ramy Bensebaini foi outro extremamente efetivo quando jogou pelos Potros, apesar das lesões.

Dá para dizer até que o investimento em jogadores para os lados de campo aumentou nas últimas edições da Bundesliga, sobretudo a clubes do meio da tabela. Algumas boas opções foram garimpadas recentemente em ligas intermediárias, como o Campeonato Austríaco e o Suíço. De uma posição geralmente carente de alternativas, há um florescimento de bons jogadores a essa faixa de campo. Até pela progressão do aspecto físico, talvez a tendência de alas essenciais se fortaleça. Os alemães encontram seu caminho.

E quem ainda pode se beneficiar deste conceito tático é a própria seleção. Ao longo de 2019, Joachim Löw recorreu aos três zagueiros algumas vezes, mais notavelmente nos embates com os Países Baixos pelas Eliminatórias da Euro. A maior parte dos principais alas da Bundesliga são estrangeiros, mas a assimilação do sistema pode contribuir à Mannschaft em outras posições, com jogadores mais acostumados ao comportamento e ao posicionamento dentro de tal ideia. Alguns nomes importantes do Nationalelf podem pegar embalo rumo à Eurocopa através do momento de seus clubes.

* Fica o agradecimento ao leitor Henrique Santos Gama, pela sugestão do tema.