O que era sabido há alguns dias agora é oficial. O Tottenham anunciou neste sábado (19) os seus dois mais novos reforços para a temporada 2020/21: Gareth Bale e Sergio Reguilón. A dupla chega do Real Madrid, cada transferência com suas particularidades.

O galês virou algo mais próximo de um assunto extracampo do que jogador de futebol nos últimos dois ou três anos. Sua relação conturbada com os Merengues e as diversas histórias de campos de golfe, imagens de indiferença no banco de reservas e uma bandeira com os dizeres “Gales, golfe, Madri, nesta ordem” acabaram por mudar a percepção da estrela por parte da opinião pública.

Alia-se tudo isso ao alto custo que o Real tinha para mantê-lo em seu grupo, com um salário de £ 600 mil semanais, e Bale havia se tornado um grande fardo ao clube espanhol. O relacionamento foi tão tumultuado ao ponto de turvar o que, em campo, foi na verdade uma excelente parceria.

Ao longo de seus sete anos na Espanha, Bale conquistou duas La Ligas e quatro Champions Leagues, sendo protagonista com gols em duas finais, além de decidir a Copa do Rei de 2014 com um golaço para ficar para a memória contra o rival Barcelona. Os números absolutos também não são nada ruins: 105 gols e 68 assistências em 251 partidas.

Observando o que Bale foi capaz de fazer em campo quando não teve problemas de lesão – e eles foram diversos em Madri –, a chegada do galês por empréstimo de um ano é um negócio que faz sentido ao Tottenham, apesar dos riscos envolvidos ao trazer alguém caro e de tamanha inconsistência nos últimos anos. Mas olhar esta transferência apenas sob o prisma da razão é se equivocar.

A volta de Bale aos Spurs sete anos depois de se tornar o jogador mais caro do mundo ao ir para o Real Madrid é dos negócios mais românticos da atual janela europeia. Nenhum clube receberia tão bem o galês a essa altura como aquele que o projetou ao futebol mundial.

Bale passou seis anos no norte de Londres, entre 2007 e 2013, começando como lateral e avançando ao posto de ponta ainda no White Hart Lane. Em seus últimos anos na Inglaterra, transformou-se em um jogador avançado de elite, deixando a Premier League como o craque da competição. Fez tudo isso em um momento em que os Spurs ainda ensaiavam o salto de patamar que testemunhamos nos anos que viriam. E Bale foi essencial para dar o impulso a este salto.

A sua volta ao Tottenham passa a sensação de ciclo completo. A torcida dos Spurs lamentou não poder ver Bale neste novo clube que nasceu na década passada. O status de uma instituição de topo, a participação em uma final de Champions League e a construção do mais moderno estádio do país foram conquistas importantes, e Bale precisava disfrutar disso.

O carinho e a gratidão ao galês se mantiveram no coração dos Spurs desde 2013, e isso fica claro com o frenesi nas redes sociais e com todo o material de divulgação preparado pelo clube. Bale, de sua parte, parece igualmente feliz, mostrando uma faceta apaixonada à qual não associaríamos o galês nos últimos anos.

“É bom estar de volta. Este é um clube muito especial para mim. É onde eu fiz meu nome. Que clube incrível, torcedores incríveis, e é simplesmente incrível estar de volta. Espero que agora eu possa ficar em forma, ajudar o time e ganhar troféus. Eu sempre pensei, quando saí, que um dia eu adoraria voltar, e a oportunidade surgiu agora. Sinto que é um bom encaixe, é um bom momento para mim, estou motivado, quero me sair bem e mal posso esperar para começar”, disse ao site oficial do clube.

Reguilón, por sua vez, é uma contratação sem contestações racionais. A lateral esquerda dos Spurs precisava de reforço, e o espanhol vem como um dos melhores da posição em La Liga passada, tendo acabado de estrear – e bem – pela seleção espanhola.

O valor do negócio, segundo a Sky Sports, pode chegar a £ 32 milhões com os bônus alcançados. Para fechar a transação e assinar com o lateral por cinco anos, o Tottenham teve que vencer a dura concorrência do Manchester United. A seu favor, teve as circunstâncias do negócio: os Red Devils não estavam dispostos a aceitar uma cláusula de recompra ao Real Madrid, algo que os Spurs, em busca de resultados imediatos, esteve mais do que contente em aceitar.

Bale e Reguilón são duas excelentes adições, cada um do seu jeito, a um mercado agora significativamente bom do Tottenham, que acrescentou também ao seu plantel dois bons nomes da Premier League: Matt Doherty, que estava no Wolverhampton, e Pierre-Emile Höjbjerg, ex-Southampton.

No melhor dos cenários, os Spurs poderão contar com a dupla vinda da Espanha por um bom número de anos. Reguilón, mesmo com a opção de recompra do Real Madrid estabelecida em meros £ 27,5 milhões, segundo o Guardian, vê atualmente Ferland Mendy crescer no clube espanhol, motivo pelo qual não teve espaço agora e possivelmente não teria mais pra frente.

E, se por um lado Bale vem por empréstimo de um ano, por outro o seu contrato com o Real Madrid vai apenas até 2022. O que significa que, no caso de um ano de sucesso na volta à Inglaterra, o Tottenham poderia garantir sua permanência por valor reduzido em comparação ao que teria que pagar em outro cenário por um jogador desta estatura.

José Mourinho, um treinador notavelmente focado no curto e médio prazos, provavelmente não olha tão à frente assim e, no momento, não poderia estar mais feliz com seus recrutas.